Sentimentos acontecem dos fatos

Eu Vou Morrer no Final

Surgiu há bem pouco tempo um Blog curioso – “Vou Morrer no Final” – com a proposta de buscar dos filmes uma única cena e sobre ela uma legenda ridicularizando a forma ou o motivo do personagem ter morrido no filme.  O conteúdo não me atraiu tanto quanto as possíveis motivações do seu idealizador (Henry Chinaski).

Confesso que se tivesse direito público ao título do Blog (convenhamos que no que diz respeito ao direito privado, exercito diariamente, e de bem perto, este ato – como qualquer outro ser humano) não saberia o tratamento a dar ao seu conteúdo. Provavelmente eu só chegaria a criar um título desses, se a minha inquietação e perplexidade fossem excitadas até atingirem aquele ponto impreciso da ultima potencia do suportável. Nesta tangência de viver é o lugar onde eu creio se manifestarem todos os atos criativos. E o que eu faria se tivesse que preencher um “Vou Morrer no Final”?

Tá bom, a questão é: de que maneira eu falaria da vida? Valorizaria os dias de sol sem dar muita importância àqueles que sempre me assustaram pelas chuvas torrenciais? Sorrisos teriam mais espaço que as tristezas? Dançaria sozinha num salão vazio com o rock no último volume, ou seriam as valsas, dos muitos ensaios abandonados tão próximos a outros corpos? Que referência eu discorreria sobre o amor? Que rosto – ou que rostos – me inspiraria a navegar, ou naufragar, nesse sentimento? Que flores e que frutos seriam os eleitos da minha alegria? Que olhar eu descreveria como inesquecível? Que prazeres tiveram relevância no suor do meu corpo? Que palavra poderia me aprisionar no encantamento? Qual me deixou mais abandonada num universo desconhecido? Qual a frase mais bonita que eu nunca deixei de pronunciar como se fosse um mantra de agradecimento à vida? Existiu essa frase ou eu sempre a escondi para uma ocasião especial que nunca aconteceu? Qual a fragilidade, que por mais exposta, nunca admiti que ninguém me a apontasse? Quando o meu medo foi maior que o meu desejo? Quando eu parei de criticar os outros para simplesmente ouvi-los com a sabedoria que me trouxe este coração todo remendado? Quais as tramas conspiratórias que me fizeram assim, desse jeito diferente de outro qualquer? Quais os fatos eu dei importância para além do necessário? Quantas vezes eu arranquei do meu corpo as roupas encharcadas de sangue, sem saber meu ou de outro? Quantos pedaços de tantas pessoas eu carreguei comigo como exemplos a cumprir ou descumprir? Quantas intuições e para quê? …

É fato: Eu vou morrer no final aconchegada nos braços da solidão. Levarei um sorriso pela inutilidade de ter insistido uma vida inteira a acompanhar minhas atitudes, gestos, sentimentos, percepções…. Eu vou morrer no final e comigo as minhas ilusões do que foi viver.

 

2 Comentários

  • Brotosaurus

    Bem… Vamos aos fatos!

    “Eu vou morrer no final e comigo as minhas ilusões do que foi viver.”

    Será que viver foi uma ilusão ou a vida foi vivida fundamentada em ilusões? Se for a segunda ainda é tempo para todos aqueles que vivem escolherem outra forma que valorize viver (trilhar o caminho) com mais consciência.

    Será que esse caminho que transcorre do nascimento até a morte não pode ser vivido a cada momento de forma especial e presente? Se focarmos na morte inexorável poderemos “esquecer” de trilhar o caminho ou seja viver o momento presente. Não é verdade?

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