Sentimentos acontecem dos fatos

Literal, literária e liturgicamente

O sentido da vida? Pergunte a tantos queira e você terá diversas possibilidades numericamente equivalentes ao quantitativo de pessoas questionadas. Muitas respostas podem espontaneamente convergir, mas mesmo repetindo a pergunta para uma rodinha de praticantes de uma mesma religião, ou clube, ou sindicato, apesar de se esforçarem pelo politicamente correto, serão diferentes os ângulos e as intensidades dos retornos que teremos. Parece que o sentido da vida é um grande mistério inacessível. Ou então este sentido fica fragmentado nos pequenos objetivos que nos colocamos e que paulatinamente vamos alcançando ao longo dos anos.

Sempre entendi que o sentido da vida estaria relacionado com o compromisso em ser feliz. O princípio norteador desta premissa foi construído a partir da não aceitação da assinatura do sofrimento como fio condutor do tempo curto/longo que me é dado a viver. Simples assim. Muitas décadas foram necessárias, contabilizadas quase no limite dos dedos de uma das mãos, para me aventurar na compreensão da felicidade. Fui buscando as tantas coisas miúdas que me encheram o peito daquela energia fininha, uma espécie de casquinha que nos decora o rosto com sorrisos breves ou relativamente contínuos. Nessas ocasiões eu sempre me soube viva. E identificava ali a proximidade do sentido de viver. Mas não faltaram os sombrios sentimentos, impregnados de angústia, catalogados na melancolia. Esses, eu tenho cá para mim, que só tenham acontecido para a valorização dos momentos que a eles se opõem. Sofrimento não deveria ser representação de nenhuma vida. Mas trata-se de uma opção? Talvez a mais sutil das escolhas que a vida nos coloca.

Embora tenha sido minha opção buscar sintonia com o prazer, a alegria, a satisfação, enfim, me entrelaçar com a vertente que impulsiona e libera os caminhos, sempre busquei observar com muita atenção a desenvoltura daqueles que se ancoram no lado sombrio dos acontecimentos.  Nunca entendi muito bem o arrastar das intermináveis lamúrias, incansáveis reclamações, incontáveis tatuagens da vitimização. O que percebi é que, independente da direção escolhida por uma pessoa, existe uma tendência natural de se apossar dos cenários e fazer deles a composição da própria visão do mundo. Assim, muito difícil aos otimistas esfacelarem as suas esperanças ao longo da vida, bem como aos negativos mudarem o polo da atração que os mantém vivos. E o mais curioso é que ambos são fios da mesma tecelagem, só que um é o avesso do outro. Apenas isso. Os mesmos acordes que vibram num samba animado podem ser utilizados na pungência de um tango. Tudo é música…

Tristezas e alegrias são sentimentos que não poupam nenhum ser vivente. Se otimista, eu lido de forma diferenciada daquele que não o é. Apenas isso. Nos servimos do cardápio oferecido pela vida na  bandeja das emoções. Nos alimentamos das energias que conseguimos identificar e delas colhemos os sentidos. Variadas são as contradições, múltiplas são as incongruências. É natural que a vida queira nos mostrar alguma coisa. É certo que ela nos observa enquanto nos esforçamos por encontrar um espelho que acolha as íntimas contradições que nos habitam. A vida tem seus métodos particulares, entulhados de fatos, e quem quiser que aprenda alguma coisa com eles. Mas cuidado: aplique as suas conclusões sobre a existência aos seus restritos domínios. Ninguém está muito interessado nas suas verdades, sobretudo porque verdades se assentam bem no princípio da relatividade.

Então, qual é mesmo o sentido da vida? Quais os motivos de nos ter sido dado um tempo, uma passagem por este planeta? A pista que investiguei me levou ao centro de uma praça arborizada pelas minhas controvérsias. Fiz questão de me experimentar em todas as estações, sentir nas mãos todas as formas, dar nome a todas as cores, mastigar todas as texturas, identificar todos os perfumes… E como o desespero exige uma concentração para além da minha capacidade, eu arrisquei um sorriso. E deu certo. Foi assim que compreendi que dentro dos bolsos da criança que nunca abandonei, carrego a poeira das direções percorridas com a leveza e/ou cansaço dos meus passos. O caminho me trouxe até aqui na suavidade de tudo que em mim se transforma para a bem-vinda contradição de mim mesma. Eu me rendi à coragem de ser múltipla. Quebrei a bússola da vaidade apontada para as ilusões grandiosas de que ser única me traria alguma espécie de vantagem.

A transitoriedade do que eu sou hoje e o acúmulo de tantos outros ensaios de mim mesma, me emprestaram – por tempo indeterminado – a convicção de que o sentido da vida está na oportunidade de aprendermos a amar. Amar para além das facilidades das semelhanças. Amar o que nos contradiz e nos atiça a reagir por instinto. Amar o que nos amedronta dentro das embaçadas consequências. Amar sem colocar qualquer condição para tal. Amar o que até bem pouco tempo me era impossível aceitar…

Entendi que viver é a concessão que o tempo nos oferece para aprendermos a amar. Estou no capítulo em que a solidão é uma avalanche soterrando equivocadas convivências. Aprendo na lição do silêncio as noções do espaço.

Busco um amor arejado onde circulem os paradoxos do mundo. Todos cabem na pessoa que diariamente vou me descobrindo.

Um comentário

  • Brotosaurus

    Bem… Já sabemos de que amor se fala: “Amar sem colocar qualquer condição para tal”. Trata-se de agápe ou ágape. Brilhante!! É importante que se registre que não é nem eros nem philía.
    Perdoe-me dizer mas trata-se de um reconhecimento que não me sinto capaz de tal amor e fico nos arremedos pois não vivi essa experiência. Trata-se apenas de ouvir falar ou só de cabeça. De éros e philía posso falar pois existe sim uma vivência.
    Já pensou em “amar sem medidas”?!
    Sempre que vejo falar de amor ou amar não posso deixar de escrever a frase de Adorno que diz muito e nos sinaliza se avançamos o sinal: “Serás amado quando puderes mostrar tua fraqueza sem que o outro sirva-se dela para afirmar sua força.” Já pensou?!
    Já pensou amar a nós mesmos como somos em nossa banalidade de seres humanos em vez de amar apenas a nossa imagem daquilo que acreditamos ser?!
    Então… Posto tudo isso não quer dizer que me coloque em uma posição de não querer avançar em se tratando de amor ou amar. Certo?!

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