Sentimentos acontecem dos fatos

Melodia Sentimental

Passava um pouquinho das três da manhã. Não sei se fazia frio ou calor no dia 22 de fevereiro. A memória me foge ao tentar buscar o que eu estava fazendo naquela madrugada, trinta e um anos atrás. Mas basta virar um tantinho o pescoço e aquela segunda-feira de 1982 desenha em mim um sorriso, em nome de um futuro que eu não podia imaginar assim “inestimável amigo”, flutuando em possibilidades que não preciso adivinhar para sabê-las que ficarão onde o peito guarda os vários significados da ternura.

Poderia rascunhar os inúmeros acontecimentos históricos que ficaram registrados em 1982, mas nenhum deles me alcança com a mesma intensidade de sentimento daquela madrugada de 22 de fevereiro. E tudo acontecia sem que eu tivesse a dimensão da importância. Até hoje sou muito distraída para as noções de destino. Me disperso nos encantos do momento e neles me instalo com ares de para sempre. Entendo agora que a genealogia do afeto aponta uma possível noite enluarada que de tão suave só a posso recuperar pela vocação que tomo por empréstimo aos sonhadores.

Saber que foi em 1982 que o Partido dos Trabalhadores conseguiu o seu registro definitivo, não me impressiona. Nem consigo rastrear as consequências que teve a viagem do presidente João Baptista Figueiredo ao chefe de estado americano, Ronald Reagan. Não me afeta em nada a informação de que foi naquele ano a inauguração da Usina Hidrelétrica de Itaipu, mesmo sendo ela a maior do mundo, até hoje. Pesquisar quais foram os eleitos para governador, prefeito, senador e deputado na grande mobilização pelas eleições diretas é tarefa a que não me presto por puro desinteresse. Nenhum acontecimento daquele ano é capaz de superar a emoção de se nascer em pleno Carnaval, interrompendo o silêncio que antecede o alvorecer para ser acalentada na respiração suave que todas as cidades experimentam no avançado das horas.

Nasceu no sul só para provar que a busca do “norte da sua vida” não se serve de atalhos e nem desperdiça a possibilidade dos demais pontos cardeais. Desde muito cedo teve maior facilidade para identificar o que não queria para si. E talvez a constância em lidar com as negações tenha impregnado de dúvidas o reconhecimento de algumas afirmativas. Mas foi esta particularidade de se reconhecer e se estranhar em todos os contrários, que a trouxe de mãos dadas a completar mais este aniversário. Na frequência do “não” e do “talvez” foi moldada uma personalidade questionadora que de vez em quando precisa parar, beber água e relaxar um pouco, para prosseguir na aflita solidão das rotas que se entrelaçam pela determinação de a tudo viver. Realidades, sonhos e delírios se instalam sem cerimônia e desenham os cenários da procura de si mesma.

Chegou na minha vida vinte e sete anos depois do Carnaval de 82 com a mesma ansiedade do verão ao se aproximar do outono, imaginando poder aprender algo de uma estação que passou por todas e só espera o definitivo inverno. Como todo verão, espalhou luz, tempestades e raios, e todas as intensidades que vão do céu claro ao sombrio que encobre as estrelas da alma. Me ensinou muito, sobretudo as habilidades de trapezista que sobre o fio quase invisível, trançado de esperança e determinação, sabe enfrentar o enorme espaço a sua volta onde se respira o medo do absoluto. Me ensinou a sorrir das ingênuas inseguranças que revelam a criança assustada de mundo por dentro de uma mulher que a tudo pode e a tudo quer. Com um pouco de sorte, o inverno ainda me permitirá sentir orgulho de algumas de suas conquistas, principalmente a conquista de si mesma que lhe trará mais leveza para as questões de futuro e que me sugerem os jardins de Rodin, lá do museu em Paris.

Pessoa a quem eu quero um bem enorme. E por ser seu aniversário, não há superlativo que possa exprimir o meu desejo de lhe saber feliz. E quando o vocabulário é limitado para expressar o sentimento, busco nas melodias o que talvez não possa nunca ser traduzido na exata dimensão da emoção. Mas fica a tentativa…

…e a esperança de conseguirmos provocar por muito tempo um sorriso espontâneo, desses que nos acontece nas vezes dos nossos encontros.

Para KVM

4 Comentários

  • kelly

    Um brinde à vida.
    Um tim-tim à sincronicidade que nos atravessou e que hoje me oferta uma amostra do sentimento inundado nessa conexão.
    Quero dizer que não encontro palavras que alcancem o sentimento vivido ao ler e reler, enésimas vezes, cada letra que compuseram esta declaração de amor. Dizer que ainda estou aqui tentando encontrar um jeito de te agradecer a altura do que recebi.
    Daqui a pouco, depois que meu coração voltar a bater mais calmamente, encaminho meu OBRIGADA por ter você bem pertinho de mim. Mas por enquanto: Te amo.

  • kelly

    Receber uma declaração como a apresentada neste momento da minha vida, momento em que inicio um aprendizado sem palavras, no espectro do sentido, que me faz temer o simples cheiro da vida, é algo que não dou conta do agradecimento. Minimamente, me paralisa a alma e me faz perder todo e qualquer sentido da palavra. Não basta dizer: “muito obrigada”, tampouco: “estou emocionada”. Pois esta alma que me escreve é um ser que me atravessa nas implicações do amor.
    Sei que quem está atrás das palavras, dentro do sentimento denunciado, também compreende o que a distância dá conta de fazer sentir. Meu momento é algo que me faz diferente, um ser literalmente híbrido, algo que me movimenta para um conhecer diferentes ângulos da vida, mas principalmente bagunçar as cômodas normas sociais.
    Tenho tantos desejos que me impulsionam a viver a vida de uma maneira tão diferente e, paradoxalmente, tão idem a que já levo há muitos anos. Talvez o paradoxo que se apresenta me deixe em xeque mate, frente a frente com meu rei, por saber que nesse sentimento paira a desgraça da fantasia: “complementaridade”. Algo recorrente em minhas eternas fantasias: encontrar a metade da laranja, a tampa da panela… Essa imensa necessidade de me ver completa, de encontrar o algo que me falta.
    Mas, ao mesmo tempo em que é uma necessidade invisível aos meus olhos e, principalmente, à minha mente, estou conseguindo visualizar as consequências desse imperativo. E de alguma forma, ela, me faz outra, inclusive na vivência. Nesse momento consigo agradecer denunciando que isso tudo me faz muito bem, me faz escrever, sentir e viver de maneira diferente ao saber que existe algo, meu pedaço, que vive num outro lugar e que as queixas de: “dificuldades financeiras e de acomodações do ser”, fazem-nos viver de maneira ímpar uma linda história de amor.
    Já te disse: “Obrigada por viver em mim” e te afirmo: “Obrigada por existir no eu”.
    Te amo minha Veruska.

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