Sentimentos acontecem dos fatos

Apagão, teu nome é Brasília

Vocês podem pensar que eu estou me referindo ao obscurantismo político que chegou a níveis surpreendentes – não ouso dizer máximo – nos últimos tempos. Não, não, o “apagão” a que me refiro diz respeito à luz elétrica mesmo. Aquela que em sendo um item tão elementar, não cogita ser incluída em qualquer ranking dos quesitos básicos de um país próspero.

Pois bem, a frequência com que os apagões acontecem em Brasília me leva a concluir que aqui não somos privados de luz, mas sim de lumière. Sim, um produto tão escasso nesta capital federal que se tornou um daqueles bens que povoam o sonho de consumo generalizado da população, comparado à exiguidade que desfrutam o caviar, uma Ferrari, as tecnologias de ponta…. Enfim foi nivelada a qualquer um desses objetos de desejo, com a diferença que a luz elétrica disponibilizada desde 1879 passou a ser vendida como sustentação não apenas de uma melhor qualidade de vida individual, mas também se tornou um pilar do PIB (Produto Interno Bruto) do país.

Pois é, no início, a falta de luz – ainda não acreditávamos que se transformaria em lumière – era menos um desconforto para ser encarada como uma noite diferenciada que nas poucas horas de penumbra nos fazia valorizar a importância de determinados hábitos indispensáveis à luz elétrica. Havia um certo romantismo em procurar onde os castiçais e velas estavam guardados; substituir a televisão pelo radinho de pilhas esquecido na gaveta de um passado tão antigo; contar histórias para os filhos com a emoção de um enredo revisitado de quando se era criança e o pai exercia o mesmo doce ofício na família.

Mas a frequência dos apagões foi se tornando cada vez mais invasiva. Algumas excepcionalidades quando se estabelecem assiduamente trazem desconfortos e prejuízos acompanhados da irritação de se contemplar interruptores inoperantes. Assim, as esporádicas faltas de luz que duravam duas horas no máximo, passaram a interferir gravemente na vida das pessoas: a comida na geladeira, o capítulo da novela preferida, o banho dispensado pela falência do chuveiro elétrico, o micro-ondas inútil de braço dado com a cafeteira. Tantos aparelhos prejudicados, compondo um quadro surrealista das facilidades obsoletas frente a 12, 13, 24 horas aguardando a surpresa do retorno da luz elétrica.

Ah… sim, os aparelhos celulares rigorosamente cuidados nos intervalos disponíveis ao usufruto da eletricidade. Assim, ficam tecnicamente aptos para estabelecer contato com o número mais acionado na era da lumière: a companhia responsável pelo abastecimento de energia da capital federal. Já tenho certa intimidade com alguns dos atendentes: trocamos informações sobre a chuva, sobre a programação de cada um para os finais de semana… coisas que a intimidade das incontáveis ligações telefônicas para o mesmo número nos propiciaram. Infelizmente, apesar da familiaridade estabelecida, nenhum dos funcionários da empresa, em nenhuma ocasião, foi capaz de me informar porque a luz passou a ser um produto tão raro apesar de paga, ou em quanto tempo seria restabelecida. E me cabe ouvir, em silencio, o agradecimento pela ligação que não leva ninguém a lugar nenhum.

Contabilizando prejuízos, incluo além de uma televisão e um home-theatre queimados, a conta da farmácia nos tranquilizantes de baixa envergadura legitimamente comercializados, mas que em breve alcançarão os de tarja preta prescritos por psiquiatras que parecem felizes com o aumento da clientela nos últimos meses. Esse up grade certamente ocorrerá quando eu conseguir polir o ânimo e exercer os meus direitos, tão ultrajados, a uma pálida cidadania.

Para finalizar esse contexto que não pertence a nenhum filme noir, mas à realidade tal qual ela se tornou, os egrégios gestores da companhia elétrica local ocupam a mídia para dois comunicados à população: a tarifa da energia elétrica sofrerá um aumento e a estabilidade no fornecimento de luz só será possível daqui a dois anos.

Portanto, a conclusão possível nesse tempo sombrio, crepuscular, a partir das inúmeras oportunidades reflexivas permitidas pela a ausência da lumière, é acender uma vela para a alma de Thomas Edison.

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