Sentimentos acontecem dos fatos

Essas estranhas manifestações dos mortos…

Não. Não havia convivido com o tal do Alberto. Afinal, sua morte se dera há tanto tempo que, para todos, parecia que ele nunca tivera outra relação com a vida além de ter sido sempre um morto. Independente do fato, as minhas atuais impressões sugeriam que de alguma maneira, Alberto e eu, nos aproximávamos cada vez mais sem que as partes manifestassem interesse em estabelecer qualquer vínculo.

O falecido Alberto, a quem fui apresentado “de ouvido” nas muitas histórias de família que me foram repassadas pelos antigos do meu sangue, se tornou um objeto de constante reflexão. Ele, mesmo agarrado na forma mais definitiva de falência, me cutucava impondo uma série de dúvidas sobre a autenticidade dos eventos que me transmitiam: realmente aconteceram ou eram episódios promovidos pela lenda que aquele personagem conseguiu se perpetuar?

Marta Medeiros, numa brilhante crônica, defendeu a ideia que uma pessoa se sobrepõe à morte enquanto existir quem dela se lembre. Apesar de afetivamente concordar com a linha de raciocínio, um filete de ceticismo foi inevitável: se o ser humano investiga durante a existência as suas próprias potencialidades e morre na eterna perseguição de si mesmo, que referências ficarão à lembrança desse ser incompleto? Lembranças são fragmentos do desconhecido. Pedaços que o lembrado esculpiu interagindo com um momento específico de quem se lembrará desses pedaços. Assim mesmo: por uma questão de circunstâncias, disponibilidade, oportunidade… Mero acaso que por qualquer insondável hipótese, fica registrado na memória que será ativada de forma surpreendente à deriva de uma motivação evidente.

Portanto, as lembranças que permanecem é uma fração de alguém que nunca soube realmente quem era – embora muitos de nós tenhamos plena convicção de que nos conhecemos bem. Um anacronismo que se estabelece pela interação de egos distintos. Enfim, o que ficou conservado na minha memória daqueles que se foram são apenas representações, preservadas pelo inconsciente com uma vontade de que coubessem confortavelmente na minha imaginação quase artística.

Saudade – ou fichas semi catalogadas da memória – só se manifesta em mim, sem nenhum pudor, a partir de duas variáveis de intimidade: cúmplices do nosso próprio ridículo, nos oferecemos às gargalhadas; ou sócios de qualquer trágica alegoria do insuportável, nos consumimos na veemência da dor. A tristeza ou a alegria são os dois determinantes de aproximação dos seres humanos. Só por meio dessas duas “damas” vínculos se estabelecem na preparação da saudade.

Mas aí me aparece esse tal de Alberto. Um morto com quem nunca convivi, querendo que eu me sinta pesarosa por não termos compartilhado o mesmo intervalo de tempo. Dele, já guardava uma coleção de histórias que os mais velhos não se inibiam nos detalhes, garantindo que o meu conhecimento não se descuidasse de nenhum deles. Era uma espécie de segunda chance que ele generosamente me concedia. E segundas chances existem? Precisava checar com os familiares se Alberto acreditava em segunda chance… Não havia desfrutado da vida de Alberto e as histórias dele pareciam ser a minha segunda chance. Tão improvável quanto alguém desperdiçar a dentição de leite por falta de higiene só porque a natureza lhe oferece uma segunda oportunidade. Convenhamos: sempre me pareceu um caprichoso absurdo orgânico o ser humano ter duas dentições…

Alberto inaugurou um viés teórico. Essa infiltração de lembranças de alguém que eu passei a conhecer pela memória de outros, muitos, esquadrinhava oportunidades inéditas na minha investigação. Não eram as histórias que me chamavam a atenção, mesmo reconhecendo o tom fabuloso que apontavam para aquele parente falecido; o que delicadamente ia impregnando a minha alma era vivenciar um processo pelo qual um membro da minha família ganhava contornos de lenda. Essa lenda, sem nenhuma dificuldade, iria rasgar tantas histórias individuais para se estabelecer como um brasão de família. Assim, todos os antepassados e descendentes estariam cunhados pela insígnia que Alberto fora capaz – depois de morto.

2 Comentários

  • Brotosaurus

    Bem… O Alberto nos indica que as nossas possibilidades estão todas apenas no momento presente e jamais no passado ou no futuro.

    Grande Alberto!!! Com a sua não presença nos ensinou algo fundamental e que nos remete a refletir também um pouco sobre a nossa atenção e onde ela esta focada.

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