Frases que me detiveram

Ela disse-me assim…

Essa canção de Lupicínio Rodrigues, imortalizada na voz de Jamelão, ressalta nos seus versos o remorso. E com tamanha intensidade que a traição ficou num segundo plano, bastante acanhada…. Mas aqui a história é outra, embora eu tenha para mim que o remorso deveria ser pauta de reflexão para quem me trouxe tantas fendas emocionais num discurso rápido.

No dia seguinte ao meu aniversário, quando eu ainda estava me deliciando com a lembrança dos amigos que se manifestaram pela data, ao mesmo tempo que me recordava daqueles que não se revelaram, muito provavelmente constrangidos evitando que o acúmulo dos anos fosse destacado, o telefone celular tocou.

No outro lado da linha uma amiga (será que a palavra “amiga” cabe para se identificar uma pessoa que conhecemos há mais de cinquenta anos e com a qual mantemos uma relação de mútua tolerância por mais de meio século? Mais correto dizer que um “milagre” me telefonou…) me abordou querendo tirar algumas dúvidas sobre um aparelho eletrônico que estava pensando em adquirir. Pois bem, quando o assunto já estava encaminhado e estávamos prestes a nos despedirmos, ela disse-me assim: “Você já se deu conta que daqui a quinze anos estaremos com oitenta anos? Precisamos tomar algumas providências porque quinze anos passam num piscar de olhos”. Nessas horas parece que a operadora de telefonia faz questão de manter no máximo a excelência do serviço que nos oferece, e a partir de tanta eficiência fui obrigada a ouvir em nítido e bom som a frase na integralidade de todos os fonemas…

A primeira coisa que me ocorreu foi questionar o tempo do verbo empregado, “estaremos”… Como assim, “estaremos”? Quem garante que eu ou ela ainda estaremos capacitadas a desfrutar dos sentimentos – bons e ruins – daqui a quinze anos? A parte isto, inevitavelmente teremos que lidar nesse intervalo de tempo com a crueldade de chorarmos por aqueles que de forma natural, ou não, só terão a nossa memória como testemunho de que viveram a existência a que foram capazes. Isto se memória ainda tivermos e se respirar ainda nos for facultado. Providências a serem tomadas? Nem questionei, mas estaria ela se referindo a qualquer coisa do tipo herança? Nesse quesito muito provavelmente meus herdeiros me odiarão com toda a energia que em vida me pouparam. Herança: um veículo de 1992, que mesmo lindo e operante vale infinitamente menos que as patacas emocionais que me fizeram conservá-lo até hoje; uma coleção de canetas-tinteiro da qual ninguém mais se utiliza (inclusive eu) e que já eram sem serventia prática mesmo antes dos textos eletrônicos me fazerem esquecer de como é a minha caligrafia; e outra coleção, para mais de quatrocentos CDs com numerosíssimas canções que foram gravadas ao sabor das diferentes emoções a que fui acometida em distintas e contraditórias situações. Fora isso, me desculpem, uma infinidade de expectativas e perspectivas que por se tratarem das angústias da minha existência não as delego a ninguém, muito em função dos resquícios do meu espírito cristão de não desejar mal a quem quer que seja. Bom, pode ser que a referência não tenha sido herança, mas sim de que forma gostaríamos de encomendar as nossas exéquias (esta é uma palavra afetada, assim como a morte). Nesse quesito, por favor me poupem de velório e não desperdicem dinheiro com cremação. No velório há uma morbidez que sempre me pareceu a pior injustiça a ser feita para alguém do nosso convívio: salvo um ou outro que possa se dar por feliz em nos ver imobilizados num caixão, é um constrangimento para qualquer defunto saber que ficará ali exposto ao choro e à lamentação das pessoas e que muito provavelmente só as queria ver felizes e sorridentes. Na cremação, além do absurdo financeiro que é nos meter num forno, sei lá quem irá receber uma urna com uma quantidade expressiva de pó que será então o condensado da nossa existência. E o que fazer com o raio da urna? Quem ousar me cremar que o decida porque até lá serei um fantasma ameaçando sair da urna como o gênio da lâmpada encontrada por Aladim, mas sem direito a conceder qualquer pedido que venham a me fazer. Arre! Entreguem meu corpo a uma faculdade de Medicina, se servir para um nobre sentido de aquisição de conhecimento está ótimo; no mais das serventias poderá causar risadas em algum estudante que certamente deveria estudar outra coisa qualquer.

Isto posto, minha última reação ao impacto, foi vigorosamente clamar que na impossibilidade de todos os queridos se manterem vivos por mais quinze anos, que não fosse eu a ter que suportar a saudade e a solidão de reverenciá-los numa espécie de isolamento social, este sim definitivo.

Para M.M.C. (apesar disto, meu amor não foi abalado)

6 Comentários

  • Monque

    Nossa!!!!!
    Quantas possibilidades de entendimento!!!!!
    Tudo que pode nos provocar uma fala, cheia de vida vivida, do outro…
    E se sua amiga/milagre estivesse falando de atenção e cuidados com a vida,até lá e depois desses anos feitos? Claro, caso lá cheguem ou até onde cheguem!?!?
    Ou será mais uma fenda aberta… Nãããoooo

  • renato soares menezes

    Que texto interessante!
    Primeiro, o mesmo me deixou cheio de curiosidade por querer saber a que a «amiga-milagre» se referira ao telefone, com a frase que desencadeou tantas emoções e questionamentos. Mas parece que esse ponto já teria ficado esclarecido.
    Depois, fiquei com a nítida impressão de que a Autora quis mandar um recado aos que lhe são próximos – e mais jovens, no sentido de como agirem com os seus restos mortais depois de ela partir desta para melhor…
    Dito isso, me detenho sobre a canção de Lupicio Rodrigues. Mesmo com uma temática triste/dolorosa, é linda e, como diz, com sapiência, um amigo, a música me redime. Ponto.

  • Mônica Barros Coutinho

    Nos últimos anos, a idade sempre me surpreende por um certo desencontro entre a data de nascimento e a ideia que eu tinha de velhice… Quando estava chegando perto dos 50, Madonna completou e me apontou uma outra possibilidade de ter meio século!!! Muito diferente do que eu imaginava … Na perspectiva de que providências tomar até os 80 …. Pensei no que viver… Viajar … Conhecer ou reencontrar… Ou o que agradar… Mas que dê a certeza de desfrutar esse presente … A vida…

  • Diderot

    Meu registro é sobre o Lupicínio Rodrigues. Em alguma ocasiões do meu caminho – ainda lá em Porto Alegre – a vida me colocou na frente desse semelhante de uma estatura cultural como poucos. Foi naqueles momentos em que me sentia empurrado pelo ritos de passagem para assumir novas responsabilidades. Só por essa última os atentos já percebem que o lapso de tempo decorrido é longo e sobrevivi. Se tivesse ficado por lá esse texto não seria possível já há muito tempo. Ele na ocasião só era conhecido nas rodas boêmias da província. Veio a ser referenciado nacionalmente lá pelo início da década de 70. Mudaram os palcos: antes aqueles lugares impensáveis na lógica atual e depois nas telinhas de TV com os ajustes das personagens em todos os cantos. Uma coisa permaneceu: aquela figura humana inesquecível e assumida em sua plenitude como poucos. Perdoem-me aqueles que o conheceram pela brilhante interpretação do Jamelão mas as do próprio para essa e outras tantas são ontológicas e insubstituíveis.

  • Tania

    Primeiro, o alívio de ver que as msgs funcionam…..rs. Depois, concordar com vc em quase tudo, até no susto de constatar que daqui a parcos 15 anos seremos anciãs. Aff… bora viver a vida como a sentimos.

  • Bentobs

    Faltam só nove anos para os meus oitentinhas. Já pensei na adoação, mas depois pensei: Quando o momento chegar o problema não será mais meu. Paece um tanto covarde, porém,…
    Belo texto. Estou me deliciando com tantas belas páginas.

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