Sentimentos acontecem dos fatos

Gotas floridas da felicidade

A referência são os Florais de Bach e o motivo é confirmar, a partir de um método pouco ortodoxo, a eficácia desse sistema medicinal.

Pois bem, me ofereci para acompanhar uma amiga a uma consulta da medicina homeopática. Na saída fomos à farmácia de manipulação para aviar a receita, do outro lado da calçada ao consultório. Os vinte minutos de espera para se ter os medicamentos entregues, foram mais que suficientes para que eu vasculhasse prateleiras, inspecionasse uma série de produtos que a concessão poética – ou delírio mesmo – remeteu ao meu quintal. Natural para mim é este pedaço de terra que oferece, apesar da minha frequente desatenção, frutos que me enchem os olhos tanto quanto a alma. Mas eu estava numa farmácia com um letreiro enorme que se empenhava em me fazer acreditar que também era natural. A receita sumiu atrás de uma porta, sentenciada a ressurgir em vinte minutos acompanhada por uma boa quantidade de vidrinhos que só se diferenciavam pelo rótulo caprichosamente fixado na mesma posição, em cada um deles. Fiquei imaginando que atrás daquela porta – talvez um umbral sagrado – trabalhavam silenciosamente gnomos, fadas, silfos, duendes… organizando partículas da natureza (a mesma disponível no meu quintal) com a engenhosidade que eu confiro aos iniciados em magia, para que em curto espaço de tempo porções de cura se enfileirassem sobre o balcão da farmácia, ao lado do Caixa. Então aquilo era a Natureza que numa combinação de potências matemáticas ou espirituais, ou ambas, permitia a cada indivíduo a sua exclusiva, quase egoísta, ligação com a cura. Eu sei que meu quintal é encantado e o quero assim, uma insondável botica jamais investigada pelo conhecimento. Sempre me curei nas vezes em que corri para a mangueira num abraço de olhos fechados…

Eu ia amontoando esses pensamentos, numa espécie de brincadeira de não-querer-chegar-a-lugar-nenhum, e foi aí que numa das prateleiras da farmácia, daquelas que ficam mais abaixo da linha da visão e, portanto, exigem uma inclinação do corpo para se ter contato visual. Enfim, essas coisas da ciência do marketing que sugerem pela facilidade, ou dificuldade, visual com que o produto é colocado na vitrine, o quanto ele enfeitiçará a cobiça do consumidor… Mas foi então que o rótulo de um vidrinho, meio a tantos outros tão parecidos, me fez suspender a respiração e experimentar a sensação de uma enorme vidraça se espatifando em mil pedaços com mil sonoridades, dentro de mim. No rótulo lia-se: “Sensação de Tristeza e Estado Depressivo”.

Num gemido recoloquei meu corpo na posição ereta, ao mesmo tempo em que a minha mão direita alcançava o vidrinho e o trazia para bem perto de mim. Ora, ora, ali estava um remédio genérico comercializado numa farmácia homeopática – contradizendo o princípio da unicidade científica – para um sentimento cuja manifestação eu nunca julguei que duas pessoas pudessem vivenciar com a mesma intensidade e com idêntica expressão. Virei cuidadosamente o vidrinho de cabeça para baixo, bem apertado na minha mão. Estava misturando, suavemente, as incompatibilidades do amor; as insatisfações profissionais; a solidão quando se veste de desamparo; os desejos que permanecem insistentes mesmo que impossíveis de serem alcançados; a saudade que persiste quando a morte a decretou inútil; a escassez de sorrisos; a intolerância que rasga todas as possibilidades de gentileza e se instala na violência desse tempo tão difícil para a decodificação de seus sinais… Ali, na palma fechada da minha mão, um antídoto para tudo isso e por um preço que não me levaria às lágrimas.

Trouxe para casa o vidrinho com o seu líquido milagroso. Funciona. Definitivamente, ele funciona. Nunca o abri. Nunca soube que gosto tem aquelas gotas – mas desconfio que o sabor deva se modificar com muita frequência, porque a alegria que eu conheço é irrequieta e fica saltitando pelas mais variadas coisas, colorindo tudo. Uai, se eu nunca tirei o lacre do vidro e se nunca provei o seu conteúdo, vocês devem estar se perguntando como eu posso afirmar que o remédio é eficaz. Explico: eu coloco o vidrinho bem na minha frente, onde quer que eu esteja. Nas vezes em que a minha alma perambula por sombrios porões, deixando um rastro de tristeza nos meus pensamentos, eu pego o vidrinho e me posiciono para lhe retirar a tampa. Bastam poucos segundos – talvez o mesmo tempo que levaria para colocar algumas gotas na boca – e eu estanco o gesto, congelando a atitude com uma única pergunta: “você vai mesmo fazer uso das gotinhas em nome dessa intensidade de momento?” Sem nenhuma resistência devolvo o vidrinho à posição original. Nenhum conflito, apenas a perspectiva de poder estar desperdiçando as gotinhas frente à possibilidade da vida – ou de eu mesma – me estar reservando tristezas maiores, agonia mais contundente, desesperos mais legítimos. Portanto, a única conclusão aceitável é que o remédio funciona sem apresentar nenhum efeito colateral.

Recomendo o medicamento, a posologia e, naturalmente, o método de lidar com todas as situações que só dependem de nós para serem mais bem digeridas.

O fabricante, eu desconfio, ser a vida mesmo…

4 Comentários

  • Brotousaurus

    Bem… Parece que a melhor alternativa aqui também é receitar um “remédio”. Vamos lá!

    O que posso receitar vai ao contrário do convencional que recomenda que na presença de algum “incômodo” sigamos direto para as prateleiras da vida onde para todos os “males” existe um antídoto eficaz correspondente.

    Minha receita passa primeiro por aceitar esse “incômodo” físico, mental ou emocional, procurando vivenciar essa sensação o mais possível, pois provavelmente alguma coisa nova nos será apresentada.

    O que tenho constatado é que além do fato em si, ou seja o “incômodo”, agrego de imediato os meus conceitos sobre essa questão e com isto, no geral, um grande drama fica montado.

    Então! Tenho fato em si mais o drama. Ai não tem remédio que dê conta até que se consiga ver com clareza o que está acontecendo. Se ficar nisso pode até ser que um dos dois não exista. E dai?!

    Tenho percebido que nesse jogo, além do embaralhamento do físico com emocional, entra uma cabeça (mental), que se entende como ” parte” mais importante, querendo resolver essa situação sempre de forma cartesiana.

    Acima está a receita para ser percebida por quem se propor a aceitar e ficar atento por alguns momentos.

    Percebo que a autora usou seu vidrinho mágico como despertador que a chamou para esse momento de silêncio onde muita coisa se resolve.

  • Renato

    Que belo texto! Dá prazer de ler – e, assim, se dissipam eventuais sensações de tristeza e estados depressivos…
    O texto pareceu-me possuir algumas gotículas de ironia… Mas o que importa é que as gotas da farmácia dos florais se mostraram eficazes, como um placebo ou como a poderosa força positiva da mente ou, ainda, como um fator psicológico único…

  • kelly

    Carambolas, para alguns, resolve a sensação de desânimo. Limão é para calar e buscar a introspecção. Manga, talvez resolva as dificuldades de afeto, e eu vivo buscando um método para não tomar nada e um meio para resolver tudo. Adorei o Brotousauros, também do teu texto, mas inegáveis as colocações dele. Acho que ele transcendeu o além das palavras. Estou com saudades. Beijos.

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