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Porque todo ser é sem limite

Certo dia Diego saiu de sua cidade. Estava decidido nunca mais voltar. Mas parece que o destino – se ele acreditasse nessas coisas de predestinação – tinha outra decisão e o colocou novamente frente a frente com o território que ele queria abandonar.

Os anos passaram e ele não era mais o mesmo. A roupagem era outra; seus cabelos de outra cor… O tempo lhe transformou; até o nome “Diego” foi rejeitado. A impressão é que lentamente ele foi se diluindo ao longo do tempo – sem conseguir se eliminar de sua história – para se tornar “aquela” que sempre desejara ser.

Sem saber a força que as amarras podem exercer no corpo e longe de querer ser diferente da pessoa que se tornara, ficou desconcertada quando o desejo se manifestou pelo avesso da pessoa em que se convertera. Diego, que agora era Maria, nadava em um mar aberto em possibilidades. Depois de tanto tempo, depois de assumir tantas formas, sem fôlego, já não era capaz de decifrar na sua essência o que lhe reservava o destino. Agora, sendo Maria, se impunha fidelidade a sua alma e as inúmeras regras e circunstâncias bem ordenadas para a sua conduta. Mas dentro dela pulsava uma força desbravadora; se alastrava uma curiosidade imperiosa. Outra vez se desconhecia; outra vez se encantava por ser sem limites.

Maria e Diego se encaravam. A tensão entre eles era voraz na disputa por um mesmo espaço. Os dois desejavam ser apenas um. Ambos competiam pela exclusividade de um único corpo. Pendenga de almas prisioneiras do corpo:

Maria: Por que agora você quer me afastar? Agora que te mostrei que esse corpo também é seu e que é comigo que a beleza e a arte te fazem feliz. Por que agora?

Diego: Não te pedi de volta o corpo!

Maria: Como não?!

Diego: Não. Você, da maneira que é temerosa e frágil, fica inventando paranoias. Coisa típica de mulher.

Maria: Mas isto é muita ignorância! O seu machismo se impõe para que eu não possa me manifestar. Você desperta o seu homem para que eu me sufoque sem expressão. Sabia! Eu sabia quem você era e agora você me confirma que continua sendo o mesmo.

Diego: Espera aí! Quem de nós dois é o machista aqui?! Como você é capaz de reconhecer somente em mim tanto machismo? Você ainda não se deu conta que somos uma peça única? Sempre teremos a mesma essência, não importa o homem, não importa a mulher.

Maria: Então tá! Agora você ficou machista em dobro. Só falta você me dizer que tirou de si mesmo uma costela para que eu tivesse condições de existir.

Diego: Sim e não. Saiba que quando o meu desejo se confundia com o seu, eu era criança miúda descobrindo o mundo. Alcançava os sentidos de tudo com a fragilidade da inexperiência. O tempo foi nos desenvolvendo até o dia em que você cresceu. E como nas brincadeiras de adulto onde só uma coisa é o certo, você me disse adeus. Não morri, nem mesmo adormeci: sempre estive aqui na genética de que somos feitos. Pode ser até que eu seja machista – nós sejamos machistas -, porque nem você nem eu conseguimos escapar das armadilhas cruéis que as diferenças são capazes de construir. Não quero te ofender tampouco causar preocupações. É o amor que me trouxe à tua presença. Para que eu possa te fazer feliz é preciso estabelecer nossa convivência, sermos um. Cansei dos bastidores e de te ver apanhar sozinha. Cansei de querer te defender e você me dispensar numa retórica autossuficiente comum às feministas. E eu te observava agarrada as suas próprias forças, convencida que eu não era necessário. Cansei de ser submisso a você e me manter imobilizado ao te ver perdida nesse caminho. Vamos nos manter juntos a partir de agora. Fique calma. Não há necessidade de me agredir.

Maria: Sei… Isso deve ser um truque e daqueles bem baixos. Uma dessas estratégias usadas por esses camaradas que dizem proteger e de conversa-mole em conversa-mole vão tomando as rédeas da minha vida até me colocarem na cozinha, ou então me colocarem na cama, enredada nos mais baratos dos desejos. Conheço bem o seu tipinho.

Diego: Maria, eu só tenho a lhe dizer uma coisa: vivi com você e você viveu comigo. Por dezessete anos, no mínimo, te dei espaço para ser quem você é hoje, agora você me tira para machista ou um desses inanimados que reforçam a cultura fácil. Se existiu alguém nesse mundo que lhe deu força, esse alguém fui eu. É importante que você compreenda isso, afinal, se fui definido por uma genitália, abri mão do meu corpo inteiro para que dele você se servisse. Lógico que a força que te dei você me devolveu em dobro, e é em nome dessa força que peço o seu amor. Não precisamos desses embates eternos, basta que nos esforcemos em saber um do outro. Permita que eu caiba em você com o amor que sempre preservei você em mim.

E esse combate continua. A história conta que todos os dias Maria chora e que Diego se arrependeu de ter desistido de trazer Maria para junto dele. Maria pensa em morte e Diego não quer outro adeus.

Não sabemos qual o destino de ambos, pois eles são hábeis em virar as costas para os desígnios. O que intriga é o fato de Maria estar preparando a corda e Diego se entristece com esse ritual. O destino de um, inevitavelmente, alcançará o destino do outro.

Kelly Vieira

(autora do texto, colaboradora deste Blog)

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