Colaboradores,  Sentimentos acontecem dos fatos

A Viagem de Existirmos

São tantos os medos e bem sei que maiores ainda os desafios para tentar superá-los. Medos que na alma dos dramáticos ganham volume. Eles ocupam espaços e se contrapõem por mais determinadas que sejam as intenções dos passos. Medos que deixam de perceber as oportunidades, sobretudo aquelas que se aproximam do carinho. Contra o medo, a sorte grande do afeto se impor como uma suave armadilha.

Foi numa dessas viagens encantadas em que o desejo se estabelece como destino, que encontrei uma mulher, dessas de espírito largo cuja existência exala os melhores perfumes. Ela me acolheu sem levar em conta nosso pouco tempo de convivência – pessoas que têm sede de amar não levam em consideração o que para muitos significa prudência -, me abriu a sua casa, me apresentou aos seus filhos, e me deu o que comer. Alimentou o meu corpo e hospedou a minha alma por inteiro, com as inseguranças e receios que carrego nesta minha vida.

Com muita naturalidade coloquei em suas mãos as minhas amarguras: “Não sei viver desta maneira”. Ela me rodeou, me olhou com suavidade, confirmou em silencio a capacidade que eu desconheço em mim, e com muita simplicidade me tirou alguns véus: “Diego e Maria nunca abandonaram você. E que sorte nenhum dos dois terem desistido de você. Seja gentil e deixe que eles se expressem porque não há zona de conforto que possa se manter quando a nossa individualidade se sente reprimida. Viva a autenticidade de ser por inteiro as muitas partes de tudo que somos. Não tenha medo de ser feliz”. Foi assim que eu percebi que o meu medo era proporcional à intensidade com que eu me agarrava aos antigos hábitos por julgá-los irreversíveis simplesmente porque minuciosamente me preparei para nunca abandoná-los. Os meus medos perderam intensidade na medida em que eu passei a reconhecer que o meu apego ao passado me impedia de existir para tudo que à minha volta reclamava uma oportunidade para acontecer. E acontecer é mesmo a única possibilidade de celebrar a vida.

Hoje eu me lembrei dessa viagem e novamente trouxe para perto de mim aquela mulher. Foi com ela a leveza de dizer “eu te amo” sentindo em nós a criança cheia de curiosidade encantada nos braços da novidade. Foi para ela que ao dizer “eu te amo” me despi das mentiras, me libertei dos próprios boicotes e atirei para longe as amarguras do passado. Toda a liberdade de entrega quando nuas, duas almas se encontram e percebem que há muito se procuravam. Acho que gratidão é o que se sente todas as vezes que alguém nos convence de que podemos perseverar na realização dos nossos sonhos, dos nossos desejos. Foi a gratidão que me incentivou a escrever; é a gratidão que um dia me fará abraçar a minha mãe inaugurando uma relação mais libertadora; será por gratidão tudo que alcançarei a partir dessa minha enorme vontade de ser, mesmo não sabendo exatamente o quê.

É um conforto ter certeza que essa mulher sabe do amor que sinto por ela, que transborda no meu carinho e se espalha na minha generosidade. Escrevo agora, antes do tempo futuro, a importância de ser você a minha inestimável amiga.  E se algum dia o medo chegar perto, lhe devolvo o que você me ajudou a descobrir: o medo é o seu melhor amigo, pois é com ele que você convive e vive a grandeza de saborear a sua existência. Ele é o termômetro da realidade.

Obrigada por você existir em mim.

Kelly Vieira

(autora do texto e Colaboradora deste Blog)

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