Sentimentos acontecem dos fatos

Esses que nunca estão onde eu estou….

saudade

Acho que foi quando peguei cuidadosamente uma concha na areia que me dei conta que a saudade é um estado avassalador, que nem tem o respeito de bater à porta avisando chegada. Simplesmente acontece e se instala com a mesma facilidade com que se move a cabeça, ou se pisca o olho, ou se vira uma página de livro. Minha alma é uma enorme hospedeira desse sentir às vezes suave, às vezes bruto, às vezes dolorido, às vezes terno. Nunca sei com que roupa a saudade vai me chegar. Mas é certo que chega. Mesmo sem hora marcada sua presença geralmente se dá num primeiro suspiro, um tanto impreciso.

Saudade boa é saudade-primavera, aquela saudade com dias, horas, minutos contados para deixar de existir. É a saudade que antecede o telefone que se sabe e se quer que toque. É a saudade que se enfeita porque o encontro com o não-precisar-mais-se-ter-saudade é quase garantido. É um sorriso bobo iluminando o rosto, na alegria de um encontro anunciado com a força do desejado. Quem dera todas as saudades tivessem esse frescor de flor que se desdobra em fruto….

Existe a saudade-inverno. Essa corta a alma porque confere a certeza da distância intransponível. São saudades eternas, cinzentas, pedaços de nós perdidos num tempo para sempre congelado, num tempo sem pulsação. Saudade blindada: ficará para sempre em nós sem qualquer possibilidade de reconciliação com o presente. Coisa das pessoas que se foram sem nos dar a perspectiva de rever as lições do encontro. Saudade-inverno deixa na gente fragmentos das lembranças já que se espatifaram numa curva da vida que julgávamos, equivocadamente, eterna.

Também existe a saudade-outono. Um pouco tristes porque se revesam nas pitadas de decepção e de resignação. É aquela distância que vai se formando sem ninguém se dar conta. E um dia vem a lembrança de alguém que não se vê há muito e fica tudo por isso mesmo, sem motivação para procurar… Essas saudades são esquisitas na essência, porque existe forte concentração para que elas não durem muito. São saudades que rapidamente entregamos ao astral. Que o astral cuidem delas, já que eu não posso cuidar…. ou não quero cuidar.

E para terminar a linhagem das ausências, a saudade-verão: essas fervem na surpresa de estarem acontecendo. Saudade verão é um grande portal e nada mais. É o estágio inicial. A primeira lembrança de alguém que combina com aquele suspiro de quando nos lembramos de alguém e não o sabemos. Saudade verão é quando abrimos a janela e ainda não sabemos a paisagem que iremos encontrar. Saudade verão é um pouco exigente, pois permanece  até conseguirmos identificar para qual estação das saudades o bastão do tempo será entregue….

“…e por falar em saudade, onde anda você?”……..

Um comentário

  • Tania

    Nossa, amiguinha. Amanheci saudade-inverno hoje. Fazendo antiginástica mesmo as lágrimas ameaçaram rolar sem qualquer pudor… Bom poder ler um texto tão bonito, que me chamou a atenção para todas as outras saudades, principalmente as boas! Um beijo saudade-primavera!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *