Frases que me detiveram

Qual a pior coisa que se pode descobrir de alguém?

Me fizeram essa pergunta dia desses e descobri que sou dada a espasmos, tipo ficar hipnotizada olhando para nada, pensando. Outra coisa que tenho percebido é que do segundo texto que devo ter decorado na minha vida, o Pai Nosso, me escapam algumas frases me obrigando a recomeçar algumas vezes e com isso o que há de religiosidade se perde no inconformismo de ter esquecido o que acreditava estar registrado na memória para sempre. Digo isto mais por medo de serem estes os primeiros sinais de Alzheimer do que propriamente vínculo direto com a resposta.

Algumas possibilidades me ocorreram:

1- Descobrir que alguém é um assassino: certamente não é uma descoberta agradável, mas as circunstâncias podem atenuar o impacto da revelação. Se o assassinato se der em defesa de outra pessoa ameaçada em situação de vulnerabilidade, há quem se manifeste pela condecoração desse assassino;

2- Descobrir que alguém é mentiroso: de fato a mentira é no mínimo bastante desconfortável, mas convenhamos, é uma prática universal com menor ou maior frequência. Existem mentiras socialmente aceitáveis, existem mentiras piedosas, existem mentiras que escondem covardes, mas mentir aplicamos desde crianças com a possibilidade de lá sermos corrigidos no que tange a valores. Mas tudo muda de vibração quando se diz que alguém mentiu para enganar outra pessoa. Existe aí uma força na palavra enganar que pressupõe que o autor da mentira é um contumaz enganador, praticante de estelionato ou qualquer outra tipificação ilícita;

3- Descobrir que alguém é ladrão: há quem afirme que esta poderia ser a resposta mais correta para o que de pior pode referendar alguém, já que ladrão pode roubar vidas, pode roubar a verdade pelo instrumento da calúnia, pode subtrair patrimônio, pode roubar nas entrelinhas da lei. Mas também tem aquele ladrão que foi no supermercado e roubou uma lata de leite em pó e ficou anos esquecido numa cadeia sem ter como alimentar a penca de filhos;

4- Descobrir que alguém é pedófilo, serial killer, estuprador, praticante de violência doméstica, etc.: certamente ter-se-á uma fila de advogados a conduzir tais pessoas a uma clínica psiquiatra a fim de imputá-los a famosa privação de sentidos. E tendemos a afirmar: Coitado, é um doente mental.

Poderia enumerar uma série de outros exemplos abrindo o código penal, ou a Bíblia, ou a Constituição, ou os Cadernos de Moral e Cívica. Provavelmente tenderia a relativizar tudo querendo descobrir os atenuantes para cada infração.

Depois disso tudo, estou inclinada a afirmar que a pior coisa que se pode descobrir de alguém é ela deixar de ser quem sempre foi. E neste ponto voltamos à ameaça do Alzheimer em que a pessoa deixa de se reconhecer e nós deixamos de reconhecer a pessoa que sempre foi. E vejam que estou divagando igualmente sobre a possibilidade triste de um delinquente não poder praticar delinquências a que sempre se habituou, e nós não podermos mais nos precaver de seus atos já que a doença os priva da realização.

A pior coisa que se pode descobrir de alguém é essa pessoa não mais corresponder às expectativas que criamos sobre ela, portadora ou não de Alzheimer.

4 Comentários

  • kelly vieira

    Fiquei aqui instigada com essa pergunta. Obviamente tenho valores, por vezes até reacionários, mas, ainda sim, são meus… Então, frente as expectativas decoradas sobre o outro: eu que me haveja com isso! Afinal, certas coisas podem parecer injustificável, entretanto cada qual carrega sua justificativa. Agora, tentando responder a essa questão, para mim talvez seja algo que se condiciona a própria vida: o não estar mais. Quando entrei um cadinho na relação de saber sobre o Alzheimer, até me encantei. Por mais doloroso que se imponha, sobremaneira para os que fazem parte do laço, aquele que dessa questão sofre, esquece-se da própria diferença; não se recorda nem mesmo de ter perdido algo identitário, tampouco questiona-se sobre a vida, o tempo e os problemas que a idade o apresenta. Mas, meu problema com a memória é meu, e não estou diminuindo a dor que de fato essa questão coloca. Mas lidar com um saber de não se ver mais – não pela distância, mas pela falta real de uma realidade imposta – não se esperar nada mais, é a impossibilidade de nem sequer expectativa alguma preencher a lacuna.

  • renato soares menezes

    Será mesmo que a pior coisa que podemos descobrir sobre alguém «é essa pessoa não mais corresponder às expectativas que criamos sobre ela, portadora ou não de Alzheimer»? Talvez eu tendesse a não concordar com tal assertiva: afinal, quem cria as expectativas é quem está se enganando, se iludindo, deixando de ver o outro como ele realmente é… Quem mandou criar expectativas sobre o outro, sem procurar enxergar como  o outro é, de fato? É mais ou menos como se alguém declarasse o seu amor pelo outro e o outro se surpreendesse, com razão, pois nunca dera motivo, nem permissão, para que aquele alguém se apaixonasse por ele: que atrevimento, desse alguém – que ficará decepcionado e desiludido, mas sem razão! Assim, me vi dando trato à bola para responder à questão colocada e cheguei a conclusão que a pior coisa que podemos descobrir sobre alguém é tomarmos conhecimento, de repente, que esse alguém, tão estimado por nós, tão necessário para nós, com as suas características, defeitos e qualidades, possui uma doença incurável e que se encontra em uma fase terminal. Isso, sim, deve ser muito doloroso, saber que dentro de poucos dias, poucas semanas, pouco meses, aquela pessoa já não estará conosco, vitima de um câncer, de uma infecção hospitalar, de um coronavírus qualquer… É um choque, que se desdobra em fases diferentes, de não compreensão, de não aceitação, raiva, sentimento de tristeza enorme, tanto por nós como pelo outro, tanto para quem vai ficar como para quem vai partir. Até que, conformados, tentamos reunir forças, de ambos os lados, para encarar os derradeiros tempos que ainda restam com maturidade, sabedoria, galhardia e até alegria,  procurando aceitar como um bônus esse curto lapso de tempo, de um futuro com dias contados. Em poucas palavras: o pior que se pode descobrir sobre alguém é que esse alguém, a quem amamos do jeitinho que é, possui Alzheimer – ponto. E fico por aqui, pois me dou conta que esse comentário já está demasiado longo e que quase se transforma – desculpe a pretensão – em um novo texto para este Blog!

  • Mônica Barros Coutinho

    Ótimo texto, que nos deixa essa interrogação… Fiquei pensando na questão do Alzheimer pelo viés do quanto traz o incomunicável do sujeito consigo mesmo e com o outro, o não poder mais partilhar. Essa quebra da expectativa para mim seria a quebra dessa possibilidade de trocar, estar junto, acolher e ser acolhido, qualquer que seja o motivo como você colocou, Vera. Bj

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