Sentimentos acontecem dos fatos

Sorrisos atrapalhados

Depois posso pensar em escolher um rumo. Identificar em que hemisfério de mim mesma irei me acomodar. Ou até mesmo entender por bem ficar sentada no meio-fio olhando os carros, apressados, me dedicando à inutilidade de adivinhar o destino das pessoas em seus carros, velozes. Mas agora, para o momento, prevalece uma necessidade voluntariosa de mudar, me deslocar do que aprendi a reconhecer em mim e me aventurar em novas constatações.

Como tudo é inédito, livro-me da preocupação em dar os passos certos para atender objetivos determinados. Puxo qualquer fio do novelo, corto com a tesoura e vou esticando, esticando… Começo a levantar suspeitas sobre as motivações que me fazem sorrir trazendo certo frescor aos meus dias. Uma flor nova surpreendida na manhã me faz sorrir. Uma inclinação de cabeça da minha cachorra mais velha, tentando entender o significado de quando fico falando sozinha pela casa, me faz sorrir. Um telefonema inesperado de alguém distante, só para dizer olá, me faz sorrir. Uma série de pequenas surpresas é capaz de me emprestar sorrisos, sejam largos ou estreitos. Esses sorrisos são genuínos. Acontecem nos imprevistos, de improvisos. Simplesmente são surpreendidos dentro dos fatos que os promovem. Até aqui tudo bem. A vida é bela no meu sorriso exposto.

Existem sorrisos explosivos. São aqueles sorrisos que se manifestam depois de superado o tempo da ansiedade. Explodem em intensidade porque carregam o tempo agoniado da espera até que um fato os possa detonar. Como tudo que explode, rapidamente deixa de existir. Esses são sorrisos satélites do sofrimento. Sorrisos dependentes. Servis de uma expectativa. Enfim, sorrisos doentes. A hipótese é que a vida nunca conseguirá qualquer beleza por mais frequentes as manifestações de tais sorrisos. Portanto, elimina-se a expectativa e ficam restabelecidos os nobres princípios de um sorriso.

A questão agora é eliminar as expectativas que se alastram em mim. E se espalham no mesmo ritmo com que a esperança ou o delírio se assumem. O que será um ser humano sem esperança? O que será um ser humano incapaz de delirar? Valer-se de quê? A esperança é íntima da fé. O delírio e o sonho são capazes de dançar dias seguidos sem perderem o ritmo. Se eu não tiver um propósito, um desejo – por menor que ele seja – a vida irá me escapar dos sentidos. Viver será um repentino sem tamanho, feito de circunstâncias substituídas por outras circunstâncias e assim, sucessivamente dia após dia. Passarei a ser um objeto sem impulsão, e misturada a todos os acidentes serei incapaz de me perceber, embriagada pelas aleatórias condições trazidas pelo vento dos dias. Sem expectativas meu sorriso jamais conseguirá ser celebrado.

Então vamos buscar um meio termo. Posições relativas são difíceis na minha experiência de vida. Sempre me dediquei a errar por inteiro ou a estar certa com distinção; superlativos de toda ordem me fascinam porque medem o máximo de investimento a que se está disposto a aplicar. Meio termo me sugere segurança, risco calculado, e convenhamos, a vida abusa, com veemência, em demolir pressupostos. Ora, viver sem expectativas é praticamente impossível: você vive com a expectativa de ser um ser humano melhor; de conseguir ter uma vida de qualidade; de manter a dignidade frente às adversidades; etc.etc.etc. Estamos, portanto, cotidianamente submetendo nossos sorrisos – e seus avessos – aos sentimentos trazidos pelos acontecimentos que nos ultrapassam. Viver é, então, um conflito constante de expectativas: aquelas que mantemos em relação a tudo e aquelas que os outros mantêm em relação a nós. É muito grande a facilidade dessa história não dar certo nunca…

Agora vamos embaralhar tudo isso e tentar sair do labirinto. Já sabemos que vivemos a partir das expectativas que construímos em relação a tudo e a todos. Sorrimos quando as expectativas que mantemos com relação aos nossos filhos se confirmam; quando a expectativa com relação aos cuidados que dedicamos a uma planta se traduz em flores; quando o amor que dedicamos a alguém corresponde às expectativas que definimos como recíproco. Como manter o sorriso quando essas expectativas não alcançam a realidade? Diminuímos nossas expectativas com relação aos nossos filhos? Desistimos da planta e buscamos outra que nos possa compensar em flores a nossa dedicação? Trocamos de amor até encontrar alguém que corresponda aos nossos anseios de bem querer?

Tudo é válido. Posso fazer a bagunça toda, mesmo porque quem arruma a casa depois sou eu mesma. A dica talvez esteja exatamente aí. Quem quer sorrir sou eu. Sorrir gostoso, com aquela energia que se estende dia inteiro, que faz tudo bonito, legal, agradável. Pois, então a responsabilidade de sorrir e como sorrir, é só minha e não do lugar onde coloco as minhas expectativas. E viver, caramba, não é mesmo ajustar o dial do nosso radinho de pilha até obter uma sintonia perfeita que permita aproveitar a melodia que sai da caixinha?

Quem quer sorrir sou eu! E nada menos que um sorriso de qualidade! Então é ajustar os pacotinhos de ansiedades que espalhei por aí. Calibrar expectativas: minha proposta, tardia, de viver em paz. Vou sair por aí, mais cuidadosa com as minhas ansiedades, tentando compatibiliza-las com a realidade.

Delírios são sempre bem vindos, afinal são eles que delimitam a integridade dos sonhos. A dificuldade está mesmo no fato de não existir um manual que me instrua a lidar comigo mesma. Nem medicamento e respectiva bula para corrigir desvios que afetam a qualidade dos meus sorrisos.

Então, lá vou eu experimentando viver, dia após dia, adivinhando o meu próprio itinerário, estradas nem sempre conhecidas…

2 Comentários

  • Tania

    Tá tudo dito. Sorria largo, lembrando do Gonzaga: não ter vergonha de ser feliz, cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. beijo

  • Brotosaurus

    Há de se ter coragem (presente) para entender que só esperamos o que não depende de nós! “É por isso que a esperança só é uma virtude para os crentes ao passo que coragem (virtude) existe para todos os homens.” Posta essa afirmativa pode-se perceber que para ser corajoso basta querer ou verdadeiramente sê-lo e não esperar ser. Quando não se tem mais esperança não se tem nada a temer e, portanto toda a coragem estará focada na ação do presente próximo para o combate efetivo, para o sofrimento efetivo… Nesse contexto de sem esperança o viver se realizará no presente através de ações concretas e possíveis e não para a esperança de algo que somente se realizará no futuro. A esperança nos leva a esquecer de viver o presente (que infelicidade, que falta de humanidade) de não ser feliz agora. Pode-se perceber que nesse contexto a esperança é algo somente de cabeça ou imaginação. Que grande ato esse de perceber com humildade o desespero instalado de sermos apenas nós e não termos a quem repassar o pacote.
    Podemos avançar um pouco e falar do amor que só ama na esperança de um ganhar, de uma vantagem e por aí vai apenas revelando o egocentrismo do eu e nossa dificuldade de entender e realizar o verdadeiro amor. Posto pelo contrário para dramatizar: quem aceitaria amar apenas por interesse? Já imaginaram realizar esse amor sem espera (esperança) puro e desinteressadamente? Será que somos capazes? Será que vale alguma coisa a esperança não verdadeiramente fundada na verdade simples? Que desespero!! Que coragem de saber “que só esperamos o que não temos, o que não sabemos, o que não podemos” agora. Para aqueles que não são mais crentes no sentido da fé resta ter coragem de assumir o desespero de viver sem esperança pois ambas fé e esperança fazem parte do vocabulário das religiões. Tudo isso é valorizar a única coisa possível que é o agora. O passado já aconteceu e não voltará e o futuro (esperar/ esperança) é totalmente incerto e totalmente ilusório.
    Vale ressaltar que segundo Conte-Sponville não dá para confundir esperança com desejo e nesse sentido afirma: “…A felicidade só existe em ato no presente e não como um algo a ser perseguido no futuro (esperança). É por isso que podemos ser felizes, é por isso que às vezes o somos: porque fazemos o que desejamos, porque desejamos o que fazemos.”
    Vamos em frente da forma que for possível e cada um no seu devido tempo não esquecendo que a palavra felicidade não é a felicidade e nesse sentido viver essa experiência é uma boa causa.

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