Sentimentos acontecem dos fatos

No quando cheguei por aqui

Quando cheguei na cidade, naquele ano, distante trinta anos do agora, nem conseguia me lembrar a primeira vez que havia passado por ali. Era início de maio e a claridade daquela tarde, recém iniciada, espalhava sua intensidade por tudo, a ponto de doer os olhos, mas sugerindo que a vida, naquele momento, estava sendo inaugurada sem qualquer possibilidade de sombras. A luz impositiva indicava que o futuro estava à minha disposição, sem encruzilhadas, sem becos, sem retornos… uma estrada reta, iluminada, servindo aos passos que eu viesse a trilhar. Quando cheguei, eu me sentia aberto a quaisquer possibilidades de viver uma história de vida original. Um futuro a ser construído na liberdade, podia ser medido pela ausência da família, pela distância dos amigos, pelo desconhecimento absoluto de qualquer habitante daquela cidade sobre a minha individualidade. Eu estava livre de todas as pessoas. Eu estava alforriado das consequências de todas as histórias que construíra até então. A sensação que se manifestava em mim e que, evidentemente, emergia de um emaranhado psíquico complexo e interessante, me levava a sentir que a partir do movimento de me instalar naquela cidade eu passava a ser outro, eu imaginava ter o direito natural de me inaugurar para um inédito qualquer de mim mesmo. Olhava a cidade identificando alguns pontos geográficos que a memória, um pouco derretida pelo tempo e pelo sol, ainda permitia que eu me situasse. A cidade, supunha eu, retribuía o meu olhar: me concedia autorização para reescrever a minha história. Provavelmente aquele céu imensamente exposto colaborava com o meu desejo e aquela brisa inesperada, que me fazia sorrir, era uma transcendência afirmativa à minha vontade. Tudo formatado dentro dessa energia, então era amassar o rascunho do que eu havia tentado ser em outro lugar para lidar com um tema e um enredo que melhor me apontassem a direção do sucesso que eu não sabia, ao certo, do que se tratava.

Não demorei muito tempo para entender o que esperavam de mim no trabalho para o qual fui convidado. Por sorte, era menos do que eu poderia oferecer, e obtive certo respeito disponibilizando mais que o previsto em contrato. Aluguei uma quitinete numa área comercial perto do trabalho, comprei um Alfa Romeo velho, verde, decadente, mas que preservava algum ar de nobreza e muito de conforto (desconfortável mesmo era a frequência com que me via obrigado a pedir ajuda para empurrá-lo, quando “pegar no tranco” passou a ser sua marca identificatória). E fui viver a minha vida, como se um caderno, nunca utilizado, estivesse à minha disposição biográfica.

Devo ter estendido por um ano, talvez um pouco menos, um pouco mais, essa sensação de vir a ser um outro que nunca fui. Isso significa que na impossibilidade de uma constante solitude, e sobretudo de uma irrealizável solidão desmedida, as relações sociais se impuseram de forma transgressora sobre a ingenuidade em supor que eu poderia ser um novo personagem.

Não escapamos de ser tudo que nos é desconhecido, desde aquela manifestação inaugural que anuncia ao mundo a nossa chegada. Sobrevivemos ao primeiro choro inicial. Não podemos ser outro, que não aquele que nasceu chorando e continuou chorando a intervalos de sorrisos, vida afora. Não podemos ser outro, que não aquele que nasceu chorando e conseguiu frequentar sorrisos a intervalos de choros, vida afora. Tudo que somos já estava lá, inscrito nos genes e nos ocultos que levamos uma vida inteirinha a desvendar. O máximo que conseguimos de diferente é não repetir as insistentes tramas, porque somente assim poderemos nos poupar dos inevitáveis finais idênticos. Tudo que somos já estava lá, quando choramos sem nos darmos conta que o choro foi a nossa primeira reação de sermos humanos.

Podemos rodar o mundo, podemos estabelecer residência em paisagens diferentes, podemos promover rupturas temporárias ou definitivas, mas nunca nos afastamos da pessoa que sempre fomos, desde sempre. E temos a família, e estabelecemos amizades, e amamos, e rejeitamos quem julgamos pouco confiáveis… Todas as pessoas que cruzam a nossa vida, com maior ou menor permanência, estão na nossa estrada para nos tentar fazer conhecer a pessoa que somos e que levamos uma vida inteira a desvendar. O jovem do supermercado que empacota as nossas compras, está lá para nos permitir conhecer o grau de simpatia que podemos oferecer a alguém que provavelmente nunca mais veremos na vida. Olhamos nos olhos dele? Sorrimos? Agradecemos o serviço? Elogiamos a lógica ou a habilidade com que empacota os produtos? A amizade que cultivamos e que, em nome dessa amizade, nem sempre é conivente com as nossas posições, nos oferecem oportunidades de entendermos a vida para além do que supomos. Podemos discordar, podemos perder a paciência por não conseguirmos manter claro nosso ponto de vista, podemos desligar o telefone interrompendo a conversa para uma futura abordagem, mas o contraponto ficará latejando, pairando sobre as nossas certezas que nos pareciam tão óbvias. Cada segundo da nossa existência, cada respiração com as variações de ar absorvido, são circunstâncias preciosas que tentam mostrar as justificativas pelas quais a vida nos acontece, se conseguirmos conhecer quem somos.

Conseguirmos conhecer quem somos, ou melhor, conseguirmos manter coração e mente abertos para as tentativas de nos conhecermos, acredito ser instrumento precioso para a serenidade. E serenos podemos ir mais longe nos nossos acertos e nos nossos enganos.

Acertos, enganos, risos, perplexidades, pontos e contrapontos… páginas a serem percorridas até que aconteça o último e definitivo suspiro…

Que seja emendado a um sorriso…

14 Comentários

  • kelly Vieira

    “Tudo que somos já estava lá”. É simples assim! Aliás, três palavras que sentenciam o que aprendi, se apreendi bem nesta jornada, em andança conjunta contigo — e olha que nem tanto tempo assim faz. Cabe deixar aqui marcado, diria sobremaneira, que sou responsável — obviamente — pelo que busco e quero vivenciar, e que você, quis eu ser. Pois, és minha mestra inspiradora. É por essa tua abertura ao mundo, deixar-se livremente lançada a percorrer trilhas e sendas que, em última instância, não levam a lugar algum, pois, quem somos, já está lá. Lógico que fazemos, sublimamos, criamos e até inventamos, mas, nada que seja feito, sublimado, criado ou inventado, é para além daquele que se pode ser. Tenho desfeito a loucura psicótica de querer ser o Outro, mas de ti, somei aquilo que já estava em mim: vontade de simplesmente deixar de ser sonhos ilusórios, palavras ao vento, desejos insólitos, feitos não sentidos e sentidos desfeitos. Tu me inspiras a ser simples assim. Obrigada, muito obrigada por ser VERAS e pura sensibilidade reflexiva.

  • Vera Menezes

    Eita Kelly, inspirar alguém é responsabilidade muito além…. Acho que buscamos a simplicidade: tu me ajudas, eu te ajudo… A proporção exata nesse pêndulo da vida.

  • renato soares menezes

    Todos nós temos a oportunidade, diária, de darmos – ou, ao menos, de tentar darmos – um novo rumo ao nosso destino. É como se cada um de nós tivéssemos, a cada alvorecer, uma página em branco do nosso «livro do destino» a ser preenchida conforme os nossos desejos. É bem verdade que o poder dos genes de cada um parece ser determinante em muitas das nossas características de personalidade, mais forte do que as influências do meio ambiente. Contudo, querer é, não raro, poder. E se temos a oportunidade de, a cada dia, preenchermos uma página daquele nosso livro, não a devemos perder: bastaria que nela inscrevêssemos ações positivas, sempre a nosso favor – e, por conseguinte, a favor do outro -, na busca do nosso aperfeiçoamento. Não estaríamos, assim, nos tornando uma outra pessoa, continuaríamos a mesma pessoa, só que melhor. É o quanto basta. (comentário ostensivamente inspirado pelo célebre conto «O Livro do Destino», de Malba Tahan).

  • Vera Menezes

    Pois, Renato. Poderia ser fácil, ou simples, assim…. Mas tem uma série de interferências, às vezes muito ruidosas…. Mas valeu pelo comentário! Obrigada.

  • Diderot

    Dna Vera a sua percepção ao final de “conseguirmos manter coração e mente abertos para as tentativas de nos conhecermos” é fundamental no meu entendimento nesse caminho que vamos todos percorrendo com mais e menos humanidade. Sem essa atitude arejada de propósito – a ser renovada a cada instante – não “vemos” o que a vida nos oferece, não existindo nenhuma possibilidade de internalização e transformação naquilo que nos é pertinente e possível. Trata-se muito mais de um caminhar atento e laborioso do que um caminhar para chegar em algum lugar. Como espécie, o ponto de chegada é sempre o mesmo em um tempo que não nos pertence…

  • Vera Menezes

    Diderot, obrigada! É… se todos pudéssemos plantar flores pelo caminho, sem ficarmos preocupados em onde a estrada vai dar, muitas coisas seriam diferentes, certamente mais prazerosas e responsáveis…

  • Mônica+Barros+Coutinho

    É bem fascinante a expectativa de uma vida nova, um novo começo, um novo eu… Ser mais sábio, mais amoroso, sem tantas dificuldades e defeitos! Não cometer os erros cometidos… Acho que em algum momento da vida também desejei assim… Mas talvez, a questão seja aceitar tanto as nossas qualidades quanto os nossos defeitos… Não como um triunfo, mas como inerente à nossa condição humana, como diz a sabedoria popular, ” Perfeito, Só Deus”. E continuar o caminho, buscar se aprimorar, e se acolher, como a gente faz com um amigo… Que pode errar, mas a gente não deixa de amar.

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