Sentimentos acontecem dos fatos

Coisa para lá de destrambelhada

Um Domingo igual a tantos tatuados no Outono. No final da manhã ele resolveu ligar para a empresa telefônica e solicitar o código de barras já que a fatura era uma ausência perturbadora na sua caixa de correspondências. Sabia que haveria todo um ritual a cumprir: manter a atenção na voz metálica a dar instruções para apertar corretamente uma infinidade de teclas até ter a ligação direcionada para a necessidade de quem se armou da paciência para ser atendido. Não foi diferente com ele: cumpriu todos os ritos do sistema. Até que a atendente se apresentou: Dyane. Isso mesmo, com “Y” porque o sotaque remetia ao norte das Américas disponíveis. Ele levou um susto. Aquele nome, aquelas palavras um tanto descamadas dando conhecimento da existência de outra Língua fortemente estruturada, mas submetida a uma dicção estranha. Respondeu todas as perguntas de segurança para que a atendente tivesse certeza de que ele não era outro. Nem questionou a idiotice de existir alguém que pudesse solicitar uma conta cujo pagamento não fosse da sua responsabilidade. Achou curiosa a suavidade da sua própria voz, já que era dado a ser muito prático, sem espaço para gentilezas: pacientemente lhe deu o nome completo, a data de nascimento, o nome da mãe… Finalmente conseguiu ter acesso ao código para agendar o pagamento. Antes de se despedir agradecendo o tempo desperdiçado, ainda ousou perguntar o sobrenome de quem lhe atendia. Delicadamente, mas com firmeza, a formalidade foi mantida: o protocolo recebido era a referência necessária com relação ao atendimento recebido. Ele apenas sorriu concluindo a conversa com elegância.

Poderia ter sido mais uma das muitas interações modernas de que se servem clientes e empresas. Mas lembranças e coincidências o mantinham em suspenção a partir de um nome que lhe era familiar acompanhado de um sotaque reconhecido através dos basculantes de sua embaçada memória. Ele fora apaixonado por uma Dyane Cleveland há muitos anos, tão distante que praticamente lhe parecia numa outra encarnação. Entrara na sua vida com a mesma surpresa com que saíra.  Parece até que o relacionamento foi parar naquela esquina em que comprar cigarros significa ser devorado pelo mundo com direito a esculpir enormes reticências de interromper futuro. O fato é que depois de um bilhete incompreensível, jamais se viram, nunca mais se procuraram. Com muita frequência, em muitas situações, ele simplesmente jogava um beijo para o ar – entre irônico e cínico – desistindo de investigar o que outras pessoas ofereciam para além da sua capacidade de interpretar os fatos. Seguir em frente era um propósito inteiramente fundamentado na obsessão, mesmo desconhecendo em que lugar chegaria o último passo do “seguir em frente”. Dyane não fugiu a essa regra. Se assim ela desejava, não seria ele a convencê-la do contrário. E se afastaram da possibilidade de vidas em comum.

 Não sabia identificar qual parte dele se destrancou naquela ligação telefônica comercial. Talvez a parte maior, de pseudônimo impossível, que fez dele, molécula por molécula, uma sombra abstrata, escorregando pelas paredes do tempo na dança suave do sol. À noite todo escuro morre em si mesmo, e ele, então, se recobrava de sempre querer alcançar o próprio sentido no equívoco de nunca busca-lo em si mesmo. Nas vezes em que as cordas arrebentavam dentro dele, impedindo que o instrumento de viver o levasse em frente, ele se contorcia, bicho acuado, no desejo da liberdade. Tudo que o prendia lhe assustava em enorme desconforto. Agora Dyane Cleveland atravessava a densa bruma do passado tentando comprar a sua alma com as reticências endurecidas fincadas lá na distância. Seria necessário correr, correr muito, para restabelecer o sentido de que seguir em frente é sempre preciso. Agora precioso. Domingo foi feito para nada. Sem compromisso, sem agenda a cumprir, carregava o risco de se manter suspenso, deslocado, desperdiçado das horas que seguiam em frente sem a sua companhia. Suspirou fundo. Não queria procurar entender o que havia ficado para trás. Passado revisitado é arrastar para o agora as traças e os troços que ficaram largados pelo caminho por um motivo ou outro, ou tantos. Inútil.

Reconhecendo impossível manter-se um flácido instrumento sem corda, tratou logo de buscar uma providência qualquer que lhe restituísse o caminho. Livrar-se do embaraço de tropeçar nos pedaços abandonados que jamais poderiam reaver a pessoa que havia sido um dia. Telefonou então para o cabelereiro, o único que confiava e que cobrava extraordinariamente caro a igualmente extraordinária conveniência de atender os clientes em domicílio aos Domingos. Depois de umas três horas de trabalho, a obra melhor se ajustava se fixa em uma parede do que sobre um pescoço. Mas havia estilo, sem dúvida. O novo visual, ousado em cores e nos desníveis de comprimento, lhe dava absoluta certeza de que com aquela mudança nenhum fantasma teria a imprudência de se transportar para o atual dos seus dias. O cabelereiro se despediu maravilhado com o próprio talento. O dono da obra de arte ambulante aceitava-se quase ridículo porque dali para frente iria ocupar os seus pensamentos na construção daquela nova identidade. O preço pago pela alforria das suas memórias.

Somos estranhas criaturas. Incontroláveis em revezados delírios. Seguimos em frente, distraídos das doses diárias de morfina ideologicamente administradas. Somos apenas disfarces educadamente encaixados nos mistérios aos quais nunca conseguiremos ascender.

2 Comentários

  • Claudia Bernardo

    Isso me lembra os não acontecimentos da vida e tudo que dentro deles acontece. “revezados delírios’ e um tanto de sempre e constante solidão.

  • Vera Menezes

    Como é bom escrever……. menos por ser impossível não fazê-lo, mas sobretudo pela mágica interpretação daqueles que leem. Obrigada Claudia pelo comentário. Bjs.

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