Sentimentos acontecem dos fatos

Meu caro Amigo

Meu caro Amigo,

Pois é… Estou na dúvida entre o muito que é possível discorrer sobre tudo, ou fazer do silêncio uma espécie de oração definitiva. A impressão é que quaisquer das opções deflagará equívocos.

Esses últimos dias de 2020 deslizam na ampulheta da vida. Os sentimentos conflitantes escorrem grão em grão, de um lado a outro. E nós revivemos, impotentes, a trajetória das apreensões vivenciadas neste ciclo.

Me pergunto em que ponto do percurso me encontro: à beira de um abismo ou já nas profundezas dele. E as demais pessoas? Perdidas em quais situações? Para alguns sobrou a esperança, já desorientada, praticamente senil, acenando, com lágrimas nos olhos, para um navio prestes a partir para dentro da memória, com uma tripulação capitaneada pelos três pilares extremos que evocam misericórdia: o medo, a angústia e a falta de perspectiva.

Morri tantas vezes nesse 2020 que não dou conta da tênue distância entre ressuscitar e sobreviver. Ressuscitei nos sorrisos das crianças que não sabiam dimensionar o significado de uma pandemia. Sobrevivi todas as vezes que as mortes eram anunciadas às centenas, esperando a minha vez na fila, resignada apesar do cansaço em ter que lidar com a realidade indesejável. Perdi meu tempo querendo entender comportamentos que me pareceram tresloucados, posições delirantes, entendimentos distorcidos sobre conjuntura, sociedade e solidariedade. Morri sem a benção dos sábios; morri sem atinar que há muito a noite amaldiçoa a imprudência dos sonhadores; morri estendendo meu braço sem que nenhum deus viesse ao meu encontro. Morri acumulando divergências que nunca foram solucionadas ou pacificadas dentro de mim. A isso chamam viver….

Não, meu caro, lamentar impede que algum futuro promissor tenha espaço. Assumo as consequências do que fiz e das tantas coisas que assisti outros fazerem com a soberba de que estariam impunes. Somos crias da solidão, do individualismo; é certo sermos julgados pela prepotência dos nossos atos. E haveremos, todos, de nos curvarmos frente ao desconhecido. Reaprender tudo, mas desta vez prestando muita atenção no caminho.

Fomos tocados pela felicidade, meu caro, com as nossas mãos limpas, nossos rostos mascarados, nossos pulmões preservados, nossos afetos via internet manifestados, nossas distâncias, nossos silêncios…. Fomos salvos, fomos disciplinados, fomos agradecidos por cada dia a nós presenteado… Fomos quase…

Agora o dezembro se espalha em nós… E são muitas as incertezas… Na minha lista de final de ano onde se projetam as resoluções para o próximo ano, tenho apenas um desejo, repleto de significados. Quero tão somente estar mais perto…

Quem sabe, no próximo ano, cabe sem medo um abraço bem apertado…

Desta sua amiga,

5 Comentários

  • Kelly

    Veruska,
    Que 2021 te receba com estes abraços tão desejados e perto daqueles que bem merecem tua companhia. Que tua maestria, que se propaga a cada troca aqui neste espaço, a cada fragmento de vídeos ou mensagens que, como presentes (sei que você só compartilha o que realmente tem potencial de ser reflexivo), sempre me deixam mais perto de você, esteja mais potente em 2021… e não posso deixar de te pedir um presente: escreva, Vera, escreva!

  • renato soares menezes

    Um texto que resume em poucas palavras, porém com muita pertinência e reflexão, o ano de 2020, marcado pela pandemia. Mas, sempre presente nos textos da Autora, a esperança se projeta sobre o próximo ano, com uma certa dose de alegria, ansiando por voltarmos a estarmos juntos, aos abraços, sem medo de ser feliz!
    E que continuemos, ao longo de 2021, a sermos merecedores em ter o privilégio de receber novos textos da Autora!

  • Mônica Barros Coutinho

    Sempre um prazer, Vera, um privilégio ler seus textos… Esse ano nos trouxe a inédita situação de vivenciarmos essa assustadora pandemia… E nos confrontarmos não só com nossas contradições mas também com as sociais, econômicas, políticas… É… Não está sendo fácil… E vamos sobrevivendo e revivendo… Que possamos voltar aos encontros físicos, com direito aos abraços apertados… Como fazem falta! E continue nos presenteando com seus textos!

  • Tania

    Amiga querida, de certa forma ficou aguardando sua msg pro Carlucho. Tb fico, por vzs, pensando no que ele responderia. Envelhecemos. Faço meu o seu desejo: que possamos tão somente estar mais perto. Saudades.

  • Jandiara

    Minha cara amiga, obrigada por mais uma crônica de final de ano, retratando tão bem os sentimentos vividos num ano tão complexo. Que 2021 nos permita a prática das lições aprendidas em 2020.

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