Sentimentos acontecem dos fatos

A culpa é do microscópio

Tenho um amigo que entre irônico e indignado achou por bem proclamar aos quatro ventos que havia descoberto como eliminar o COVID-19. Segundo ele, bastava quebrar todos os microscópios do mundo porque assim o vírus nunca mais seria identificado.

Mesmo sendo a afirmação um total disparate, que pode ser incluída no rol de outras pérolas idiotas sobre o assunto (tipo: se o álcool mata o vírus então todos os bêbados serão poupados, e por aí vai…), fiquei refletindo sobre o que é possível extrair da sentença, sobretudo no que se oculta por trás do não verbalizado. No caso, duas hipóteses se destacaram:

1) a necessidade que temos de achar um culpado para o que não aceitamos ter acontecido conosco. Se chegamos atrasados no trabalho, a culpa é do trânsito; sem levarmos em conta que os prudentes podem se resguardar de qualquer imprevisto saindo de casa mais cedo. Se a xícara de estimação quebrou, a culpa é da outra pessoa que a deixou no lugar que não é de costume; jamais pensamos que poderíamos deixar de agir no automático para não sermos surpreendidos nas exceções pelas quais os lugares comuns nos instigam a sermos diferentes. Se discutimos por ideias divergentes, a culpa é de quem teima em não nos dar razão, como se a verdade absoluta e transparente fosse patrimônio nosso. Nunca há meio termo para as vezes em que nossa arrogância passa a ser um troféu vergonhoso do quanto deixamos de assumir as nossas responsabilidades com relação a tudo que nos acontece. Assim, vamos destruir todos os microscópios da face da Terra para que eles não mais nos confirmem que o vírus da vez é mortal e, principalmente, que eles não possam detectar o próximo vírus fatal. Sim, há sempre um próximo vírus a nos intimidar; e

2) a ciência avança na mesma proporção que a raça humana se deteriora. Se não houvesse o câncer jamais precisaríamos das quimioterapias cada vez mais eficientes. Se não houvesse tantas disfunções internas no corpo, jamais os aparelhos de Raio-X aos de tomografias teriam sido aperfeiçoados. E raios, se não houvesse o microscópio não conheceríamos o vírus e, consequentemente, não teríamos a vacina capaz de os liquidar!! Nossa deterioração precede os avanços possíveis da ciência. Um pouco trágico e um pouco cômico tudo isso.

Ao amigo espirituoso, cuja sugestão é uma anedota de mal gosto, só posso dizer que seria muito fácil quebrar o microscópio se com isso quaisquer vírus fossem eliminados. Seria muito fácil atribuir culpa aos outros ou a Deus para tudo que não aceitarmos, e com isto nos livrarmos da responsabilidade que cada um temos com relação a nós e aos demais. Seria muito fácil ficar sentado, catatônico, esperando a tempestade ir embora, mas nem sempre depois do temporal a bonança nos acontece: é preciso limpar a casa, tirar a lama, contar os mortos, ficar com as sobras permitidas pelo apocalipse particular.

No mais, a vida se impõe….

3 Comentários

  • RENATO SOARES MENEZES

    Texto espirituoso, curioso e instigante, deveras… Reflete a necessidade que algumas pessoas possuem no sentido de procurar a «culpa» pelo que lhes acontece em ações externas a si mesmo quando, na verdade, a origem do que nos acontece provem, quase sempre, de nossas próprias ações. Se ficamos doentes, por exemplo, não é por culpa de terceiros, mas por nossa própria irresponsabilidade, por nossa própria desatenção, falta de cuidados e ignorância. E, como o tema é complexo, vamos para o segundo aspeto abordado no texto: o que vem antes, a doença ou o desenvolvimento científico, médico e tecnológico? Bem, podemos também dizer que grande parte das doenças crônicas e de elevada mortalidade – como o câncer do pulmão, as doenças cardiovasculares e o diabetes -, é provocada, de forma decisiva, por nossas próprias ações, tais como o tabagismo, o sedentarismo, os maus hábitos alimentares. Assim, esses aspetos encontram-se intimamente interligados entre si e podem progredir para uma discussão bizantina – e, por isso mesmo, prefiro ficar por aqui, deixando o tema para a reflexão de outros, já que, certamente, quebrar o microscópio não é a solução…

  • Monique

    Coitados dos microscópios!
    Penso que nem sempre a responsabilidade/culpa é do próprio individuo. As vezes é sua genética, as vezes ambiental, hoje temos ar, água e solo poluídos, obtemos energia dos alimentos vindos daí e as vezes as duas coisas se entrelaçam e causam problemas à um.
    Como nas guerras (morte), as diferentes invenções e inovações surgem para tentar manter a vida e nós voltamos às disputas e formamos um infinita espiral vida/morte.

  • Mônica Barros Coutinho

    Ótimo texto!… Fiquei lembrando de algumas pessoas que por medo do diagnóstico, evitam ir ao médico, fazer um exame… Se não souber da doença, não vai sofrer… A proposta discutida propõe esse tipo de atitude como solução coletiva e não individual… Quebrem os microscópios!… É claro que a solução nunca vem da negação do problema… Estamos aqui todos de acordo! Mas, seguindo essa linha de raciocínio, fico me perguntando, se não seria por isso que estamos vivendo tanto negacionismo, em que esses pensamentos anti ciência encontram ressonância entre tantas pessoas pelo mundo agora, como o movimento anti vacina… O que fez no início do ano voltarmos, por exemplo, a ter mortes por sarampo, com vacina eficaz e segura, de graça nos postos de saúde….
    Triste, quando esse tipo de pensamento se transforma em ação e impacta a pessoa que poderia se tratar e não o faz, e, muito triste vermos mortes que poderiam ser evitadas impactando a todos nós.

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