Sentimentos acontecem dos fatos

A aranha presa na sua própria teia

fonte: www.bayerjovens.com.br/pt/colunas/coluna/?materia=o-homem-aranha-e-a-producao-de-teia

Essas coisas que acontecem no campo das diferenças sempre me despertam a atenção. E ficar atento, nos dias de hoje, deveria ser medida universal, tipo roupa de bom caimento, que se veste independentemente do tamanho do que deve ser coberto. Afinal, são muitos os perigos. Mas, a começar por aí, existem pessoas atenciosas, pessoas distraídas, e outras que se desequilibram na miopia para que não lhe pese o uso de óculos. São diferenças intrigantes à disposição de quem as adota. Muito bem, então tá.

Nunca captei, de forma bem assentada, o sentido da vida. No entanto, afirmar com cores definitivas que a vida não tem sentido, sempre rechacei por não haver qualquer suavidade nesta ideia. Desconfio que a vida da gente se embaralha pelo lado oposto do sem sentido: a vida está repleta de sentidos a cada movimento que empreendemos. Todos os dias temos tarefas, obrigações, desejos, pequenas atividades que nos impelem a cumprir sentidos que são colocados e nos empenhamos por cumpri-los. Mas quando o cansaço da tarde chega e o dia se despede em tons de azul, rosa e amarelo, visito o meu silêncio e me pergunto pelo sentido da vida. E caio na armadilha de um longo suspiro. Seria muito simples, e talvez pouco criativo, se a vida se resumisse a uma estrada luminosa que enfeitaríamos em conformidade com as nossas individualidades, para que no final erguêssemos um pedestal sobre o qual depositássemos a transparência do sentido alcançado na vida. Não é bem assim. Não existe um pote de ouro no final do arco-íris, nem sabemos onde começa ou termina o arco-íris. O que nos pertence não é o sentido, mas o caminho – e o que somos capazes de fazer com esse caminho. A depender das diferenças do humano, há quem queira asfaltar o caminho, há quem prefira cobri-lo com pedrinhas brancas, há os que prefiram as margaridas às orquídeas, há quem queira ir a pé, quem pegue um automóvel, quem vá de ônibus, quem se sinta triste, quem percorra o caminho cantando… Mas, creio, não há medalhas a serem entregues no final do caminhar. Mesmo porque o final nunca é desejado. A morte é a única certeza que temos nesse mundo, e quando acontece não há quem a ela se curve em agradecimento. Vamos esquecer essa coisa de epitáfio; é tão inútil quanto o impulso de se despedir, beijando o morto…. Epitáfios não resumem o que as pessoas foram em vida, e o falecido não terá como reconhecer o seu afeto tardio… Portanto, cuidemos carinhosamente de cada dia com responsabilidade pelo sentido que daremos a cada um. Simples assim.

Comecei constatando que as pessoas são diferentes, emendei afirmando que não existe um sentido pré-determinado que nos inspire a uma super valorização da vida, e que o sentido de viver está no dia a dia. Quero concluir voltando às diferenças entre as pessoas e o sentido esparramado no calendário da vida.

Do que me foi dado a perceber (usando óculos e com esforço pelo foco), a balança da vida possui dois pratos nos quais é possível reunir essa vastidão de pessoas diferentes: em um prato, as pessoas que no dia a dia colocam o sentido da vida na possibilidade de interagir com outras diferentes pessoas e dessa interação compartilhar enriquecimentos pelo caminho de todos; no outro prato, as pessoas que no dia a dia colocam o sentido da vida na certeza de que outras pessoas existem exclusivamente para enriquecerem o caminho que julgam pertencer somente a elas. Essas duas diásporas psíquicas, por serem tão contrastantes, me levam a buscar um possível fio condutor, a estrutura dessa balança, que justifica e aproxima esses seres tão diferentes: todos querem fazer com que seus dias sejam felizes. Vejam só… O que é mesmo felicidade, então? E de quantas formas estranhas tentamos dela nos apropriarmos…

Há quem diga que estou errada: além desses dois pratos, nos quais podemos formar conjuntos de seres humanos, me advertem que existe uma terceira possibilidade. Aquela em que muitos seres humanos acreditam que são a balança em si.

Vou ficando por aqui porque não tenho nenhum psiquiatra à minha disposição nesta insólita quarentena que já ultrapassou quatro meses.

12 Comentários

  • Júnio José

    E assim seguimos pelos caminhos, uns que a vida nos trás, outros que pela vida encontramos ao procurar. Seja qual for a questão, talvez encontremos o sentido da vida quando descobrirmos o que é essa tal felicidade que todos procuram. Penso eu: melhor não procurar, deixa acalmar-se que ela vem.

  • kelly+vieira

    Sabes bem que me toca a alma essas questões em aberto que são em essência o próprio movimento de fazer sentido ao que nada e tudo possui: o instante.
    A balança ficou pesada por essa valoração dividida em dois grupos; mas leve, pois você as deixou sem medição. Ou seja, despreocupar-se com essa linha tênue que sequer pende para um lado, e que a experiência faz determinar que ali aonde há três, só existam pratos a dois.
    Não lembro bem quem seja, mas teu texto me informa de um determinado poeta que me emprestou sentido a falta de. Ele trouxe algo que dizia mais ou menos assim: “caminhante não há caminho, faz-se caminho ao andar”. Tuas reflexões despertaram em mim o que existe de mais franco e narcísico também: a morte não é um acontecimento com dia, mês e ano, mas de dor, memória e trabalho. Explico-me: o enlutado redimensiona sua memória, sofre com a perda pelos tons de quem recupera e trabalha para finalmente matar os sentidos excessivos. Narcísico porque, daquele que morreu – veja, a morte não carece de eufemismos- inscreve-nos que ainda resta por morrer uma latejante culpa do não dito, não partilhado, não abraçado, dos nãos que se tornam alucinantes conjuntamente aos e se.
    Falar de morte é recuperar uma sentença que você pouco gosta: nada faz sentido. Mas por sorte, sempre a posteriori, advir uma fagulha de, que faz movimento e coloca-nos a caminhar. Felicidade é uma delas. E vc não precisava tê-la detonado com um “simples assim”. Deixe que os sem sorte, mas de muita sorte, encarreguem-se de sentidos e já coloquem no instante as orquídeas que quiserem.
    Amei teu texto. Eles emprestam-me sentido.

  • renato+soares+menezes

    Qual o sentido da vida? Parece não haver consenso na resposta a essa pergunta. Contudo, quero crer que todos buscamos a desejada felicidade. E, partindo do princípio de que somos os protagonistas do nosso próprio e individual percurso, a felicidade deriva das nossas escolhas, das nossas ações, das nossas decisões. E a busca do aprimoramento pessoal parece ser fundamental para os que queremos uma vida com significado. Assim, imbricam-se questões filosóficas e religiosas. E eu optaria por considerar que o verdadeiro sentido da vida estaria na tentativa de se atingir a perfeição, num círculo duradouro: nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar – sempre em prol de si mesmo e, consequentemente, do outro. Às vezes conseguimos avançar e outras vezes recuamos, mas o importante é não desistirmos. Isso posto, pergunto: em qual dos pratos da balança da vida, mencionada pela Autora, estaria eu?

  • Vera Menezes

    Meu caro, tantos outros diferentes pratos tenha a balança, o certo é que sempre estarás no prato do Bem, amparado pela sabedoria e resiliência. Não há dúvidas sobre isto. Obrigada!

  • Mônica Barros Coutinho

    Qual o sentido da vida…. Difícil responder… Só me ocorre que aqui estamos… para viver… os bons e os maus momentos, as dores e alegrias… E vamos sendo atravessados pelos acontecimentos e construindo com nossas escolhas… Que prevaleça mais a solidariedade, do que o egoísmo… Que sejamos bons companheiros de viagem…

  • Diderot

    Dna Vera olho de minha janela estreita os acontecimentos que se sucedem. Claro está que com todas alegorias que vieram implantadas nas minhas lentes – aproveitando a sua dica – decorrentes da “catarata” em ambos os olhos, ou seja, os ditos meus olhos que sempre imaginei “meus”, hoje tenho que prestar uma atenção danada para tentar aplicar um “filtro” para minimamente acessar o fundamental. Concordo com você que as certezas contamos nos dedos e que o podium permanece sempre no mesmo lugar. Sua construção evidencia a força da cultura ocidental grego, romana, judaico, cristã: dualismo herdado ou pendular. Todas as nossas construções simbólicas e positivistas no geral são providas desse dualismo cultural muito bem representados por você usando a “balança” e o balançar. No contexto se apresenta o significado da vida, que cada um de nós pode assumir a sua responsabilidade, até onde for possível, ou inclusive, acreditar em um “guru” de plantão 24 hs, ou outra figura de igual representatividade que “resolve-todas-as-paradas”. Será que conseguiremos seguir o nosso caminho da “dita-vida”, provido dessa dualidade estrutural impactante, escrita nas “raízes-das-mitocôndrias” dos sapiens, mas atribuindo cada um o seu significado – dentro dos inúmeros possíveis – fazendo focado a humanidade ao alcance acontecer a cada segundo?

  • Moniqie

    Certa vez alguém me falou, : “a vida não tem sentido, nós é que damos sentido à ela” .

    Sigo tentando me fazer caber nessa fala…

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