Sentimentos acontecem dos fatos

O movimento do mundo

Das lembranças de menina guardei a alegria de quando saí pela primeira vez do oftalmologista com a prescrição para o uso de lentes corretivas. Um contentamento incompreensível para muitos, mas que me deixou bem mais ansiosa que nas noites de Natal, tentando adivinhar o presente e o mistério que rondavam o Papai Noel.

Me lembrei disso porque um amigo me explicou recentemente que não existe qualquer possibilidade do mundo se mover – sequer um milésimo do centímetro – enquanto as forças opostas se mantiverem em posição de confronto. Aplica-se este princípio em qualquer situação e facilmente constatamos que o universo é uma grande negociação de infinitas partes distintas. A minha visão do mundo só conseguiu ser restabelecida porque meus olhos foram ajustados pelos graus das lentes, diferenciados dos meus. Graus distintos, sem nenhuma agressão, se entrosaram para a clareza da visão. Quando esses graus entram em conflito, sou eu quem perde a nitidez.

Muitos anos atrás, me tocou a referência verbalizada por uma amiga, sobre a afinidade de um casal conhecido. Os companheiros eram tão parecidos em tantos aspectos que davam a impressão de viverem dentro de um “aquário”. Os pensamentos parecidos, as perspectivas e expectativas idênticas, os valores coincidentes, todas as expressões de vida comungadas em única hóstia, eles viviam a sequência dos dias relendo o livro de apenas uma página a que suas vidas se resumiam. Viver num aquário passou a significar para mim aqueles estados viciados em si mesmos, preservados no conforto de se manterem alimentados de suas próprias circunstâncias. Um território delimitado e embaçado pela persistência de um prolongado estado atual que nunca se atualiza. Não sei se o casal permaneceu no aquário até o fim da validade da bombinha que reciclava o oxigênio lhes permitindo condição de viver…

Naquela época eu já conseguia me entusiasmar com as inúmeras possibilidades trazidas pela percepção de estar vivendo em “mar aberto”. No início o que importava era a frequência em poder me embaralhar com o maior número possível de aspectos novos. Vivi muitas possibilidades, mas sem nenhuma profundidade. Passava leve pela vida, com a mesma simplicidade de quando se passeia por uma galeria observando as vitrines a partir de dois princípios excludentes: gostar e não gostar. Com o tempo a frenética energia dos incontáveis rodamoinhos, me arremessando de um lugar para outro num voo cego, cedeu lugar a um propósito de permanecer em cada situação de vida pelo tempo que durasse cada situação. Foi então que teve início o processo de entender as engrenagens que fazem o mundo mover.

Passei a prestar muita atenção nas coisas e pessoas que me incomodavam. Ao invés de trata-las como oponentes, buscava entender em que medida as minhas idiossincrasias eram sustentadas por uma espécie de preconceito mantido pelo medo. Um temor de me ver obrigada a rever meus princípios, meus valores, meus entendimentos, se tivesse que conviver com tudo que difere de mim. Exercício dos mais difíceis. Não posso negar. Algumas doses de vodka intercaladas com ansiolíticos ajudaram a perceber, mesmo com a nitidez de um simples vislumbre, o mecanismo que faz o universo girar. Nem as minhas verdades, nem as verdades diferentes das minhas, nem mesmo um duelo entre elas, é capaz de fazer o mundo girar. A rotação da Terra só é possível quando as minhas verdades se esquecem de serem absolutas e as suas verdades perdem a vontade de prevalecer sobre as minhas. A partir daí surge uma terceira opção: um pouco de você, um pouco de mim, nos permitindo avançar na harmonia dos tempos.

Nada acontece quando duas forças idênticas se juntam. Nada acontece quando duas forças distintas competem. É na “terceira margem do rio” que eu quero navegar a minha vida.

2 Comentários

  • Brotosaurus

    Bem…

    Poderia repetir: “Enquanto estamos separados, somos apenas ilusão. Somente a unidade pode nos tornar realidade”.

    Ou ainda: ‘O diagrama do Tai Chi abrange uma parte negra, o Yin, outra branca, o Yang – ambas de superfície rigorosamente igual -, e um círculo que as rodeia e que é o Tao (Princípio Conciliador). A parte negra encerra um ponto branco e a parte branca, um ponto negro, para mostrar que nenhum elemento do mundo dos fenômenos é absolutamente positivo ou negativo. O dualismos primordial Yang/Yin inclui todas as oposições que podemos imaginar: verão-inverno, dia-noite, movimento-imobilidade, nascimento-morte, etc.”

    Será que por essa razão a vida tem que ser aceita na sua totalidade?

    Provavelmente a lição mais difícil de aprender seja a da nossa participação no todo como uma unidade só(Amor)e que se realiza no macro e no micro.

    O Amor a que me refiro não é o eros, nem o philia mas é o ágape.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.