Sentimentos acontecem dos fatos

Para viver os muitos tons em sépia

Acordei. É de praxe, enquanto o café faz o barulhinho característico deslizando pelo coador, eu olhar pela janela e a visão do horizonte, recortado de elevações assimétricas que definem o Planalto Central, me confirmar que é assim, por essa atitude, que a minha energia tem a força de uma reza. Despertar dentro de um novo dia passou a ser uma experiência a qual reverencio com progressivo entusiasmo. Dias majestosos são aqueles que se inauguram em plenitude, ou seja, não trazem vestígios anteriores (preocupações ou alegrias) e assim é possível valorizar a delicadeza da luz com que o sol afaga uma data que se estreia.

Demorei muitos, demasiados anos, praticamente uma vida, até conseguir firmar mentalmente algumas posições que me permitem conservar por um tempo maior o equilíbrio positivo com relação aos fatos que me são dados a viver. E foi um caminho pedregoso, lidando com emoções extremamente tóxicas, que descreveram uma trajetória que da indignação passou pela ira, se estabilizou na revolta, consolidou ressentimentos e atingiu o grande mérito de me premiar com um princípio de enfarto. Não, não foi um grande susto que me fez mudar de vida, embora queira acreditar que isso tenha contribuído em muito. Mas me lembro que ao saber do diagnóstico médico, eu enfureci mais uma vez com o mundo, com a vida, com os fatos… A pior espécie de pessoa egocêntrica é aquela que responsabiliza tudo e a todos pela impossibilidade de seus valores, princípios e certezas se confirmarem. Certamente eu cabia na justa proporção dessa gaveta…

A maioria das pessoas que padece de um mal irreversível, manifesta um enorme cansaço por ter que conviver com os efeitos da doença; e, não raro, desiste de acreditar que o dia seguinte será melhor. Na impossibilidade de um milagre, ou na precariedade da ciência, as pessoas ainda desejam que tudo acabe, de um jeito ou de outro. Sei lá, mas deve ter sido, mais ou menos, isso o que aconteceu comigo. Um dia eu acordei na “droga de mais um dia” e senti um enorme cansaço em ter que lidar com as minhas próprias mágoas, ressentimentos, vitimizações, orgulho, etc. E, ainda dentro de uma pulsação egoica, atinei para o fato de que não dependia do mundo para ser feliz, que o seria por conta própria, nem que para isso passasse a falar sozinha e a viver encastelada. Não era bem assim, como é sabido. Talvez tenha aprendido a falar menos e a escutar mais. Sobretudo a ouvir ideias completamente diferentes das minhas, sem que fosse aceso um rastilho de pólvora para que as verbologias indignadas tivessem lugar. Aprendi a fazer perguntas, querendo conhecer em profundidade as bases de sustentação das opiniões que das minhas divergiam. Descobri o quanto é insuportável tentar dialogar com pessoas apaixonadas, como eu havia sido. Os apaixonados são, de fato, cegos e surdos para tudo quanto não lhes dizem respeito.

Fui, então, abrindo todas as gavetas, arejando os pensamentos, experimentando os sabores das diferenças, admitindo com naturalidade a existência de tantos paladares: doces, amargos, ácidos, desenxavidos… Consegui abandonar pacificamente muitas conversas por identificá-las inúteis de qualquer proveito, posto que não havia intenção de diálogo, apenas necessidade de afirmar pontos de vista irrevogáveis. Conversas que ficaram para depois, sem ansiedade de obrigatoriamente virem a ser retomadas. “É da vida…” passou a ser um mantra compulsoriamente aplicável para todas as situações. As cores mais intensas foram substituídas pela serenidade dos tons pastéis, e toda a euforia ficou assentada em dois princípios: o agradável e o desagradável. Qualquer vibração mais veemente, me sinaliza uma espécie de infração emocional cometida pelo descuido do bom senso.

Há quem possa afirmar que eu consegui transformar a minha vida em algo extremamente insípido, sem emoções motivadoras. Pode ser que tenham razão, sobretudo os jovens que com alguma legitimidade hormonal, são compelidos aos impulsos, às aventuras fantásticas, inconsequentes e heroicas. Aos jovens, desejo que a maturidade lhes aconteça sem dores e sem arrependimentos graves. Aos meus contemporâneos, que me veem indesejavelmente plácida, tal qual um peixe solitário percorrendo com tranquilidade as dimensões do seu próprio aquário, preciso lembrar-lhes que é muito bom viver buscando em tantos sentimentos possíveis, aqueles que me fazem acordar todos os dias e apreciar as montanhas achatadas, os pássaros irrequietos, a batuta do vento orquestrando o movimento das folhas nas árvores… É mais “da vida” que qualquer coisa outra…

Meus sinceros respeitos a todos a quem deixei de cobrar, exigir, julgar e, principalmente, deixei de esperar qualquer coisa que venham deles. A partir daí, certamente podemos conversar.

6 Comentários

  • renato soares menezes

    Se estamos cegamente apaixonados – seja por uma pessoa, seja por uma ideologia, seja por um partido político, o que for – nossa capacidade de racionalizar uma decisão ou um apoio, nossa capacidade de julgamento, fica altamente prejudicada: Ficamos cegos. Ou seja, acabamos acreditando em tudo que venha a corroborar aquela paixão, independentemente de qualquer fato que prove o contrário. E, assim, nos iludimos. E passamos a combater tudo aquilo que não condiz com a nossa paixão. Afinal, não só a paixão é cega como a rejeição também o é. Tão comum, hoje em dia, constatarmos essa situação – que, em consequência, provoca desafetos, inimizades, rancores… Melhor mesmo é rezarmos para que tenhamos o discernimento e a maturidade suficientes para, como a autora, sabermos substituir a agressividade das cores mais intensas pela suavidade dos tons pastéis… Assim, passamos a ter um comportamento zen,  nos tornamos mais abertos às diferenças, mais tolerantes, mais serenos. Enfim, tudo isso para dizer que achei o texto simplesmente fantástico e atual!

  • Kelly Vieira

    Te lendo, entendo bem que não tenha sido o princípio a centelha que tenha te carregado mais altiva ao inicio do dia. Relembrando um texto escrito há dez anos, é possível perceber essa que já se permitia carcomida pela fadiga da diferença, que mais ouvia do que interpelava… Vale a pena, tamanha proximidade desejosa, demostrar o quão mais belo pode ser, ao acordar, reverenciar, do que aguardar ver o dia passar para descobrir que o sabor do chocolate é pura metafísica: “Seu desejo secreto era acordar e fazer de cada dia uma história com início e fim num intervalo único de 24hs. Viver consistiria então na expressão cabível de um único dia, sem possibilidade de prorrogação nem agendamentos futuros. Não traria nenhuma pendência da véspera, nem levaria nenhuma questão a ser resolvida posteriormente. A vida inteira, início e fim, cabível em um único dia.” (v.m)

  • Maria Martinho

    Esse ponto ao qual você chegou chama-se, ao meu ver, paz de espírito. Essa paz interna pode até ser considerada como apatia ou o clássico “ jogou a toalha”! Longe disso! É uma conquista , uma vitória , um sentimento de leveza , que chegou devagarinho, de mãos dadas com a maturidade.

    Use e abuse desse momento mágico, que ele permaneça em você, em sua plenitude, e que traga muita felicidade!

    Obrigada por mais um texto que transborda emoção!
    Um grande abraço
    Ginha

  • Mônica Barros Coutinho

    Acordar e celebrar cada dia, desfrutando da paisagem e do café! Um privilégio de quem atingiu o equilíbrio, uma harmonia consigo mesmo e o outro por extensão… Benditos sejam esses dias, que assim começam! E que essa paz transborde para todos os corações!
    Bj grande

  • Diderot Lopes

    Imagino que o ponto seja o seguinte: o susto já passou independente dele ser causa ou efeito. Aquilo que chamamos de “vida” segue repetindo os seus ciclos.
    Uma pergunta se apresenta aqui e pode ter no mínimo dois sentidos: Até quando? Ela a Natureza continua firme. Uns dos partícipes desse jogo desejam que finde logo e se possível até “ontem”. Outros ficam na expectativa de tempo “normal” e até prorrogação.
    Para aqueles que optam pela última opção as lições aprendidas nesse momento fazem a diferença: um ajuste aqui, outro ali, um remedinho como companheiro diário, um acompanhamento responsável da parte física e emocional, tudo focado em se manter saudável, sendo que a melhor qualidade de vida possível será uma busca diária.

  • Ana Cristina Palacky

    Vera Menezes, venho lendo as suas últimas postagens. Todas interessantes e momentosas. Vivas e recheadas de reflexões. Há pouco terminei de ler os seus muitos tons de sépia. Adorei. Agora, quando se enfrenta um mundo pessoal cada vez mais restrito devido à pandemia, o seu texto ecoa de modo intimo e profundo. O social se torna mais distante pelo receio e pelas circunstancias. Ha um medo generalizado do contato próximo com o outro. Perigo da aproximação se faz latente. E assim o distanciamento vai se alargando de modo inexorável com o passar do tempo.Como diz tão bem no seu adorável texto, os sentimentos, observações, julgamentos, emoções vão se acinzentando. As cores vibrantes, assim como os sentimentos, olhares, e paixões vão dando lugar aos tons neutros e pálidos do outono.O verão é lembrança, a primavera mera esperança e o inverno simbolicamente a morte e o desfalecimento.
    O nosso mundo não somente fica menor como mais triste. E a volta a si mesmo é o último dos refúgios a vista – quando a sobrevivência é o mais centrado dos paradigmas. Parabéns Vera.

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