Sentimentos acontecem dos fatos

Lasquei-me

Pois é, você nem conferiu se a minha pessoa correspondia à sua imaginação, em que proporção se davam as similitudes e as dessemelhanças. Mas não se preocupe também cometi muitos enganos e eles foram cadenciados, espalhados pelos intervalos que corresponderam às diferentes fases oscilatórias da minha vida. Hoje consigo identificar esse fluxo, mas nem por isto se tornaram raros, ou menos intensos, os meus equívocos. Acho que pioraram posto que a consciência da possibilidade de errar não emperra o impulso de levar a cabo certas ideias mal planejadas de uma mente criativa. Portanto, lasquei-me numerosas vezes…

No tempo em que tinha gosto por escrever cartas, me pus à tarefa para além da conta, eram caprichados os papéis de carta, decorados em alguns casos ou simples quando as notícias fossem solenes. Tudo isto porque tinha a ambição de ser Carteira e poder alegrar as pessoas fazendo chegar até elas as palavras de alguém que delas havia se lembrado. Ser Carteira era o meu ideal e acreditava que a quantidade excessiva de cartas por mim escritas, era condição mais que justificada para pleitear o posto honrado de me tornar Carteira. Nunca tive acesso ao uniforme amarelo e azul, mas nunca me entristeci pelo exagero de cartas que encaminhei mundo afora…

Houve uma época em que desenhar, saber desenhar, foi uma meta. Os desenhos abstratos, os fiz em grande quantidade. Era um tal de fazer bolinhas à lápis, em diferentes tamanhos, que brincavam com umas perspectivas até interessantes. Também ocorreram os desenhos geométricos que por arroubo da presunção foram parar em telas, com direito a fazer parte de uma exposição coletiva em algum local que não me lembro mais, em Copacabana. Dessa exposição eu só me recordo que no dia da inauguração eu não fui por vergonha, provavelmente amedrontada pelo fato de ter sido, inadvertidamente, incluída junto a verdadeiros artistas. O fato é que nunca dei valor às abstrações que desenhava, o que eu queria mesmo era desenhar/pintar seres vivos, animados; desenhar/pintar tudo que era capaz de pulsar. Acreditem, cheguei mesmo a comprar os fascículos de um curso por correspondência que ensinava a desenhar figuras humanas. Minha paciência foi até à terceira aula… Descobri que além do dom me faltava talento… Abandonei minha fase abstrata num solavanco só, da realidade…

Houve também as aulas de violão ministradas por um professor invisual que me fascinava sobremaneira, porque apesar de não enxergar ele conseguia corrigir a posição dos meus dedos no braço do violão. Adorava as aulas de violão, mais pelo fascínio que sentia pela habilidade quase mágica do professor do que propriamente pelas lições. Uma criatura que não tem ouvido musical, que passeia por vários tons quando se mete a cantar qualquer canção, que não tem ritmo nenhum, vai se meter a tocar violão? Não podia dar certo nunca. Apesar das evidências contrárias, eu tenho um violão. Uma amiga me deu um aparelhinho super maneiro que permite às pessoas tacanhas como eu afinar o instrumento. De vez em quando eu tiro o instrumento da capa para ele arejar um pouco, depois volta para o silêncio que nos pertence.

Posso falar também das minhas inclinações para os esportes. Aprendi a jogar pingue-pongue olhando os outros jogarem. Também aprendi a dirigir olhando os outros dirigirem, mas esta é uma outra história… Nas aulas de educação física o professor tinha que colocar dois colchões porque eu vinha que nem uma doida e a minha “estrela” terminava para além do primeiro colchão. Uma beleza! No jogo de basquete eu era um terror, infernizava tanto os adversários, sem desrespeitar as regras, que invariavelmente a professora me retirava do jogo e me colocava para apitar a partida. Sempre gostei muito de esporte, mas não me concentrei em nada especificamente. Só para uma coisa eu era (e continuo sendo) incapacitada: saltar de um trampolim. Meu golpe era subir as escadas fingindo que me divertia, alguém distraia o professor e eu descia correndo as escadas e pulava na piscina pela borda. E ficava tudo bem. Mas de certa forma experimentei muitas modalidades sem me aperfeiçoar em nada, o que significa muito pouco para a definição de atleta. Isso nunca fui e nem tive pretensões.

Depois de tudo isso, só quero que você saiba que eu, assim como você, também não sei quem eu sou. Ensaiei muitas possibilidades, mas parece que não corresponderam ao que eu imaginava poder me tornar. Hoje eu estou aqui reticente, olhando para a tela do computador e posso afirmar, sem nenhum orgulho, que sou uma excelente digitadora. Isto porque há muito tempo atrás fiz um curso de datilografia e gostei da coisa de dominar as letras de qualquer teclado.

Pronto! Eu sou uma datilógrafa! Isso é bem menos que a estenógrafa que nunca serei….

Lasquei-me mais uma vez.

12 Comentários

  • kelly vieira

    Schopenhauer dizia que entre querer e alcançar, pêndulo da vida, desliza algo que nos faz esse amontoado de memórias, essa potência descrita por você, que se autonomeia datilógrafa.
    Lógico que aquela que conhece bem a espacialidade das teclas também sabe a dor que a agilidade demanda para fazer do abecedário um lógico concatenado, ordenado por um pensamento espetacular como este, capaz de conduzir um leitor às imagens mais deslumbrantes e singulares de uma criatura que tem a humildade de se desnudar a esse ponto: somos sempre um por-vir e a vontade é o que conduz e dá sentido para se buscar; não a perfeição e maestria de tal ou qual especialidade, mas a de organizar o deslizamento das ideias, a memória, e bem endereçar e remeter essas belas cartas. Obrigada sempre!

  • renato soares menezes

    Um texto nostálgico e leve. Recordam-se, com uma certa dose de humor, atividades lúdicas que foram experimentadas, quando da passagem da adolescência para a juventude, em busca de definições – quer as de habilidade quer as de personalidade.
    A escrita, a pintura, a música e o esporte são percorridos pela Autora, como deve ser, até que se encontre o rumo certo.
    E a Autora não se dá conta, ao que parece, ter, afinal, descoberto um caminho, o seu caminho: o da escrita! Ser uma excelente datilógrafa não quer dizer que se possui o domínio das letras, mas sim o dominio do teclado. E uma das provas daquela constatação – o pendor e o amor pela escrita – reside na própria existência deste Blog!

  • Tania

    Amiguinha, querida. O que dizer além de um honesto #tamojuntas? Aliás, apesar dos vários teclados, continuo a usar apenas 4 dedos….lasquei-me….rs.

  • Diderot

    Já que a bola foi levantada posso afirmar com absoluta certeza de que a Dna Vera não é SOMENTE uma “boa-datilógrafa” como se auto “qualificou”. Agradeço pelos textos compartilhados, agora mais recente todas as semanas, e fico na torcida que não “perca-o-embalo” de fazer chegar a nós as suas percepções como autora. Sejam elas quais forem. Serão sempre muito bem vindas!

  • Vera Menezes

    Diderot, em se considerando a conjuntura desses tempos e o tanto de perplexidade decorrente, a datilografia se apresenta como uma válvula de escape para uma sensação, grande, de impotência que me persegue. Obrigada por ter se manifestado.

  • Mônica Barros Coutinho

    Como sempre, Vera,seu texto vai me envolvendo, vou acompanhando suas experiências, lembrando das minhas… E me faz sorrir… E me pergunto, se nos brinda com seu talento, seu dom de escrever, de colocar em palavras tantos sentimentos e vivências, de uma forma tão eloquente e emocionante e se nomeia com tanta humildade como datilógrafa… Será que não subestimou seus outros talentos; também? Bj grande, parabéns pelo texto!

  • Vera Menezes

    Querida Mônica, a minha intenção foi exatamente tentar fazer com que o leitor se lembrasse das suas próprias tentativas de vir a ser. Geralmente as mais interessantes são aquelas lá da meninice de cada um. E o mais importante: lembrar delas com carinho. Com certeza sei que não tenho nenhum talento específico, o que significa que ainda posso tentar experimentar sei lá bem o quê, mas estou atenta…. Obrigada pelo comentário. Sempre fico feliz com a sua visita.

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