Sentimentos acontecem dos fatos

Terra em chamas

As montanhas, aquelas que me dão “bom-dia!” sempre quando acordo; aquelas geograficamente achatadas, que bem identificam o Planalto Central; pois bem, no início da tarde estavam sendo consumidas pelo fogo. Do vale que recorta as montanhas, uma fumaça densa dava a impressão que alcançava o céu… A intensidade da grande massa de fumo escuro me deu a impressão de ser as lágrimas desesperadas da terra, assinalando a própria localização, clamando por socorro. Mas certamente tal associação era a transferência do sentimento que em mim se alastrava em igual proporção: a tristeza pela destruição que os meus olhos assistiam. Impotente, eu apenas assistia…

À noite, a fumaça conseguia se sobrepor à escuridão: manchas borravam a atmosfera e interferiam no que deveria ser somente o silencioso escuro da madrugada. Além disso, trilhas de fogo delineavam o contorno das montanhas. Um espetáculo triste e sinistro, guardando em si uma inexplicável beleza destruidora. Uma fúria de tal forma intensa que impedia que os meus olhos se desviassem das silhuetas avermelhadas. Estava tomada pela angústia em testemunhar a natureza sendo lentamente consumida, como quem se rebela e manifesta descontroladamente a sua força. Tudo ali exposto, desafiando o poder que, tolamente, os homens julgam capazes de controlar à sua vontade.

Na manhã do dia seguinte, num desolado café da manhã, acompanhei uma fumaça branca se elevando do vale. Sinal que os focos de fogo ainda persistiam, indiferentes aos voos rasantes de um pequeno avião que na véspera, por longo tempo, pulverizou a extensão em chamas. Meus pensamentos perseguiam o vale que, mesmo não o podendo enxergar, sabia que sofrera com mais intensidade, sofrera com maior reconhecimento. O vale se despregara da história que até então havia sido construída. A partir de então, um outro enredo inaugurado pela devastação. Teria havido ali casas, plantações, rebanhos, soberana mata virgem, várzeas? Não saberei porque a vista não alcançava… somente a alma pressentia…

Amanheci triste, observando um espetáculo que não indicava ter chegado ao fim, ao contrário: poderia tudo recomeçar sob os auspícios do vento forte que atingia, açoite, todo o cenário. Combustão natural? Queimada programada que perdeu a medida? Ação criminosa com intenções escusas? Não sei… mas o que eu vejo é mais que suficiente para saber que tudo foi pego de assalto pelo indesejável.

Descansem em paz, tanto o vale por onde nunca andei quanto as queridas montanhas que sempre fazem meu coração bater mais forte. Descansem em paz: em breve chegarão as chuvas para aliviar as nossas dores.

E que elas não queiram se vingar de nós…

6 Comentários

  • Diderot Lopes

    Nem tudo está perdido… Sim: “chegarão as chuvas” e outros atributos da Natureza que ainda não conhecemos ou estão em estudo para serem entendidos. Um que não sei explicar bem fundamentado é uma área local que acompanho desde o final dos anos 70. Desde então todos os anos até por volta de 2010 o fogo – vindo não se sabe de onde – queimava com labaredas intensas aquilo que tinha sobrado do nada dos anos anteriores. Mesmo estando todos em alerta acontecia de forma recorrente. Em um determinado momento não queimou naquele ano, no próximo e nos subsequentes… Hoje a vegetação está com um aspecto tão saudável que nem mesmo a seca atual consegue provocar danos como aqueles há quarenta anos. Chego por lá pulando a cerca e compartilho aquele espaço com a vegetação nativa sentindo a presença daquele ar reconfortante mesmo na seca atual. Observo que nós os sapiens aqui desse ponto do planeta também mudamos. Nossos filhos desde pequenos mudaram no entendimento mais amplo da Natureza e a relação dos entes vivos com ela. Agradeço aqui, reconhecido, aos professores que honraram com profissionalismo as suas cátedras, mas também aponto aqueles que não souberam exercer o seu ofício sabidamente muito difícil. Os últimos foram em maior número, mas a qualidade e a competência dos primeiros fizeram a diferença. Andando aqui nas nossas quadras diariamente já compartilho fazem anos – com as aves principalmente – os caminhos que agora são de ambas as espécies. Foi um longo caminho de mais de sessenta anos de vida para ser estabelecida essa relação. Temos um trabalho pessoal a fazer em nossos caminhos. Nem tudo está perdido…

  • renato soares menezes

    Bravo! A Autora consegue abordar um tema atualíssimo, porém árido e polemico, por meio de um texto poético, carregado de sentimento, mas ao mesmo tempo impregnado de realidade. O relato é sobre o meio ambiente e as queimadas, que se verificam por todo o mundo, quer sejam ou não pela ação do Homem. A discussão sobre as causas do ocorrido parece aqui não importar; o que permanece é a constatação, triste e impotente, de que um desastre, mais um, ocorreu. E a esperança – sempre presente – fica por conta, mais uma vez, no que diz respeito ao tema, da regeneradora Natureza… Talvez.

  • Mônica Barros Coutinho

    Emocionante seu texto, Vera! E assim me sinto diante das imagens devastadoras dos incêndios que estão acontecendo no nosso país… Uma tristeza enorme, que me faz evitar noticiários, em que emerge essa impotência diante dos fatos… Se não rolou a viagem que faria ao Pantanal, que agora não será o mesmo, dói ver os animais mortos e machucados e pensar em todos que vivem ali… Esperar que a Natureza restaure e torcer para que a ação do homem e da política não seja para manter essa destruição.

  • Kelly Vieira

    Obrigada por compartilhar a tristeza que te joga nesta ação! Tenhas por certeza que não estás inerte, impotente, frente à angústia que te instala, afinal teu ato, tua denúncia, é a ação que nos coloca em sintonia e, quiçá, em sincronia para findar certos absurdos que se apresentam cotidianamente. Grata pela música. Letra carregada de sentidos um tanto perdidos pela arrogância humana e sua soberba fantasiosa de controle. Que venham as chuvas! Os abalos sísmicos jamais registrados anteriormente nestas terras; as novas rotas de ciclones/tornados; o escaldante sol; o frio fora daquilo que se tinha como período certo a ser sentido… entre tantas mostras da vida que há naquilo que o homem nunca vê como sendo a arte que lhe assemelha: potencia, por ele próprio ter sido atraído pelo velho jogo da onipotência, onisciência, pela via daquilo que ele o sentencia como diferente da natureza: racionalidade-consciência. Portanto, segue trecho que achei divino por trazer os dois lados: percepção e sentido:
    “Sou cavaleiro do mundo, eu sou a boiada
    Eu sou o estradeiro e o pó da estrada
    Sou crença nos olhos dos homens ateus
    Quem me devasta, me fere, me caça, me extingue
    Me arranca as raízes não deixa que eu vingue
    Não pode se ver no espelho de Deus”
    Grata!

  • Maria Martinho

    A Mãe Natureza é sábia , batalhadora e generosa. Há de encontrar uma maneira de ressurgir das cinzas e, mesmo com a irresponsável insistência da mão do Homem em machucá-la , sempre sairá vencedora , para o bem do próprio Homem que ousou destruí-la.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *