Frases que me detiveram

Concílio

Ainda bem que era a mão esquerda. Sou destro e na eventualidade de vir a perder uma das mãos, melhor mesmo que seja a esquerda. Não sentia uma dor insuportável, e o meu pânico com a situação não ultrapassava os limites da sanidade. Muito provavelmente se as mandíbulas do cachorro se abrissem, haveria danos, sangue, emergência médica. Eu olhava com alguma tristeza para o cachorro e menos tristeza pela minha mão. Sempre gostei, respeitosamente, de cachorros e não imaginava que um deles traísse a minha respeitosa amizade com aquela atitude que violentava os meus princípios animais de cordialidade. E o cachorro não me soltava. Por prudência não me cabia arrancar a mão imobilizada, evitando assim que aqueles dentes cravados na minha pele se contraíssem ainda mais na clara intenção de impedir que meus movimentos e funções se restabelecessem.

As pessoas que passavam na rua olhavam a cena com espanto e esboçavam gestos cautelosos mas determinados no sentido de fazer com que o cachorro largasse a minha mão. Quando uma dessas pessoas pegou uma pedra na calçada e ameaçou atirá-la no cachorro, fiz um sinal com a única mão que dispunha impedindo que a ação se concretizasse. Resolvi entrar em casa arrastando delicadamente comigo o cachorro que não me largava. Não houve uma reação mais forte por parte daquele que parcialmente me imobilizava, nem percebi naquele olhar que fixamente me acompanhava uma deliberada vontade de intensificar o que estava posto.

Em casa, parentes me rodearam assustados com o insólito da cena. Eu havia trazido para o solo sagrado do meu lar aquele inimigo. Já não bastava a crise que se espalha pelo mundo, que ceifava vidas, que ameaçava os frágeis sinais de estabilidade raramente identificados aqui e ali, que enfraqueciam os lados sociais – até mesmo os civilizatórios; e eu ali, numa convivência inimaginável, inserindo na família um traidor declarado e, pior, aceitando aquela situação com certa naturalidade. As crianças foram as únicas que mesmo assustadas num primeiro impacto, aos poucos foram se acostumando com a cena ao ponto de alguns ousarem afagar o cachorro.

Apesar de me ver obrigado a arquear o dorso para aliviar a pressão dos dentes na minha mão e começar a sentir um certo desconforto nos ferimentos, ainda pequenos que se faziam visíveis, eu tentava neutralizar a superioridade que o cachorro exercia sobre a minha mobilidade lhe destinando uma certa indiferença para o extraordinário da cena. Deixei de encarar o cachorro e passei a agir com a máxima naturalidade possível frente ao que de corriqueiro os dias oferecem: bebi água, comi uma fruta, atendi com certa dificuldade o telefone, etc…..

Enquanto isto os parentes começavam a chegar em casa, vindos dos mais diferentes locais, atraídos pela necessidade de se dar um fim àquilo que não aceitavam que eu passivamente aceitasse. A casa ficou pequena para uma média de trinta pessoas que se aglomeravam pelos corredores, quartos e cozinha, após uma receosa aproximação da minha figura cuja mão permanecia abocanhada pelo cachorro. Muitos se indignavam por terem se sentido obrigados a atravessar uma série de dificuldades que as restrições impostas pela crise mundial tiveram que ser superadas para estarem ali num conselho de família, a decidir o que fazer com o inusitado de ser eu a preponderância sobre as demais gravidades que nos assolavam.

O mais velho tomou para si a incumbência de organizar aquele concílio que se formara espontaneamente motivado pela curiosidade tanto quanto pela indignação: um homem submetido à vontade de um animal inferior. A primeira providência do homem mais velho foi distribuir os participantes pela faixa etária: as crianças foram destinadas ao quintal sem direito nem ao menos de presenciar os encaminhamentos; oito eram os mais idosos e tiveram assento ao redor da mesa da sala; quinze se situavam na meia idade, entre vinte e cinquenta e nove anos, e hierarquicamente se mantiveram em pé ao redor da mesa em que os anciões permaneciam sentados. Eu e meu cão respeitamos a ordenação e nos posicionamos numa segunda fileira atrás da mesa apesar dos olhares indesejáveis que nos foram dirigidos. Pensei até que fossem nos expulsar dali nos confiando à companhia das sete crianças que se divertiam no quintal. A reunião começou contabilizando a quantidade de parentes que haviam falecido em decorrência da crise que se espalhava pelo mundo. Muitos morreram pela agressividade do vírus, outros de fome, outros de pânico em transloucadas atitudes. A fala foi bastante contundente quanto à finalidade: estamos aqui reunidos porque passivamente um parente nosso aceita ser privado de todos os direitos porque um cachorro se impôs. No mundo, bem à nossa porta, as mortes se dão de forma progressiva ao ponto de não ser mais possível contabilizar o quantitativo de vidas interrompidas por uma cadeia de consequências cujo fio condutor já se tornou impossível identificar. A humanidade está seriamente ameaçada e não podemos ser indiferentes a essa catástrofe na mesma proporção que o nosso parente ali parece não se importar, sem nenhuma reação, frente ao que a ele se apresenta. É preciso que façamos alguma coisa já que não há no mundo quem possa dar conta do caos: a ciência falhou, as lideranças foram acometidas por insanidades múltiplas, as instituições estão destituídas nos seus princípios diretivos, a sociedade independente de seus lastros culturais foi implodida num processo autofágico surpreendente. Precisamos determinar aqui providências para que a nossa família sobreviva a isso tudo, antes que a demência que testemunhamos no nosso parente ali se torne justificativa histórica para a nossa radical eliminação da face da Terra. Nesta perspectiva é necessário que identifiquemos quais de nós serão protegidos pelos demais para que a continuidade da nossa família se perpetue. Os que estão aqui sentados perdem a partir de agora o direito direto à sobrevivência e por serem os mais velhos irão cumprir o desígnio funcional de protegerem os mais novos aptos à reprodução. No entanto, não podemos permitir que questões genéticas desviantes possam ser identificadas nas gerações subsequentes, assim juntam-se aos anciões, os de meia idade e os jovens cuja linha hereditária pregressa tenha registro de mongolismo, infarto, câncer e diabetes, entre outros. Todos na sala se mantinham silenciosos embora eu pudesse sentir que a respiração alterada, suspensa pelo medo, embaçava os olhares de muitos daqueles parentes. Isto posto, continuava o mais velho de todos os velhos: precisamos dar encaminhamento ao patético parente que está ali, pacatamente, admitindo o jugo que lhe é imposto por um irracional que até pouco, inversamente, lhe prestava subserviência. Todos olharam na minha direção.

Eu me encolhi um pouco mais querendo restringir ao máximo o meu espaço no mundo. Olhei o cão que perseverava no seu intento. Impossível impedir lhe dirigir um olhar carinhoso. O destino de nós dois iria ser sentenciado sem possibilidade de recurso.

Aí eu acordei em 2020. Pleno outono. E eu não tinha como voltar ao meu pesadelo, que me soava preferível àquele sol que entrava pela janela.

5 Comentários

  • kelly vieira

    Pesado pesadelo de fato.
    Muitos são os casos e causos contados que antes do sono foram crentes às urnas, e com a mão direita, indignados, associaram que todo mal seria quase que admissível de ser ali extirpado: supervalorizaram um dos lados; deixados morder pela esquerda.
    E, como que por justificativa, até se compreendia, pois muita gente vinha passando por bocados com esse mau cheiro, esgoto vindo pela famigerada política, que exalava desgosto da arte cínica (deontologicamente descomprometida). Achou-se que pelo “novo” encontrar-se-ia em essência o controle agonista, entrave histórico dessa medida corrompida pelos valores de uma velha política.
    Cria-se que um arquétipo como de um cão jamais faria mal ao cidadão; mas, como diz, parafraseando “o leopardo”, as coisas precisam mudar de lugar para permanecerem às mesmas. Mas a única coisa nova foram as velhas mazelas coligadas sob um pano sem amor à liturgia. Ah, pesadelo que mata. Penoso, porque já não é somente um sonho, é o horror de se estar acordada e sem meios para impedir o parente de saber que se pode ter amor, não é preciso deixar uma pedra findar a dor, mas que amor também é adestramento… Se para uns focinheira para outros, camisa de força e, sobretudo, isolamento.

  • Diderot

    Ainda bem que acordou! A palavra chave são os significados. São muitos mas o ponto de partida no geral são as vivências pessoais. Os “apertos-no-coração” acabam se realizado no domínio dos “sonhos” – não podemos escolher – eles inexoravelmente acontecem, ou no estado de vigília, onde a cabeça dos indivíduos sempre organiza o cenário de acordo a sua crença naquele momento.
    Queria saber de onde vem tanta inspiração Vera?
    Parabéns pela magnifica construção de seu texto.
    Relaxando um pouco acho que o Corona-19 não tem espaço nesse meio físico e intelectual. Pode ser até que a tão desejada vacina esteja nesse rumo.

  • Vera Menezes

    Prezado Diderot, embora não seja do meu feitio não posso deixar de responder sua pergunta: a inspiração me veio de dois sonhos que um amigo me contou, imagino que na mesma noite. Fiquei bastante impressionada com a imagem forte de cada um dos sonhos e resolvi juntá-las num único enredo sem perder de vista o fato dos sonhos estarem muito ligados às nossas vivências de mundo. Portanto, assim foi. Com relação ao seu apontamento sobre a vacina, com uma certa ironia e ainda com base nos dias que vivemos me inclino a dizer: não é bem assim, quado se diz a ciência faliu estavam dizendo respeito às ciências sociais. Não há provas contrárias a isso. Você está perseguindo o autor….. Fortíssimo abraço.

  • Mônica Barros Coutinho

    Um texto forte, que nos envolve, num crescente suspense, como sair dessa insólita situação, em que a opção pela não violência, mantém indefinidamente a mordida que não se desfaz… Mesmo com o afago das crianças… É preciso um concilio de família, a intervenção de um terceiro para resolver… Eis que o despertar acaba com esse pesadelo… E fico pensando em quantas vezes ficamos presos em situações insólitas por não conseguirmos uma solução que seja aceitável… Excelente texto, Vera!!!

  • renato soares menezes

    Mais um texto maravilhoso da autora do Blog! Desta vez, como se fosse uma reação mágica ao momento conturbado pelo qual estamos passando, um momento, em última análise, de medo, nos vemos diante de um fato – a agressão de um cachorro -, o qual desvia a atenção de todos os personagens: deixam de priorizar, embora com uma certa dificuldade, nem que seja por instantes, essa época difícil e se concentram na situação criada pelo cachorro. E a esperança – sempre a última que, eventualmente, pode desaparecer – se faz presente, com força, quando algo inusitado acontece – o despertar e seu corolário – e assim, como se de um milagre se tratasse, tudo muda! Sim, tudo muda, mas, pelo que denuncia a última frase do texto, não para melhor, apesar do sol outonal que adentra a janela… Pois é, às vezes a realidade pode ser pior do que um pesadelo… Mas aí, reitero eu: nunca devemos perder a esperança por dias melhores!

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