Sentimentos acontecem dos fatos

Da natureza de ser terra bebendo água

Primeiro libertei-me do nome. Depois fui me desapegando, suavemente, do peso, da forma, do gênero, da gravidade que se impõe às coisas quando submetida ao significado que lhes é atribuído.  Algumas impressões ficaram mais nítidas quando libertas do nevoeiro semântico que as aprisionava. Tudo ficou então destituído das suas convencionais possibilidades. E foi então que o medo, sem saber que papel cumprir, manifestou-se num leve tremor que foi ligando as células daquele corpo recém-inaugurado. Talvez, enfim, eu pudesse fazer uma omelete sem precisar quebrar os ovos… Reconstruir a lógica com as mais finas especiarias do absurdo. Quem ousaria?

Por muito menos consegui ser tantas coisas… Foi preciso abandonar aqueles esquadros viciados que só reproduziam sedutoras paralelas. Fiquei longo tempo deslizando nesta geometria do desencontro. Custei a entender que é para além do bem e do mal que a vida acontece. A liberdade pulsa e re-pulsa nas vezes em que atravesso o trânsito – violento em algumas circunstâncias – das ideias e percepções dos meus pés no caminho. Fui, sobretudo, a melhor das abstrações asiáticas, onde nunca pisei, sequer pensei como orientação. Ali me arranhei na felicidade. Mas foi muito mais tarde, quase anoitecendo, que os meus olhos se assentaram numa tonalidade entre o azul e o verde. São cores que nasceram apenas porque a água tem memória. Nessas lembranças, mais que graciosas, a recriação do mundo descansou somente para tomar fôlego. Ocupei por completo o lado direito do peito. Ali preenchi de verde e azul – quase brancos de tanta afabilidade – o espaço desperdiçado pelo coração. Soube, então, que músculos quando não se desenvolvem preservam alguma generosidade: distribuem licenças para novos sentimentos trazidos por novatas percepções. Deixei lá, sem dar muita atenção, mas respeitosamente, o descompassado tum-tum-tum, influenciado pelas vibrações dos sentimentos e escurecido pelas tonalidades acumuladas de tristeza. Me dediquei a uma possibilidade diferenciada. Desprezei a possibilidade cansativa de recuperar batimentos cardíacos atrofiados pela ignorância dos ressentimentos. Queria mesmo era invadir o outro lado das coisas. Queria a curiosidade, que só as crianças possuem, de desbravar hipóteses distraídas da noção de perigo. Escolhi todos os sentimentos e todas as imagens que se aproximavam, naturalmente, das cores em verde e azul. Suavidade no meu jeito de olhar. Coloquei no lado direito do meu peito algumas canções que foram trilhas sonoras de poucos relacionamentos – não importa se somente as músicas tenham permanecido; uns seis livros a ser revisitados e dois amadurecendo o futuro; coloquei fotografias de pessoas que foram embora da minha vida – distantes galáxias e/ou desconhecidos paradeiros; sete camisetas, uma calça de brim azul, duas bermudas e a sandália única de todos os dias; uma caixa de fósforos cuidadosamente envolvida em saco plástico para proteção nos tempos de chover; um pente grosso para contrapor aos compridos fios do meu cabelo grisalho (uma pacificação das ideias quase brancas de todo); uma caneta e um bloco sem pauta. Tudo coube com folga na mochila. Caber na vida com leveza é sabedoria de eterna conquista.  Os tons pastel são bem menos que os cinquentas, confusos, que vagueiam por aí.

Fiquei com as cores e o instinto para identificar as melhores direções. Me desviei de tudo que me trouxesse evidências que a água queria reaver, na íntegra, a sua memória. Queria novas histórias, diferentes memórias de quando fui oceano. Animal com decência anfíbia. Esqueci o conceito de beleza e passei a sobrepor as coisas com os nomes de outras coisas: um sorriso que parecia um livro; um olhar de jabuticaba; uma mulher inesgotável laranjeira de atitudes frutíferas; homens guardados nos silêncios das pedras. Eu mesma uma nuvem brincando no céu, sem nenhum interesse se por vizinhos os deuses e/ou os anjos. Não foram poucos aqueles que se empenharam em inúmeras tentativas de me desviar do caminho: me ofereciam uma ajuda que se distanciava em muito do meu sentido de necessidade; ou gritavam “Louca!” “Delirante!” sem se darem conta que verbalizavam o medo ameaçador do terror já coagulado que lhes pertencia. Também existiram aqueles que me sorriram; dei para eles o nome de Nascer do Sol e como tal, doces gestos andróginos desprendidos das palavras; sempre me acompanharam com o olhar até que uma curva me ajudasse a afastar deles tantas indagações intimas. Existem muitos códigos embolados em circunstâncias que nãos lhe dão sentido. É vasta a angústia dos Homens.

Trabalhei todos os dias. Aprendi o valor de um prato de comida e a diferença das noites sob a proteção de um teto. Conheci nas alterações do relevo onde localizar as nascentes dos rios e neles o conforto para o corpo cansado. Aprendi com os bichos a sentir no vento o cheiro do perigo e a linguagem secreta das matas. Troquei as desconfianças das minhas chegadas por camaradagem e solidariedade mútua. Passei a compreender que o futuro é o intervalo de tempo que os pulmões precisam para circular o oxigênio. Futuro é a próxima direção que a oportunidade me sugere. A aventura do desconhecido.

Primeiro libertei-me do nome. Sem nenhuma pressa voltei a ser água doce correndo cidades, sorrindo histórias. Finalmente alcancei a umidade da terra. Sou o silencio das árvores.

3 Comentários

  • kelly

    “perdi-me do nome; hoje podes chamar-me de tua…vesti-me de sonhos; hoje visto as bermas da estrada; de que vale voltar quando se volta pro nada..“ (Balada de Gisberta – Pedro Abrunhosa). Cheia de dúvidas, envolta na angústia do devir, e sem medo algum da esfera do transformar-se, divido, através do seu texto, minha coloração furta-cor que se perde nas nuances dos raios sol/lua e coloca-me de frente com o presente que sonda a possibilidade do futuro. Perdi-me de tudo, mas conforta-me saber que nada sei e de nada adianta o saber, apenas vivenciar e sentir as minúcias do desejo que fazem meu mar correr para oceanos jamais visitados. A inauguração do meu corpo é a possibilidade de um novo nome. E em que o devir me levará a ser? Não sei, mas me sentir invadida pela possibilidade de ser nova é muito bom. Obrigada por estar parte do meu ser. Te amo.

  • Claudia Bernardo

    Ah… A mais ousada viagem, seguida da mais bela transformação. Também queria ter escrito o último parágrafo! rsrsr… Lindo texto.

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