Sentimentos acontecem dos fatos

Monstruosamente inteligente, perplexa e sozinha: um ser inimputável

Meus pés sempre foram sábios: me conduziram por caminhos repletos de possibilidades. Já meus olhos, nunca foram vacinados contra os sentimentos e se desenvolveram longe do alcance da inteligência. Aprendi a lidar com isto desde sempre. Às vezes tentei ser diferente da intimidade de me saber uma pessoa. E por não me reconhecer nessas tentativas, retornei ao que imaginava ser eu mesma. Além de sentimental, outra doença foi diagnosticada muito cedo: a preguiça. Com o tempo vieram outros atributos que me obrigaram ao costume de perceber nos olhos dos outros a estranheza com que me enxergavam.

Passei por muitas avaliações, na maioria recebi a sentença de não me faltarem aptidões para desenvolver o que bem quisesse nessa vida. Levei algum tempo para entender que somente os loucos são ilimitados em capacidade. Com humildade aceitei a minha vocação para a loucura. Foi assim que de tempos em tempos aprendi a valorizar os horóscopos, a entender na formação das nuvens quando tempestade quando delicada garoa, a decifrar no canto dos pássaros quando desespero quando alegre saudação a mais um dia, a baixar meus olhos quando via nas pessoas tudo que elas se esforçavam em não me revelar. Foi uma lenta, pausada, silenciosa, construção da solidão.

Minha decisão mais coerente foi quando escolhi as minhas convivências e amei um punhado de pessoas que geralmente são isoladas e não dispõem das artimanhas de se fazerem amadas. Quando me internei no hospício encontrei o significado mais próximo do que é um lar. A moradia seria perfeita se dela pudesse ter me livrado dos médicos, dos psiquiatras, dos cuidadores e da diversidade exagerada de medicamentos que tentavam fazer de mim alguém que não eu. Primeiro consegui pagar hospícios particulares, mas o dinheiro foi terminando – talvez na mesma proporção em que a preguiça aumentava – e tive que mudar de casa várias vezes, me adaptando às reduzidas qualidades permitidas pela minha disponibilidade financeira. Até que me tornei inquilina dos hospícios públicos que me cobraram bem mais que as condições que eu dispunha para continuar vivendo.

Fui me desembaraçando de muitas coisas. Passei a aceitar, feliz, doações de roupas que com dificuldade traziam dignidade à magreza do meu corpo. Passei a aceitar a universalidade da hipocrisia e do egoísmo aprendendo, em algumas circunstâncias, a usá-las em benefício próprio. Quando me via refletida nas grandes portas de vidro que separavam as muitas alas com que se organizam os manicômios, a minha imagem estava coberta por uma incontável quantidade de post-it, em cada, fixado um substantivo, em outros a veemência de um verbo. Conforme o tempo passava esses adesivos aumentavam, mas sempre foram os verbos os que mais me constrangiam, porque eles guardavam a ameaça de uma ação a ser detonada a qualquer momento, assim imprevisível: sonho, esperança, morrer, sorriso, amar, família, amigos, superação, desconhecer,… Fui ficando presa a tantas etiquetas que o meu dicionário sentimental passou a ser um vasto cobertor sob o qual eu me escondia, evitando as luzes do conhecimento que me deixavam além de cega, anestesiada.

Passei das silenciosas agressões à compreensão e à ironia – intercaladas. Essa habilidade em me tergiversar, foi uma conquista das insistentes tentativas de análises psicanalíticas a que me submeteram. Os requintes da vigilância só me fizeram mais angustiada. A tendência, enfim, ao seu (meu) máximo expoente. Mais difícil que defender-me da humanidade, sabia que precisaria de armas mais potentes para sobreviver à humanidade que forçava o meu peito. E exigia muito de mim.

Minha morte não foi um ato ditado por uma consequência do racional. Não cometi o suicídio apesar das inúmeras razões que justificariam tal gesto. Foi o meu coração, transbordando em sentimentos, irresistível, aflito e descompassado, que se entregou a um silencioso infarto. Meu sorriso, dos mais debochados.

 Para Maura Lopes Cançado (1930-1993)

2 Comentários

  • sandra Bernardo

    Oi Vera..tudo bem?
    A Taninha falou pra visitar seu blog e vim na mesma hora. E..levei um soco da Maura. Maura que nunca ouvi falar, e que me deixou muda, burra. Não sabia o que escrever. Agora vou conhecer Maura. Obrigada por mais essa delicadeza. bjs Sandra Bernardo

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