Sentimentos acontecem dos fatos

Os caminhos de tantas passagens

A primeira evidência mais forte sobre o quanto fazemos da vida um sonho, ou um delírio, eu percebi através do tom único, de um azul acinzentado, que seu olhar derramava na quarta-feira em que fomos apresentados. Não poderia haver melhor representação do outono que os seus olhos, assim, anunciando a proximidade do inverno. E as “meninas” que se manifestavam dentro deles, interpretavam com absoluta exatidão os silêncios, os movimentos do seu corpo, e até mesmo as intenções que as palavras ditas por você não revelavam.

Cheguei com atraso no restaurante onde havíamos marcado um almoço de negócios. A prática comum – orientada pelos códigos tácitos que regem a demonstração de poder comercial – orienta a quem oferece serviço chegar primeiro, evidenciando inteira disponibilidade com relação ao potencial investidor. Enquanto “potencial investidor”, segui à risca os formais pedidos de desculpas pelo meu atraso de dez minutos e ocupei o lugar depois de agradecer ao maître por me ter conduzido à mesa. Sorrindo, lhe dei todo o convencimento de que era eu a pessoa por quem ela esperava. Foi assim, por uma dessas casualidades da vida, que me sentei frente ao precipício dos seus olhos, com a suavidade romântica com que se descrevem os dias de outono.

Agente particular de interesses próprios, eu me estabeleci no mercado empresarial por reconhecida competência. Atributo este que eu certificava, em muitas situações, tratar-se, exclusivamente, da ousadia na aposta em ideias tão arriscada quanto inovadoras. Portanto, apesar da opinião pública, nunca deixei de confirmar que competência e sorte são indispensáveis ao ilusório sentido de qualquer sucesso. As decisões da empresa eu não delegava a ninguém, e o meu exército não passava de vinte profissionais jovens, incumbidos de apresentarem propostas com, no mínimo, cinco pontos de criatividade sobre os quais eram arguidos por mim. Por mais que investisse no trato igualitário, nem sempre aqueles cuja personalidade mais me agradava eram responsáveis pelas melhores soluções. As minhas preferências pessoais pouco, ou nada, contavam quando os objetivos eram alcançar resultados significativos para empresa. Responsabilidade e ética eram as condições que os jovens muitas vezes tinham dificuldade de reconhecer nas alternativas que apresentavam.

O almoço, que deveria ser executivo, se estendeu até o final daquela tarde impregnada de outono. Depois de ouvir todos os seus argumentos, depois de identificar nos seus olhos os pontos que ainda lhe traziam insegurança, depois de me debruçar na tonalidade com que a sua alma enxergava o mundo, depois de sondar níveis profundos da sua experiência profissional e níveis superficiais da sua vida particular, saímos do almoço em posições diferentes daquelas que o iniciamos: você com um novo emprego e eu com a mais recente funcionária contratada.

Quando digo que fazemos da vida um tropeço assimétrico de um amontoado de racionalidades insustentáveis – ou seja, um sonho delirante – é quando percebo maior coerência com a naturalidade de me saber um ser vivo ainda usufruindo dessa validade. Construí uma empresa sustentada por jovens recém-formados desde que neles identificasse um equilíbrio entre o amor a si mesmo e a capacidade de se doarem a um trabalho coletivo que viesse a beneficiar pessoas que eles nunca viriam a conhecer. Só tirei férias na semana seguinte de quando os seus olhos acinzentados entraram na minha vida enquanto mastigávamos alface e tantas outras levezas que nos alimentam. Cedi para você o espaço que eu ocupava na empresa só porque não existia nada mais transparente que os seus olhos investigando o mundo quadro a quadro. Sempre me senti mais conectado, ou vibrando com o universo, todas às vezes que a razão perdeu para a intuição, e quanto mais desbaratados os pontos condutores da percepção.

As férias da empresa se mantêm até hoje, depois de cinco anos. Nesse intervalo de tempo abri caminho para novas aventuras guiadas por motivações questionáveis: uma parede com tinta vibrante, uma flor solitária num terreno baldio, as mãos de um pianista perseguindo a melodia…. Esses estados embaralhados, confusos, desordenados, diluídos, se arrumam por conta própria se não insistirmos em roubar deles a liberdade com que se aproximam de nós.

Amanhã é o primeiro dia de mais um verão. Com sorte serão iluminados os próximos pressentimentos.

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