Sentimentos acontecem dos fatos

Deveria ser um pequeno reparo…

Era um cigarro atrás do outro. Um andar de cômodo em cômodo tentando gastar o incômodo. Eram atravessados olhares na direção do telefone, mudo. Era a caixa eletrônica checada a cada segundo, nas cambalhotas agoniadas de si mesma.

A televisão ligada na sala sustentava a necessidade de se escolher um Papa. O radio tocando aquelas músicas que enchiam o espaço de sons, e esvaziavam o sentido melódico das canções. Mais um cigarro. Mais uma verificação dos emails. E nada de mudar o padrão.

O profissional no banheiro martelava a parede querendo provar a si mesmo que encontraria o vazamento. Eu duvidava, cumprindo o meu papel de desconfiar das pessoas num primeiro contato. Me perguntava, pela enésima vez, o que me havia feito tomar a decisão de trazer para mim tantos transtornos. Teria sido mais fácil lacrar o banheiro e deixar que o filete d’água se resolvesse por conta própria, porque eu tinha coisas mais importantes por fazer e me ocupar.

A agonia começara bem cedo. Ao tomar o café da manhã, me veio um pressentimento que o dia seria longo. No meio da tarde, com o registro da água fechado, o almoço estava adiado. Mas a fome não entendeu o espírito da necessidade e se manifestava completamente indiferente aos meus problemas. Fome não saciada é dor de cabeça na certa. Não deu outra. As insuportáveis marteladas no banheiro soavam diretamente na minha latejante cabeça. Aumentei o som do rádio tentando me livrar daquela perseguição.

O “seu” Rogério se esforçava por demonstrar competência fazendo longas dissertações sobre os mecanismos hidráulicos. Eu o olhava com uma expressão abstrata querendo que ele entendesse que o interessante em mecanismos hidráulicos é tê-los funcionando sem necessidade de nenhuma marreta esfacelando a minha cabeça. Além de longas considerações sobre o universo hidráulico, outra peculiaridade é que o “seu” Rogério tentava e falhava sucessivas vezes. A cada tentativa frustrada ele interrompia o serviço, coçava a cabeça, e saía para procurar uma tal peça que se fizera necessária por contingências do insucesso. Conheci de uma forma desalentadora várias peças e seus respectivos nomes: luva, conexão, selador, anel de borracha… A expressão “ódio sincero” já merecia um enorme tratado de como ele se manifestava em mim. Posso dar todos os detalhes de como ele surge e quais os caminhos que percorre. Eu, a experiência viva. Ainda.

Sem água na casa. Sem almoço. Sem poder tomar banho. O chão do banheiro parcialmente coberto por entulhos. Olhava a cena tentando buscar lampejos de bom humor que pudessem ainda existir em mim. A manhã ensolarada dava sequência a uma tarde terrivelmente quente. O suor me escorria confundindo a temperatura ambiente com o nervoso por não acreditar que aquela aventura tivesse um desfecho feliz. Queria um banho! Lavar as mãos, no mínimo. Um pedaço de pão, um pouco de café. Nada. Nada disso. Uma vez começada a peleja, o melhor a fazer era mesmo manter aquele sorriso de plástico fincado no rosto, olhando o “seu” Rogério se perder e se encontrar, infinitas vezes, no seu conhecimento duvidoso do ofício que lhe dava sustento.

Se ao menos o telefone tocasse. Se um email chegasse me obrigando a desviar a atenção do caos instalado na minha casa. Se ao menos os cachorros impusessem alguma ameaça ao “seu” Rogério e com isto o ritmo do trabalho ganhasse alguma velocidade… Nada. O dia se arrastava com toda a inconveniência de um espaço sem gravidade. Lá pelas 17hs o cenário de guerra estava mais ou menos contornado: eu conformada com o buraco reparado grosseiramente na minha parede; o vazamento aparentemente estancado; o vaso sanitário substituído; e o “seu” Rogério consumindo as minhas últimas energias querendo que eu ficasse feliz porque ele iria deixar o banheiro limpinho.

O banheiro ficou limpinho sim, mesmo que interditado por uns dois dias, mas limpinha também ficou a minha carteira pelo adicional de peças e trabalho que um minúsculo vazamento havia imposto à minha história de vida. A noite já exibia as primeiras estrelas quando o “seu” Rogério foi embora, e com ele o meu mau humor.

Corri para tomar um banho e fritar um ovo. Estava até feliz por ter sobrevivido àquela provação.

O telefone tocou: um amigo me convidando para frequentar um templo budista num dos extremos da cidade. Agradeci o convite, tentando dizer que se o convite tivesse chegado pela manhã, eu certamente o teria aceito. Mas o convite chegou atrasado: eu havia percorrido, em um único dia, o caminho da libertação. Graduado em monge, tive que reconhecer que o “seu” Rogério foi um dos mestres mais empenhados que tive na vida, em me fazer buscar a superação dessas questões que estremecem a índole de um ser humano. Alcancei a porta do Nirvana…

Bem… Se eu vou ou não passar pela porta lhes direi em outra oportunidade – se oportunidade houver. “Seu” Rogério foi embora, mas voltará porque deixou um vazamento, outro, minúsculo, daqueles que a gente olha e se diz: precisa apenas de um pequeno reparo…

Esse filme eu já vi…

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