Sentimentos acontecem dos fatos

Deus não me serve, nem eu a ele

Olho pela janela as tímidas elevações do relevo que não cabem no conceito de montanha. Gados. Talvez sejam ovelhas, posto serem pontos brancos sobre o pasto, lá longe, onde quase a vista não mais alcança. O sol se espalha no cenário e as elevações brincam de luz e sombra quando as nuvens, brancas de todo, se divertem em esconder parte do sol por alguns instantes, só para deixar tudo mais lindo. Não aguento a beleza esparramada na paisagem do meu olhar. E por não suportar a imensidão guardada nos meus olhos, eu entrego a deus a percepção dessa imponência.

Visito uma floricultura. Cores, perfumes e formas salpicadas no verde que as sustenta, me deixam confuso querendo ficar olhando para cada uma delas por muito mais tempo, mas logo outra flor, igualmente exuberante, me convida à admiração. Eu danço no espaço, de flor em flor, colorindo o meu sorriso e a alegria se espalha para além da minha vida. Prendo meu olhar numa flor, numa única flor que o cacho da orquídea exibe. Fico ali numa concentração absoluta, tomada por um silencio ilimitado. Insuportável ter que lidar com aquela estonteante perfeição da delicadeza. E por precisar me afastar daquele impacto, atribuo a deus a existência daquela flor.

Olho meu neto com seus passos trôpegos, maravilhado por estar num parquinho de praça, se lambuzando de areia e se relacionando com outras crianças de sua idade. Fico ali, velando seus movimentos, tentando adivinhar-lhe o futuro. E sem qualquer anúncio, estremeço ao ponto das lágrimas não serem impedidas: um sentimento sem tamanho se apossa de mim: um quê de ternura se mistura a muitos “quês” de receio ao ouvir a gargalhada espontânea da simplicidade em ser feliz que meu neto conhece aos três anos de idade. Não sei lidar com a dimensão do meu sentimento e peço em silencio que deus o proteja já que todos os meus cuidados e os limites da educação não serão capazes de preservar nele a pureza da gargalhada destes três anos de vida.

Telefono para os meus amigos. Nunca fiz nenhum tratado sobre a amizade, nem assinei compromissos para percorrer em segurança os princípios que regulam tal sentimento. Na verdade procuro tratar os meus amigos da mesma forma que as demais pessoas, a diferença talvez esteja simplesmente na quantidade de diferenças e semelhanças que nos levaram à intimidade e à convivência. Às vezes, geralmente quando me dedico ao varrer da casa, me surge no pensamento um ou outro amigo. A tarefa até se torna menos cansativa, e um aconchego se instala na paz de se querer bem as pessoas. Inevitavelmente me vem o impulso de agradecer a deus a generosidade de ter tantos amigos queridos.

O carro deixa de funcionar exatamente quando me coloquei a caminho do compromisso agendado com uma semana de antecedência. Levanto a tampa que me revela as intimidades dos mecanismos que deveriam fazê-lo funcionar. Eu olho: me aproximo de um lado, depois dou meia volta e investigo o outro lado. Não tenho a menor ideia das razões que levaram o motor a se manter silencioso quando mais eu precisava que se manifestasse. Então é o desespero que vai se aproximando de uma forma dissimulada, zombando do fracasso dos meus planejamentos. Não leva muito tempo para eu chamar deus, como se ele me fosse mais útil que um mecânico ou eletricista de automóveis.

A noite era alta, de tão alta em pouco tempo ela traria um novo dia. Já havia me colocado sob as cobertas e passava em revistas os últimos emails recebidos. Acessei um anexo enviado por um amigo. Bastou que eu lesse poucas paginas de um livro do Michel Onfray, que me chegaram eletronicamente numa madrugada que tinha tudo para ser igual a muitas outras, para que, definitivamente, a insônia se instalasse. Levantei. Fiz café. Abri as janelas para as luzes dos postes que nostalgicamente me davam o contorno das ruas próximas. O silencio da madrugada se manifestava em mim. Eu me despedia de deus, sem ritual ou celebração. Uma friagem, menos que brisa, e eu ali, carregando uma dor que não mais se dissolveria já que a fé acabava de ser eliminada. Dela eu não mais me valeria para os recursos de sobrevivência.

Eu chorei, silenciosamente, a solidão que sempre foi minha, só que agora, completamente nua, não mais podia se esconder atrás da transcendência da fé em deus.

“… existe apenas um mundo e que toda promoção de um além-mundo nos faz perder o uso e o benefício do único que há.” Simples assim. Uma despedida cabe em uma única frase reverberando no silêncio. A nossa vida é curta, o nosso mundo é suficientemente grande e assustador para que ainda lhe acrescentemos qualquer espécie de transcendência.

Estou só. Um pouco desolado por saber que é impossível compartilhar a minha solidão de existir. Retiro de mim – porque não mais consigo reconhecer – deus e a fé. Agora tenho que encarar a minha existência à custa da minha exclusiva responsabilidade com relação à fidelidade aos meus próprios valores. Não consigo mais transferir a qualquer pessoa ou entidade a responsabilidade que somente a mim compete.

A novidade da minha condição de ateu não é uma alegre percepção de uma nova experiência. É saber que determinados caminhos não nos permitem retroceder em busca de novos rumos. Existem certas situações na vida da gente que são definitivas, transformadoras, e respeitosamente nos deslocam para um eixo diferenciado daqueles em que vivemos até então. Assumir minhas próprias responsabilidades com relação a minha vida, e assim libertar deus de qualquer participação neste enredo, foi uma longa madrugada reflexiva que me lançou numa estrada onde terei que caminhar com os meus próprios pés e sem nenhum apoio mágico, truque ou bengala.

O fato é que nunca me ajoelhei a qualquer doutrina, nem nunca me submeti a quaisquer punições, daquelas que me diziam serem necessárias para que eu tivesse direito ao reino de deus. Nunca precisei de dez mandamentos – ou mais que isso, ou menos que isso – para me relacionar com o mundo. Escapei de todas as atrocidades que são capazes os fundamentalistas de qualquer religião. Fui norteado pelos valores que amealhei ao longo dos anos com todas as angústias de poder estar sendo injusto em alguns momentos. Deus nunca me apareceu em sonhos nem se manifestou numa anunciação do melhor caminho. Fui eu, sozinho, que fiz todas as escolhas. E quando inúmeras vezes evoquei o nome de deus, agora sei que foram proporcionalmente incalculáveis as doses de desespero que me imobilizaram parcialmente ao longo da vida. Deus era a fantasia de buscar em outro as forças que só pertenciam a mim. A força que todos temos e não sabemos em que medida.

Não quero mais que nenhuma religião se sirva de mim para expansão de seu poder subjulgando as demais religiões. Não quero contribuir para que suntuosos templos sejam erguidos e suas portas fechadas quando à noite tantos precisam de abrigo. Na frente de qualquer religião sempre haverá um homem, com as suas imperfeições, a falar em nome de um deus que corresponderá à sua ótica, ou ao seu interesse. Sigo sozinho e assumo todos os riscos porque sei que a moral que pratico não serve a mais ninguém além de mim.

É certo que deus já não cabe em mim. Igualmente certo é saber que terei que aprender a ser ateu. Apenas um comunicado, jamais um convite.

Um comentário

  • kelly

    A constatação não diminuiu a fé que, como um beija flor, transitou por toda floricultura, entregando-se à todas as flores; delas capturou o perfume e perdeu-se na contemplação das muitas belezas e suas imensas diferenças. Chego a pensar que este ateu em nada mudou sua fé – ela permanece – apenas transferiu para as belezas da vida aquilo a que se acostumou denominar deus.

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