Sentimentos acontecem dos fatos

Acontecer entre o ver e o perceber

Talvez fosse suficiente apenas se deslocar dois passos para trás, ou três passadas largas na direção oblíqua ao objeto. Quem sabe, assim, conseguiria ter uma percepção diferente daquilo que ocupava a sua mente, com tanta insistência que o impedia de agir. Preocupação. Uma das poucas palavras que ele conhecia (não era dado a fazer estoques de palavras, se contentava com as básicas do dia a dia) redonda no seu significado: de fato estava se ocupando, previamente, com uma ação que não conseguia distinguir entre muitas. E por não lhe ser fácil uma decisão, as possibilidades se revezavam igual às pedrinhas coloridas no caleidoscópio que o encantava quando criança. Mas desta vez não havia encantamento. O abatimento ganhava espaço demais.

Foi então que lhe ocorreu mudar a posição dos seus pensamentos para tentar enxergar por um ângulo diferente. Para ajudar, ele mesmo iria se locomover. Tinha uma casa, um bairro, uma cidade inteira para se deslocar, na opção a pé. Lembrou que ação e tempo têm uma cumplicidade simbiótica, cuja intimidade só a eles pertence. Foi então que atrasou em uma hora o relógio de parede com relação ao despertador, adiantado em meia hora, e fez com que o relógio de pulso se instalasse no meio da discordância entre os dois outros.  Não sabia exatamente porque modificara o tempo em três versões, mas também não sabia o porquê de tantas coisas, que essa seria apenas mais uma. Que lhe bem entendesse escolher a hora que mais lhe conviesse. Pronto!

Saiu de casa batendo o portão atrás de si. Não que estivesse irritado, ao contrário, o barulho tinha o mesmo efeito daquelas bofetadas terapêuticas que se dá nos surtos histéricos. Desceu a rua, parou lá embaixo e olhou para cima: da sua casa, apenas aquele telhado engraçado, pagode chinês, permanecia visível. Num exercício básico de mudar as coisas até alcançar os pensamentos, ele ficou parado no meio da rua: deslocou a sua casa para um terreno vazio, lote acima; trocou a casa do vizinho em frente e a colocou onde a sua ficava; a vizinha ao lado foi parar no outro lado da calçada e ainda imaginou uma arquitetura nova que pudesse abrigar todos os netos. Gostou dessa brincadeira de tirar as coisas dos lugares de sempre e coloca-las em outros, com os retoques que quisesse. Andou até a rua paralela a sua e tentou enxergar o quanto da sua casa ainda era possível ver: só o funil do telhado pagode chinês. Se deu conta que não era a reengenharia das edificações o seu propósito, mas sim a dos seus pensamentos.

Para mudar seus pensamentos ele precisava mudar algumas centelhas que lhe induziam à reflexão. Começou entendendo que quando focava o problema, era sugado por uma série de considerações que envolviam outras pessoas no contexto. Ora, não estava a fim de dividir o seu problema com ninguém, portanto tirou dele (ou do seu pensamento) a expectativa de que outros pudessem intervir numa resolução que era dele. Se pensasse no que a sua decisão causaria às demais pessoas nunca chegaria a ponto nenhum e ainda corria o risco de trazer outras questões que gravitariam como indesejáveis satélites, exigindo resolução e esforço maiores que os requeridos no problema original. Resolver um problema exige certa independência mental. O que significa se desvencilhar de uma série de armadilhas acumuladas no histórico de vida de qualquer pessoa. Não confundir generosidade com uma tendência extremada para o desrespeito próprio, está na pauta. Saber que sua decisão foi tomada tendo por base aliviar eventual desalinho emocional de outra pessoa é barbárie da pior espécie, que impede o crescimento do outro. Ponderar sua decisão na recusa de se indispor com qualquer pessoa, lhe trará as inevitáveis consequências de se saber covarde ou omisso. Independência mental, ele percebeu, exigia uma espécie de higienização dos ranços e vícios pessoais. Estava menos angustiado quando sentou debaixo de uma árvore magrinha e o céu retinto no azul lembrou-lhe o verso de uma canção que dizia “a morte cai do azul”. Viver era mesmo uma complicada abstração que misturava água, terra, fogo e ar. Essa combinação desproporcional um dia nos faria perder completamente o fôlego. É certo.

E pensando na densa abstração que é viver, ele retomou ao problema. Agora mais purificado, sem as suas arestas existenciais. Digamos que um problema redondinho, mas ainda exigindo solução. Desprovido da covardia, da indulgência, da autopiedade, do medo e outras coisinhas que deixam o ser humano dançando funk sobre a lâmina afiada da religiosidade, ele agora só precisava dar mais um passo. Esse passo lhe parecia tão desprovido de conhecimento científico… Tantas bibliotecas no mundo e nenhum livro capaz de explicar em que momento as asas majestosas da intuição se abrem aos seres humanos. Como intuição é matéria fina, finíssima, parente dos átomos que construíram o planeta, a indexação leva em conta cósmicos conceitos que o ser humano distraidamente vai absorvendo ao longo da vida. E assim, sem o saber, constrói para si as tonalidades da ética e da moral que ele espalhará pelo mundo. E essa lealdade absoluta que todo indivíduo mantém com relação a si mesmo, independente do dote de consciência com que lida, sempre será o principal utensílio com que identificará suas ações na vida, e, consequentemente, medida da relação com outras muitas, tantas, pessoas. Quando ele conseguiu chegar a uma decisão de como agir, e esta decisão lhe assentou carinhosamente nas suas possibilidades do momento, ele entendeu que não havia mais problema a ser resolvido, apenas seguir o caminho escolhido.

Voltou para casa. Ele olhou os três relógios e aquelas tentativas de interferir no tempo na irreverência das horas distintas com o mesmo tic-tac. Sorriu. Cada coisa tem o seu tempo secreto que faz com que o ser humano se ponha a caminho. Fora isso, é só um barulho desorientado de sentido.

3 Comentários

  • c

    Sonho com o dia em que eu vou
    crescer e escrever lindamente como você!
    Quanta luz, cada passagem mais linda que a outra…
    Me peguei várias vezes embevecida. E como alguém que reverencia sua poética tão rica, não poderia ser diferente.
    Obrigada!

  • Brotosaurus

    Relógio remete a tempo e nessa direção vai abaixo mais uma do Poetinha Mário Quintana:

    A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
    Quando se vê, já são seis horas!
    Quando de vê, já é sexta-feira!
    Quando se vê, já é natal…
    Quando se vê, já terminou o ano…
    Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
    Quando se vê passaram 50 anos!
    Agora é tarde demais para ser reprovado.
    Se me fosse dada outra oportunidade, Eu nem olharia o relógio…
    Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
    Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
    E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
    Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz:
    A única falta que sentirás será a desse tempo, que infelizmente, jamais voltará!

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