Sentimentos acontecem dos fatos

Distante Democracia

Estou há alguns dias com um incômodo circulando do cérebro à alma, sem calma. Fiquei assim depois de um telefonema, tentando ao máximo escapar de umas provocações que só amigos sabem, como ninguém mais, colocar na gente. A conversa girou em torno da recepção que Yoni Sánchez teve no Brasil. Foi só desligar o telefone para a agitação começar…

Fui lá no dicionário buscar uma definição para “democracia” que não passasse pelo meu sentimento. Me perdi nas sentenças em latim mas consegui no clássico Aristóteles identificar duas palavras que são os pilares do democracia: povo e cidadania. Então democracia é o governo para o povo, considerando-se povo todos que gozam dos direitos de cidadania. Cidadania me remete a um conjunto de direitos e deveres  a que deve se submeter um indivíduo com relação à sociedade em que vive. E os indivíduos, felizmente, têm pensamentos, impressões, opiniões, visões, que com muita freqüência não são coincidentes. Assim, a Democracia me parece uma xícara de porcelana, casca de ovo, de uso diário. Se qualquer um aceitar a desvalorização do que tem nas mãos, ela passa a não mais existir. Quebra e deixa de servir não apenas a quem a quebrou mas a toda sociedade que a elegeu para as relações do dia a dia.

Ora, se a sociedade ao optar pela Democracia fez a escolha por conviver com as diferenças, com os contrários, permitindo o direito de manifestação de todos, então que assim seja. Em se tratando do Brasil, necessário uma correção: assim seria….

A manifestação oferecida à Yoni Sánchez foi apenas a gota d’água numa xícara de porcelana, casca de ovo, que há muito estava cheia. É uma onda que afasta o sentido democrático para trazer a barbárie ao nosso cotidiano. Não fossem os constantes assassinatos motivados pela homofobia e transfobia. Não fossem as freqüentes violências instigadas pela cor da pele. Não fossem as práticas manifestadas em nome de um deus cultuado numa absurda intransigência. Não fossem os espancamentos constantes daqueles que por não terem onde morar, perderam o direito às marquises ou bancos de praça. Não fossem as brutalidades cometidas contra as mulheres, sejam ex-esposas, ex-namoradas, ou mesmo mães. Não fossem os motoristas que transformam as ruas em zonas de confronto para obter vantagens que colocam em dúvida a sanidade mental de muitos. Por tudo isso, as manifestações que impediram Yoni Sánchez de cumprir uma agenda estabelecida a partir do convite que a ela encaminhamos, não diferem em nada de tantas outras arruaças que em nome de uma infinidade de causas, se arvoram por impor suas convicções sem atinarem que com isso esfacelam os princípios básicos da democracia.

Cada vez mais se alastra a incapacidade de sustentarmos a tão alardeada democracia, sem nos darmos conta que estamos regredindo assustadoramente para um estado que põe por terra quaisquer vestígios de civilidade. É o desrespeito a palavra de ordem que rege o nosso cotidiano e se instala com um inacreditável ar de legitimidade. É o desrespeito no trato da saúde para a população. É o desrespeito da educação na formação dos cidadãos. É o desrespeito das crenças religiosas que se afastaram do amor ao próximo, substituindo-o por uma extremada intolerância. É a manifestação daqueles que se auto-definem como ativistas e só conseguem gritar suas verdades, e por serem incapazes do convencimento se prestam à intimidação sem nenhuma margem de negociação. É a segurança pública que inábil para garantir a segurança da população, inverteu os papéis: no lugar de agir ostensivamente contra os infratores passaram a responsabilizar os cidadãos pelo favorecimento com que determinados comportamentos aumentam o índice de criminalidade. O desrespeito, enfim, vai lentamente se infiltrando nas relações, não importa de que nível, e sem nenhuma cerimônia elimina os vestígios mínimos da gentileza para que a brutalidade seja a medida da nossa relação com o mundo. Onde o desrespeito se entranha não existe salvação possível para a democracia.

Então temos que admitir: estamos trilhando com muita desenvoltura a incapacidade para manter qualquer diálogo com o que difere de nós. Estamos perdendo, se é que não perdemos de todo, a habilidade de ouvir, de argumentar. Perdemos o jeito e não sabemos mais o que é  comunicação, e sem ela o que nos resta é a defesa cega das nossas convicções, o que é uma outra maneira de dizer que a imposição das nossas verdades é a brutalidade que nos coloca frente a frente com o dessemelhante. Todos esses métodos são estradas de mão única que nos levam à arrogância, que nos fazem abominar a possibilidade de sermos criticados, que formam os guetos em que nos inserimos, que nos impedem de crescer, mais que isso, nos impedem de realmente sermos qualquer coisa melhor.

Impedir a fala de Yoni Sánchez, impedi-la de fazer as suas colocações, para então expormos nossos eventuais pontos de vista contrários e, assim, ter início um diálogo que sem dúvida nos faria mudar de posição (seja para fortalecer nossa opinião, seja para nos deslocarmos frente a elas), teria sido o imprescindível respeito que não conseguimos demonstrar com relação à democracia. E nem nos demos conta que fracassamos enquanto seres humanos.

Não cabe a ninguém além de nós mesmos – de cada um de nós, individualmente – seguirmos na brutalidade do caminho em que estamos, ou buscarmos uma nova direção que nos permita recobrarmos o respeito por nós mesmos, exclusivamente pelo respeito que conseguirmos demonstrar pelo outro.

Particularmente, mesmo sem concordar com as posições de Yoni Sánchez, peço desculpas pela intimidação com que cerceamos a sua voz. E em matéria desculpas, são muitas as que freqüentemente lanço ao universo porque não entendo a avidez com que nos agarramos à intolerância como possibilidade de resolver seja lá o que for.

Talvez pedir desculpas seja um bom começo para reconstruirmos, em nós, os valores preciosos da democracia. Se assim, honestamente, a desejarmos…

3 Comentários

  • Tania

    Querida, concordo, concordo e concordo. Não podemos pretender ser democráticos tirando a voz de quem nos contraria. Bjs

  • Ada Stella Damião

    A intolerância que despejamos sobre o outro evidencia as chagas que acreditamos carregar em nós, mas que tentamos ocultar não só do outro, mas de nós mesmos. Tudo o que nos remete à nossa sombra é sempre objeto do nosso escárnio, no outro. Nele projetamos as nossas máscaras e a desqualificação de que acreditamos ser portadores. A falta de amor com que tratamos o outro decorre da incapacidade de nos amarmos.

    A tragédia humana é brutal, e todo o jogo de cena que criamos lá fora é um meio de abstrair tudo o que tememos encarar em nós.

    Por outro lado, jamais conseguiremos ver e honrar a luz do outro enquanto não formos capazes de reconhecer a nossa própria luz.

  • Claudia Bernrado

    Oi Vera, também concordo contigo. Temos tanto para crescer ainda e tanto para fazer… É desanimador observar o tamanho da nossa ignorância. Foi constrangedor o que aconteceu em Feira de Santana, constrangedor e primitivo.

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