Sentimentos acontecem dos fatos

Sobre o amor incondicional

PIG

Companheira de todas as horas. Fica sempre por perto, acompanhando os passos e adivinhando os sentimentos. Natureza dócil até não poder mais. Me ensina de muitas maneiras que ser racional é a diferença entre nós. E eu que carregue essa coisa de pensar, comportar, saber das consequências, medir as ações, a ela a competência cristalina do amor incondicional.  Contrapontos que se complementam nas reações e disponibilidades de cada uma. E eu que entenda isso muito bem e não faça nenhuma exigência para além da permissividade dos olhos serenos que sempre me dedica.

Vamos vivendo assim. Eu ralhando pelos absurdos tão naturais da vida de cachorro e ela olhando para mim com a cabeça inclinada como se estivesse fazendo um esforço animal de entender tanta zanga. Se brigo muito (o que me leva para bem próximo do irracional)  ela não se afasta, apenas me olha a uma certa distância, esperando eu me recompor no tom de voz, na tranquilidade do olhar.  E o seu olhar paciente fica pedindo para os trovões e raios passarem logo e eu voltar a ser quem ela reconhece e a ela merece.

Por falar em raios e trovões, essa companheira que assusta a todos que de mim se aproximam – seus saltos acrobáticos a uma altura surpreendente sempre impõe distância –  fica completamente frágil e amedrontada quando a chuva se anuncia em raios e trovões fazendo muito barulho nas telhas que nos protegem. Então ela vem para mim com sua patinha esquerda – ela é canhota – me puxando pelo braço e pedindo proteção. Eu fico olhando aquela cena que não tem muita coerência com o comportamento solar, e por instinto a abraço, em autêntica expressão do melhor de animal que ela me ensinou. E levo tempo para ela entender que está tudo bem: as chuvas fazem mesmo barulho e que precisam assustar, sacudir os homens para as coisas irracionais que eles andam fazendo com o planeta. E haja tempo e exercício de paciência para ela, então, recobrar o olhar tranquilo que se relaciona com o mundo na maior parte do tempo.

Minha companheira é muito generosa. Fica esperando os outros terminarem de comer para então comer. Cede o lugar no sofá quando tem outro querendo o mesmo espaço. Defende a filha sem outra reação além de se colocar no meio das querelas caninas – que eu nunca entendo porque acontecem. É de boa paz, mas guarda um pouco de ciúme da minha atenção – acho que é isso a única coisa que gostaria de ensinar, na minha posição de humano, da inutilidade e ineficiência de demonstração. É de um amor tão sem tamanho, que me levou ao choro na vez que saiu correndo na minha direção até fazer com que eu me levantasse da cadeira e a seguisse para socorrer a filha que estava tendo um ataque convulsivo no quintal. O que dizer disso? Nada. Apenas chorar mesmo e reconhecer na minha companheira uma grande, fantástica, imensa cachorra. E agradecer o privilégio de termos nos encontrado nessa vida.

O peso dos anos já dão sinais na sua vitalidade levemente comprometida. Pouco importa, amiga, se a separação se anuncia. O que conta mesmo são esses nossos olhares que se cruzam para além do racional e o irracional, e se compreendem e complementam no afeto que não me cabe explicar. 

5 Comentários

  • Tania

    Desnecessário dizer que me emocionei, né? Afinal, vc tb conhece minha natureza. A lição sabemos de cor, só nos resta aprender. Beijos e beijos.

  • Vera

    Oi Livinha,
    Esta se chama Pig. É mãe da Vicky (pretinha) e senhora do Thor. E todos são amiguinhos da Ella de Mais. Ainda bem que cachorros não sabem ler pois teria que administrar um problema doméstico pelo fato de ter privilegiado uma em detrimento dos outros três….
    Saudades de você…..

  • Chris

    Essas crianças são muito queridas, amigas, safadinhas até. Fico feliz por tê-las em sua companhia sempre constante. O meu bebezinho quando se foi foi uma dor infinita dividida contigo, lembra-se amiga? Existe amor mais incondicional do quê desses seres de Deus? de certeza que não.

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