Sentimentos acontecem dos fatos

Aceitei

Depois de cinquenta anos, foi difícil achar a localização exata da casa. Mas ela estava lá: no topo da ladeira. Eu sorri porque aos cinco anos de idade aquela ladeira me parecia bem mais íngreme. Há sempre uma intuitiva equação a ser resolvida, de uma forma muito íntima, na comparação entre os acessos da infância e as interdições da velhice.

O mundo é extremamente grande quando se é uma criança. Mas quando crescemos ele fica ainda maior…

Foi naquela ladeira que tomei pavor das fantasias de “Clóvis” – as que eu só chamava de “bate-bola”: era Carnaval e eu estava subindo a ladeira com meu irmão quando apareceu um desses mascarados batendo o raio da bola bem perto de mim. Abri um berreiro que não se confundia: era pavor, e dos grandes. O berreiro só foi parar quando entrei em casa, mas o pavor esse continua até hoje – mesmo que socialmente controlado – à visão de um “bate-bola”. A partir deste fato não me falem em “Clóvis” e por extensão, evitem me lembrar da existência do Carnaval a cada ano. Foi naquela ladeira, e muito cedo, que aprendi a me sentir protegida dentro de casa e ter enorme preferência por permanecer nela. Mas é bem certo que sempre gostei de janelas amplas e paredes de vidro; todos os artifícios modernos para permanecer em redomas sem que tal situação me prive de observar as efervescências para além do supostamente seguro.

Primeiro se talha o observador, mais tarde, com um pouco de sorte, se substitui a potencialidade primitiva desse fofoqueiro por um cunho científico do qual se arvoram os críticos, ou analistas sociais. Todos são derivações de uma mesma essência.

Deveria ser aquela blusa branca com a sigla “EP” (Escola Pública) no bolso ou a saia plissada azul-marinho; ou talvez as meias, impecavelmente brancas, bem ajeitadas dentro dos sapatos “Vulcabrás” sempre irretocavelmente engraxados… Esses invólucros me traziam algum conforto na medida em que me faziam parecer igual aos demais. Éramos uniformizados e esse padrão me dava certo aconchego na ilusão de fazer parte de uma multidão que tanto corria nos recreios quanto ficava apreensiva nos dias de prova. Sabia que era uma criança e acreditava – ou achava de direito – que todas as crianças fossem iguais.

Crianças são diferentes. Nunca contam histórias iguais. Conseguem driblar a vigília da leveza e assim constroem personagens com os quais moldam as suas almas à revelia da felicidade. As inquietações se aprofundam na solidão do indivíduo. Todos.

Foi algum tempo depois, por insistência das comparações, que me vi obrigada a encarar as minhas diferenças. Fui percebendo na minha ingênua curiosidade, que havia uma tendência generalizada no mundo dos adultos em cultivar uma ruga entre os olhos quando tentavam aproximar as sobrancelhas, sem mencionar que sempre insistiam em dividir tudo segundo os contrários: bem e mal, bonito e feio, interessante e desagradável…. No universo gramatical e existencial, foram os antônimos a lição que mais tempo eu levei para dela me libertar ao longo da vida. Antônio foi o meu primeiro namorado e talvez a partir desta rudimentar paronomásia nos separamos após listarmos todas as nossas diferenças. Raridade em nos sabermos sinônimos.

O que mesmo da classe existencial dos humanos você nunca faria? Quando o amor é absurdo equívoco de sentimento, se é capaz de matar. Quando a razão alcança um insuportável limite lógico, aceitamos qualquer droga que nos seja atirada, em nome da preservação do convívio. Quando há a promessa de jamais mentir – para os outros e para si mesmo – o homicídio ou o suicídio farejam a fragilidade dessa existência. O que mesmo você nunca seria capaz de fazer? Nada permanece coagulado no mesmo sentido se houver ousadia em se deslizar a percepção por diferentes ângulos.

Toda existência é rica, mesmo aquela que de tão pobre consegue enriquecer o repertório das temáticas sociais.

Depois de cinquenta anos fui visitar a casa da minha infância. Só sobrou a ladeira. O casarão não mais existia. No seu lugar, um enorme prédio residencial de arquitetura moderna e com todas as valorizações de infraestrutura que alardeiam o conforto de se permanecer naquele espaço. Despejada do meu próprio referencial de criança só me restava uma velhice onde me agarrar. Aceitei.

Fiquei então com a imagem da ladeira – subidas e descidas – como o símbolo permanente dos caminhos – muitos esquecidos – que me levaram até onde eu estou.

E sabe deus onde eu estou?

2 Comentários

  • kelly

    “…foram os antônimos a lição que mais tempo eu levei para dela me libertar…”. É justamente esse tempo que me angustia. Ou, talvez, essa teimosia de me enxergar em um processo moroso, em que sempre tenho que ter mais tempo para me libertar. E de quem?
    Acho que no meu caso, não somente dos antônimos, mas, principalmente desse ego. Maldito ego, aliás, maldito tempo. Tá! Tudo bem, possa ser bendito também, mas pra quê, por quê? Do que, nessa vida, vale esse tempo? Rumino, divago e não chego a lugar algum, e ainda tenho que aturar que o tempo não é mais: é sempre menos. Como assim?
    Então, não é angústia e sim ânsia. Acho que também não?! São tantas as contradições que de derradeiro só o tempo. Não! Acho que há falta de tempo, porquê seu excesso pode ser angústia e sua falta pode ser a ânsia. Mas qual o tempo? Onde toco nele, se só o enxergo através do espelho. Será que sou tão alienada que só o enxergo na conquista das rugas, também por mim desejadas. Será que é castigo vivenciar um processo de enclausuramento do ser e assim ter tempo. Sim porque cada vez mais meu processo se torna solitário.
    Acho que não dou conta desses paradoxos que teimam em me fazer enxergar, nesse tempo, cada vez mais reacionária. Antiquada mesmo. Sei bem, aliás, mal sei, ou melhor ainda: nunca prestei atenção no próprio tempo. Mas afinal se eu for prestar bem atenção nele, acabo nele. Bem, porque se vivo nessa “gustiânsia” e se não encontro resposta para nada, somente maquiagem para a alma, ou viver do nada, é sinal que minimamente mato o tempo. Pelo menos o meu tempo. Desculpa tanta confusão, mas na falta de tempo não tenho tempo para me manter coesa tão pouco coerente.
    Vera amei seu tempo que, paradoxalmente, mobilizou meu tempo. E pela sua frase: “E sabe deus onde estou?”, termino eu: Em que tempo estou?

  • Vera Menezes

    Kelly, muito rica a sua reflexão. Obrigada. Me lembrei do meu avô que dentro da escassez de ternura que o tempo esculpe nos adultos muito sérios, eu o ouvia, encantada: “O tempo perguntou ao tempo: quanto tempo o tempo tem? O tempo respondeu ao tempo que não tem tempo para dizer ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem”. Essa lembrança veio lá do “túnel do tempo”. Obrigada também por isto. Bjs.

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