Sentimentos acontecem dos fatos

Recreação de uma alma e seus sonhos amputados

O fato é que falta luz com certa frequência. Para não criar outro problema em cima desse problema, próximo a mim deixo um castiçal, do tipo exótico objeto decorativo, que batizei de “na espreita”. E depois de dois palavrões é ele que, de certa maneira, me permite continuar o que estava fazendo antes da luz ser interrompida. Escrever à luz de vela é quase uma constante, combinada com a regularidade com que a luz se ausenta.

O fato é que os frutos têm seus próprios períodos que se alinham aos meses na cumplicidade das estações. Não adianta o desejo de tangerinas quando são as mangas que se oferecem à colheita. Aprendi a emparelhar as frutas do quintal com o meu desejo em relação a elas. Ao seu tempo as amoras, jabuticabas, limões, mangas, graviolas, cocos, bananas, mamões e tangerinas. Um constante cuidado com relação à saúde da natureza possibilita um arco-íris de sumos e cascas. Já os caroços são sempre claros ou escuros e esses, quando adubados, crescem ao longo dos dias que curiosamente são, igualmente, claros ou escuros.

O fato é que a transformação é certa e dentre todas as certezas transformistas, a morte é a mais definitiva e, na mesma proporção, a menos aceita. Não aprendi a resignação dos ciclos findos. Me é inconcebível admitir que os amados, os próximos ou mesmos os levemente referendados pela memória cansada, tenham a ousadia de se anteciparem quando por preferência me queria precursora nos mistérios do além-vida. Os que me precederam contribuíram para um gosto amargo que enroscado na saudade me permitiu o desconforto de percorrer vazios ambientes de mim mesma.

O fato é que o amor alterna “você” e “eu” numa confusão de egos que com frequência não consagram o “nós”. O contrário do amor, caso ainda não tenham se dado conta, não é o ódio, mas o poder. O vento do dia-a-dia lança para o alto o amor e ele vai, suavemente, brincando no espaço, às vezes à esquerda, outras vezes à direita, até pousar em lugar diferente de onde foi lançado. Mas quando aterrissa se percebe, no canto silencioso da alma, que o poder está ali, na costura da intimidade, ocupando o espaço que se imaginava do amor. E todas as hipóteses a partir daí terão a obrigatoriedade de atravessar um rio de tristezas, seja para buscar a margem do “nunca mais”, seja para alcançar a margem “do que vier”. O amor, decididamente, é uma perigosa desordem da lógica.

O fato é que amanhã não é feriado e se o fosse, onde moro não há remota possibilidade de avistar o mar. Mergulhos profundos, riscos de afogamento, podem ser substituídos por uma mangueira que com alguma delicadeza irá me lembrar das braçadas que a vida exige e da frieza necessária para me manter em alerta já que o tempo insiste em se fazer distraído.

O fato é que na soleira da porta, eu aprecio, sem nenhuma expectativa, o desfile das horas que orquestram um ritmo nem sempre desejável, mas que vão passando, passando. Na soleira da porta, de banho tomado, cabelo penteado, aguardo a minha hora. E não tenho nenhuma hora marcada…

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