Sentimentos acontecem dos fatos

Pode ser…

Pode ser que a turma se aproxime trazendo com ela a sombra do silêncio que cresceu no medo. Aquele silêncio que foi engolindo palavra por palavra, todas que significavam esperança. Tudo isso só porque o medo foi aumentando de forma tão assustadora que conseguiu embaçar o futuro. Não sobrou muito o que fazer desse presente estragado, além de olhar pela janela e não reconhecer a paisagem nem a nós mesmos. Uma vontade danada de não ser essa novidade triste, acontecida de urgência, que não permitiu a ninguém planejar o diferente do que se era até então. “Até então”, neste caso, foi o dia de “não poder”: Não poder trabalhar. Não poder sair à rua. Não poder cortar o cabelo. Não poder visitar os amigos. Não poder receber ninguém para um café, ou para uma conversinha de comadres. Não poder ser o que se era de natural e tão corriqueiro, que nem nos demos conta que, ao contrário dos grandes feitos, eram as coisas pequenas e tão comuns que nos permitiam ser individualmente reconhecidos. Tudo ficou perigoso. Ficamos terrivelmente tóxicos. E à nossa volta, enorme intimidação.

Ficamos com a tecnologia, alguns animais e poucas pessoas de convivência. Para quem tiver sorte de ter celular, bichos e gente na intimidade… Vida restrita e sufocante em menor ou maior proporções.

Nos primeiros dias do “não poder”, até que aquelas diferenças não incomodaram muito. Ninguém sabia ao certo o que viria. E veio a incerteza em tamanho gigante. Proibido isso, proibido aquilo, sem nenhuma perspectiva de ser identificado e contido o inimigo. E fomos encolhendo nas vontades não realizadas e engordando na ansiedade de não sabermos até quando permaneceríamos seres restritos. Servíamo-nos dos livros, da televisão, das obrigações domésticas; até sermos levados à exaustão dos livros, da televisão, e odiando as obrigações domésticas. Nenhuma resposta nos foi dada. Nenhum alento. Vivíamos esperando que a curva fosse achatada e ainda hoje aguardamos, sem qualquer convicção, que a tal curva se encolha na mesma medida que a nossa liberdade foi desautorizada.

“Não poder” teve sérias ramificações. Individualmente, o medo foi se alastrando tal qual erva daninha em locais inapropriados: coração e mente. Coletivamente tudo ficou sem eira-nem-beira, já que o “não poder” atingiu também os que deveriam ter poder de formalmente governar uma solução. Ninguém foi poupado. Poder passou a representar simplesmente o privilégio de alguns em acessar um hospital no tempo imediato da necessidade. Confirmado então que o poder é desfrute de um a dois por cento da população. E mesmo esses, morrem na luxuosa solidão de um quarto hospitalar. Os sem poder morrem em número maior, na solidão compartilhada das enfermarias desde muito tempo com lotação esgotada. E ninguém sabe até quando o medo nos permitirá uma certa camada, fina, de humildade. Ou, ao contrário, o medo nos levará ao desespero e nos fará saltar no abismo, um voo cego na direção de tudo que nos tem sido interditado.

A morte se embriaga na Dexametasona, Hidroxicloroquina, Cloroquina, Azitromicina, Heparina, e outros não mencionados. Em doses distintas ou tudo misturado, a morte por aqui está na casa dos milhares e são milhões que se fizeram hóspedes do indesejável. A pergunta de cada um é: “quando será a minha vez?”. E a roleta-russa do tempo brinca conosco na aflição do nosso desamparo.

Hoje acordei com a notícia circular de que na minha pequena comunidade são sete pessoas inscritas diretamente no horror dos tempos. Vizinhos. Pode ser alguém que conheço; pode ser alguém que eu não tenha mais nenhuma oportunidade de vir a conhecer; pode ser que todos se recuperem; pode ser que não. Pode ser que essa dor fina que me persegue e também aflige a tantos, deixe de existir. Pode ser que um novo dia nasça sem nos impor qualquer tipo de máscara. Pode ser que possamos novamente nos reunir, sem nenhuma exceção, e emocionados nos abracemos pelo milagre de termos resistido ao invisível que na tocaia nos observava, investindo em um ataque iminente.

Pode ser que a turma se aproxime trazendo com ela todos os detalhes da comoção de sobreviver. Reaprender o sentido de cada palavra, novos significados para o que for esperança.

Às vezes a vida nos coloca dentro de um liquidificador. Tá ligado?

10 Comentários

  • Diderot

    Dna Vera parece que o ponto aqui não é o passado nem o futuro e sim o presente onde tudo acontece. Trata-se de um grande desafio encarar esse momento especial único e não esmorecer perdendo o entusiasmo diante de situações adversas recorrentes. O pano de fundo para esse instantâneo parece que se projeta em nossa responsabilidade de como conseguimos interagir com o contexto descrito por você, valorizando a vida que reside em nós mesmo sabendo de nossa humanidade.

  • Vera Menezes

    Obrigada Diderot. Seu comentário é totalmente coerente. A gente cansa, mas sempre existe um meio sorriso, ou sorriso inteiro, quando percebemos que conseguimos estar num novo dia, novinho e pronto para ser desfrutado apesar das limitações.

  • Tania

    Excelente, tudo aí em cima, excelente. A mim traduz totalmente. No meio sorriso, a intuição que estamos fadadas a sobreviver. Bj

  • Moniqie

    “Agora só nos resta identificar quem será o Administrador do nosso “Genoveva Ville” porque, convenhamos, podemos muito, mas as inevitáveis consequências do tempo irão nos buscar por maior que seja o privilégio de estarmos rodeados de boas companhias.”
    Bora chamar o síndico /administrador , pra brincar com o projeto ,e alegrar o espírito !

  • Vera Menezes

    Pois é Monique, necessário um excelente Administrador para tantos velhinhos que nos sabemos nada fáceis…

  • renato soares menezes

    O tempo passa tão rápido que o passado, o presente e o futuro, nos últimos meses, parece que se embolam… «O tempo rodou num instante». De qualquer forma, tenho sempre a tendência de enxergar, na Vida e nos textos do Blog, a onipresente esperança – que se derrama sobre os dias ainda por vir – em que pesem o sofrimento, a angústia e o temor ora vividos. Pode ser que essa situação demore ainda a passar, pode ser – mas, com certeza, passará, e novos dias virão, nem que sejam reconfigurados, nem que seja necessário «reaprender o sentido de cada palavra, novos significados para o que for esperança». Ao mesmo tempo que sentimos saudades de dias que foram mais felizes, entendo que a mensagem do novo texto do Blog é a de que não devemos nos deixar sucumbir pelo sentimento de desesperança, pois o futuro nos pertence, dia após dia.

  • Mônica Barros Coutinho

    Mas eis que chega o vírus e carrega a viola pra lá…. Não tem mais serenata na rua….Mas a gente se reinventa… E a saudade vira live, e se não tem aquele abraço apertado,fica a vontade e a esperança do ” vai passar” … E de finalmente amanhecer um dia em que se viva o velho “pode ser”…: Encontros nas ruas e praças, com direito a abraços e beijos. Mas por enquanto vamos vivendo o cuidado com esse inimigo invisível que nos ameaça…. Vivemos um momento muito difícil, em que nos assustamos ou, pior ainda, vemos a banalização da morte… Obrigada, Vera por esse lindo texto, que expressa as angústias nesse nosso tempo .de isolamento… E as esperanças também!

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