Sentimentos acontecem dos fatos

Detalhes facilmente esquecidos

Era uma pessoa miúda. Para alcançá-la bastavam uns dois parágrafos, no máximo. Com o avanço da idade passou a dispensar os adjetivos e a ser parcimoniosa com os substantivos. Adquiriu uma especial preferência pelos verbos. Deles se servia no limite de sua energia. Falar se tornava, gradativamente, desnecessário para o seu velho hábito de existir, mas por contiguidade Zélia adquirira um privilégio biográfico surpreendente: uma visão aguçada que, enxergando tudo nos detalhes, lhe trazia algum incômodo já que se tornara uma pessoa síntese de si mesma e os pormenores trazidos pelo olhar eram requintes desmesurados para o seu entendimento de importância.

Ao completar sessenta anos, Zélia se desprendeu da família com a mesma naturalidade com que se desvencilhou do uso das preposições. Orações subordinadas deixaram de fazer parte do seu repertório. Na sua vida só cabiam períodos simples, e em termos de orações somente as Absolutas porque não tinha mais tempo de levar Deus na conversa. Conversa, por sinal, era investimento abandonado: Zélia achava que palavras só serviam para aprisionar o sentido das coisas e toda conversa, no fundo do fundo, se esforçam para manter em segredo o desejo de colonizar o outro. Aos sessenta anos, depois de ter vivido com a filha mais velha por um ano, Zélia resolveu voltar para a casa em que o marido e ela haviam morado desde o casamento. Foi uma decisão silenciosa. No dia do seu aniversário ela amanheceu com um brilho diferente no olhar e logo após o café da manhã, comunicou à filha, ao genro, e ao netinho de cinco anos – este tinha poucos interesses além da determinação em fazer o mundo cumprir a obrigação de lhe servir – que voltaria para a sua casa. A pequena mala arrumada e ela perfumada de domingo, eram os sinais públicos que nenhum argumento poderia removê-la da ação. O verbo voltar lhe era vigorante porque estava acompanhado de outros verbos, não pronunciados, que ela criava de substantivos aos quais se referendava: saudade, eixo, independência, solidão… Reinventar verbos recuperando a esperança.

Foi logo após a morte do marido que Zélia atendeu ao pedido da prole e se transferiu para a casa da filha mais velha. Bastou um ano para entender que suavidade é questão de foro íntimo e que não existe distração para determinados episódios da vida. Amava o marido. Ela desconfiava que a dor que sentia por não mais tê-lo ao seu lado talvez não fosse a mais intensa, mas ganhava veemência por ter sido a mais recente. Onde quer que Zélia fosse, levaria a última dor ou a última alegria até que estes sentimentos fossem rendidos por outros, preenchendo os mesmos espaços e cores.

Voltou para a casa com o olhar de tudo ver. Foram os seus olhos que lentamente abarrotaram Zélia de silêncio. Com o rompimento do uso de substantivos, adjetivos e preposições, a interação com os humanos ficou quase impossível. Ela ainda fez algumas tentativas verbais, mas são perigosos os verbos sempre incitando ações. A esmo. Não demorou muito para que os animais ocupassem o oco do mundo, e essa ocupação, mais que estender sentidos, alastrou sentimentos. O primeiro olhar de Zélia foi dedicado aos pássaros que na romaria das horas cantavam as posições dos dias. Ela, feliz, organizava a rotina a partir de gorjeios e bater de asas. Definitivos foram os cães nas consequências do afeto. Trouxe para casa uma boa quantidade deles. Alguns machucados, outros desnutridos. Todos foram reconhecidos na reciprocidade de olhares que tudo veem. Uma espécie intransigente de amor guardava em si a bondade que também era intimidação. Todos daquela estranha família de Zélia, incluindo ela própria, estremeciam porque os traços de convivência que uns deixavam em outros prolongavam de alguma maneira o susto misterioso de viver. Havia tanta intimidade entre eles que aos poucos Zélia foi se descuidando dos verbos na eloquência insubstituível do olhar. Nisto, inteiramente correspondida.

Quando muitos anos depois Zélia esqueceu que respirar era preciso, e foi com a mesma suavidade silenciosa que a acompanhou sempre, daquele jeito distraído e leve de olhar os fatos derramando neles carinho, os olhos tristes dos cachorros autenticaram a consideração por aquela mulher. Dr. Marcos, o veterinário que acompanhava aquela família incomum sem ter nenhum ganho material, mas enriquecido de humanidade, a encontrou na poltrona onde costumava ouvir os pássaros nas sonoras despedidas de cada tarde. Ao redor dela todos os cães estavam deitados, calmos, e lentamente se movimentaram com a entrada do Dr. Marcos. Foi assim que ele descobriu que cães são especiais em tudo, inclusive sabem rezar.

O silêncio é preciso, mas a necessidade está na vigília da respiração. Qualquer coisa a mais que se falasse de Zélia, seria inútil. Zélia era excessivamente desnecessária e sem importância para que alguém ousasse roubar-lhe a grandeza.

Um comentário

  • Claudia Bernardo

    Querida Vera, eis que me encontro com tuas letras. Todas tão por mim estimadas. Estima essa que só cresce a cada encontro. Confesso que ler o que escreves, sempre me emociona. Não um emocionar desses em que alguma lágrima cai e logo seca. Falo de um emocionar que goteja ao reler as belas passagens de tua escrita. Palavras e mais palavras expondo nossa humanidade. Como não me emocionar? Não sei nem quero. A melhor emoção se dá quando estamos diante de uma grande poesia. E como é poética a tua escrita! Como não desejar ser como Zélia? Libertar-se de arestas e tantos conceitos, para seguirmos amplos e menos estreitos. Buscamos tanto e as vezes nada encontramos. Nem tudo precisa do dizer, basta apenas o olhar e o sentir. Chegar a isso, deve ser assim, algo grande de fato. Deve mesmo tornar uma pessoa maior até do que ela mesma. Como Zélia em sua silenciosa compreensão. Lindo Vera! Bjs.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *