Sentimentos acontecem dos fatos

Recriação do mundo

Não sei exatamente quando se deu o fenômeno. Talvez numa dessas muitas manhãs insuspeitas em frente ao espelho, antes da boca sentir a frieza da água depois da acidez do dentifrício. Talvez a mudança tenha se manifestado naquele gesto ao se olhar pela segunda vez no espelho, sem nenhuma motivação evidente. Foi tudo tão rápido que nem deu tempo de contar os segundos ou mesmo acreditar que tenha sido este o gesto transformador.

Ele ficou dias seguidos carregando um incômodo. E sempre quando isso acontece é o dia desfiando os fatos sem nenhuma urgência, na varanda, olhando o traço do horizonte de ponta a ponta; quase confirmando que a Terra é redonda. Talvez este seja o fundamento de viver no planalto central com seu grande platô de árvores retorcidas aos 16% de umidade, recobertas da mesma poeira vermelha que desidrata o coração.

E os dias foram substituídos pelos dias substitutos. Nessa rotatividade de ciclos, a única certeza é que o tempo passa. Passagens carregadas com as inúteis considerações sobre aqueles tantos abandonos de si mesmo ao longo do caminho; sobre as tantas possibilidades que ainda não vivera; e sobre todas as probabilidades que adormecem em um travesseiro que pertence ao futuro e não são de ninguém. Os incômodos devem respirar a mesma energia da véspera da criação do mundo.

Depois da introspecção, o estranhamento de não ser mais uma referência costumeira de si mesmo. Uma vertigem por não se reconhecer em nada. O novo exige violenta interrupção dos padrões de agir, pensar e perceber. Nenhuma oportunidade para esmiuçar a arqueologia do caos. Não há o que ser sondado, investigado; tudo que é recente tem a supremacia da emergência. E o medo irá acompanhar a novidade até quando medo e novidade deixarem de compor movimento inaugural.

Despossuído, vivenciando a fragilidade de não caber nas horas, nas décadas, nos milênios do ontem, se percebeu na impossibilidade de qualquer tradução que lhe desse algum conforto. Percorreu todos os cômodos da casa sem saber as motivações para ter acumulado tantas inutilidades em nome da comodidade, conforto, qualidade de vida, modernidade. Armários entulhados, paredes preenchidas, objetos mantidos anos seguidos no fundo das gavetas, ao ponto de não se lembrar de que existiam e nenhuma falta eles fizeram. Tudo aquilo lhe pareceu uma absurda batalha contra o tempo. De que lhe servia a fotografia do menino que foi aos três anos, no colo da mãe? Aquele menino havia morrido, cedendo espaço e vida para outras idades de si mesmo. De que lhe servia guardar aquele mimo que um grande amigo lhe havia presenteado, se abandonado de utilidade só ocupava espaço? Não era aquela inutilidade que serviria de homenagem ao amigo, nem preservar aquilo confirmaria que tinha um amigo. Passou em revista todas as armadilhas colecionadas e a cada constatação, maior a densidade da angústia na causa de tudo. Todos aqueles pedaços preservados resumia a ilusão do que vivera até aquele dia: então era assim que ele presumia que a sua história de vida iria afrontar o tempo e fazer aliança com a eternidade. Tolice. A doença do tempo lhe havia enclausurado nas sutilezas delirantes do infinito. Agora era preciso recuperar a liberdade de se saber coisa qualquer, sem nenhum poder, sem nenhum trunfo, já que qualquer negociação seria impossível, só lhe restando contemplar o movimento ininterrupto da natureza, surpreendendo a cada amanhecer, e ele mesmo se renovar a cada dia no espetáculo diário de viver cada momento com a intensidade de ser ele a única disponibilidade. Sem histórias pregressas, sem projeções de qualquer ordem: o momento que por inteiro se oferece à vida.

Não tenho nenhuma notícia do que ele fez dos dias que se seguiram depois que ele se redescobriu requalificado de tempo: desvencilhado de histórias. Tão intenso, que é um despropósito querer investigar que fim ele levou…..

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