Sentimentos acontecem dos fatos

Muito especial para ter uma data única

Viver também é a capacidade de se aproveitar oportunidades.  Felizes as oportunidades que nos permitem tocar na camada, nem sempre transparente, do sentimento que irriga as relações familiares. Família é um trem colorido. Vagões atados por uma espécie de gancho cunhado com exclusividade para cada comboio.  Juntam-se pedaços contraditórios, partes inflexíveis, porções inconciliáveis… É certo que existem frações de reconhecimento mútuo, mas de maneira geral os vagões engatados sobressaem pelas individuais diferenças. E nesse coletivo de contrastes talvez, muitas vezes, as pessoas se tolerem apenas porque sabem que estarão unidas umas às outras até o fim. Tudo termina no esquecimento.

Nunca ouvi dizer da existência de um “Dia da Família”. Existe “Dia das Mães”, “Dia dos Pais”, “Dia da Avó”, mas “Dia da Família”, logo um plural de gente, ainda, ao que me consta, não foi instituído. Será que das muitas manifestações do sentimento esse Dia não traria lucro? Família… Só a conhece em profundidade quem deixou descendente, ou quem mesmo sem descendente já envelheceu o suficiente para valorizar as suas próprias partes conflitantes que se manifestam no parentesco. Jovens… ou são por demais novos para valorizarem a família, ou são por demais bobos para insistirem em buscar outros modelos longe do talho em que foram moldados. Numa perspectiva muito superficial, mesmo que provável, o fato é que os que têm família a ignoram e os que não têm por isto se ressentem.

Esse trem chamado família não se dispersa mesmo quando um dos vagões sai dos trilhos. A composição segue – ainda que no início o ritmo seja afetado pelo descarrilhar – sabendo que falta uma parte. E a parte alijada do comboio, por mais que imagine respirar independência e novos caminhos, haverá uma curva que a trará para os detalhes do que foi abandonado. Há quem entenda que por não ter escolhido a família à qual pertence, não é responsável por ela. No entanto, é por pertencermos ao que não foi nossa decisão, de que se serve a importância de tudo: só assim podemos neutralizar o que julgamos reconhecer no espelho que cuidadosamente escolhemos para sermos vistos.

Não queria ter tido outra família. Aliás, nunca me passou em nenhum momento esta possibilidade, o que não evitou brigas, desentendimentos, críticas, discordâncias… e tudo mais, sempre a irrigar os laços familiares. Alguns parentes desceram cedo demais nas estações. Nem sabia ler e escrever que me fizessem anotar o nome para um dia procura-los nos seus descaminhos. Mas também, outras estações trouxeram novos vagões. A família cresceu e esta é uma predestinação de todas as famílias. Agora mesmo, daqui a bem pouquinho, iremos receber quem a nós se integrará a nos dar sentido do inteiro que somos. Sempre bem-vindo. Todos bem vindos.

Me ocorreu discorrer sobre Família e as muitas contradições que nela se registram porque o meu irmão mais velho, o único inteiramente lambuzado nas tintas de irmão, fez aniversário. E me dei conta que nunca, em nenhuma circunstância, lhe disse “eu te amo”. Mesmo que nunca tenha verbalizado essa necessidade humana de dar nome às coisas, o amor sempre esteve nas discussões, na admiração, nas intermináveis polêmicas, nas críticas, nos conselhos, na capacidade de defender argumentos opostos, nas preocupações silenciosas, nos muxoxos carregados de ridículas certezas, nas velas acessas e preces concentradas para que a proteção dos céus o alcance para além da minha restrita capacidade.

Mas a necessidade de ser óbvia é uma demanda que o tempo me trouxe, portanto:

– Aí, brother, eu amo você de montão!

5 Comentários

  • Renato

    Que lindo texto! Me emocionou!
    E, como já disse alguém, «as únicas pessoas que Você precisa ter em sua vida são aquelas que provam, sob qualquer circunstância, que precisam de Você na vida delas.». Eu preciso de Você na minha vida; eu amo Você também, minha irmã!
    Eu preciso de toda a minha família na minha vida!

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