Sentimentos acontecem dos fatos

Essa gente tão comum…

Nome: Estevão. Tipo físico: moreno, alto, de compleição esguia, olhos de um verde água, frios. Procedência: ignorada. Familiares: desconhecidos. Profissão: oficialmente não revelada. Vivendo nos subúrbios não se sabe há quanto tempo. Idade: aparentando algo em torno de quarenta e cinco anos, mas não há convencimento na afirmativa já que os rostos marcados, como o dele, sugerem um envelhecimento precoce. Vivia num prédio de três andares, cuja aparência decadente nos levava a crer que havia negligência do poder público pelo fato de nunca ter interditado o imóvel. Os três andares se uniam a partir de uma escada curva que ziguezagueava em lados opostos conforme fosse o andar. A quantidade de moradias minúsculas que o imóvel possuía, ninguém confirmava com precisão. O que realmente surpreende é saber que não havia disponibilidade de um único apartamento vago, apesar da decadência e dos perigos estruturais a que todos estavam expostos. A miséria e seus miseráveis ocupavam a totalidade daqueles apartamentos de porta única. Entrada e saída eram passagem única para os habitados desesperos humanos.

Estevão morava no terceiro andar. Com exceção do traficante de heroína que morava no segundo andar, Estevão era o mais jovem daquela comunidade de desvalidos. Isso não diz muita coisa, já que o fato de ser mais jovem não rendia aos demais moradores gentilezas que vizinhos costumam trocar em interações de boa convivência. Estevão não era o tipo de pessoa na qual se pudesse identificar sinais mínimos de simpatia: não socializava com ninguém, mantinha-se recluso no seu minúsculo apartamento a maior parte do tempo; só saia para adquirir utensílios que lhe garantiam a sobrevivência, ou quando nas vezes que negociava a execução de algum serviço. Na espécie de bunker em que vivia, tudo era muito organizado – a solidão tende a fazer das pessoas seres organizados, metódicos. Se alguém pudesse visitar sua quitinete, veria, em destaque, uma quantidade de equipamentos de informática que se interligavam sem desperdício de espaço ou funcionalidade, muito bem distribuídos naquele recinto em que conviviam o homem e as suas máquinas. Numa primeira impressão, a imagem do local poderia sugerir que Estevão era um professor, um escritor talvez, quem sabe um tradutor…, mas, com mais atenção haveria de se notar que naquele ambiente não era possível encontrar um livro sequer, uma apostila, ou mesmo um manual insignificante de coisas inúteis – como geralmente são os manuais.  A mobília era mínima; tudo muito prático; não cabia ali, em nenhuma hipótese, a inutilidade de livros. Todo o aprendizado de Estevão derivava de outros meios. Nenhuma metafísica era admitida na composição de vida daquele homem sinistro, ao tempo que instigante.

Vim a saber da enorme fortuna que Estevão possuía, por uma dessas situações caprichosas do destino, coisa de estar no-lugar-e-na-hora quando a realidade pisca o olho e lhe lança um sorriso entre irônico e simpático. No dia em que o corpo de Estevão foi encontrado no apartamento-bunker onde morava, fui requisitado, enquanto médico legista, para dar início às análises sobre a causa mortis. Quando eu cheguei já seis policiais examinavam a cena do crime, recolhendo vestígios que pudessem elucidar o ocorrido e identificar o responsável pelo assassinato. Foi então que na sala onde eu me encontrava, absorto com o cadáver, um policial me trouxe um saco de supermercado abarrotado de notas valiosas, me dando ordens para colocar o saco na maleta de instrumentos que sempre carrego comigo, me dizendo ser uma gratificação que o falecido oferecia pelo meu trabalho. Afinal era um domingo e a proximidade da meia-noite aconteceria em breve. Não posso dizer o nome, a patente, nem o endereço deste policial, pois a prudência assim o determina; caso contrário, se fosse acometido pela indiscrição, muito provavelmente um outro colega de profissão já teria examinado meu corpo, chocado pela fatalidade acometida. O fato é que os policiais encontraram naquele apartamento, dentro de um armário embutido, malas e malas de dinheiro vivo, meticulosamente arrumados. Uma fortuna que depois de parcialmente distribuída pelos sete oficiais da lei que ali se encontravam (eu incluído) ainda restou o suficiente para ocupar páginas de jornais por uma semana, tal o volume assombroso da fortuna que Estevão guardava naquele quarto, num edifício onde somente os párias da sociedade tinham o direito de ocupar. Estevão era assim mesmo: um pária com enorme fortuna. Conheço muitos por aí…

Não pensem que sou corrupto, apenas não tenho inclinação para herói. Assim, aceitei o dinheiro que me foi designado sabendo que a minha morte seria muito barata caso eu o recusasse. Dadas as devidas explicações que tentam não me enfraquecer no caráter, e até jogam com uma certa piedade sobre a minha pessoa ser vítima de um sistema corrupto, muito bem enraizado e estruturado, vamos dar continuidade às elucubrações que o falecido nos permite, a partir das circunstâncias de sua existência e da sua morte.

Estevão, como se ficou sabendo ao longo das investigações, era um assassino de aluguel. Tinha por ofício dar cabo de pessoas, sobretudo aquelas que ocupavam destaque no cenário político da época. Diferente dos seus vizinhos de porta, que matavam com recursos antiquados, seja recorrendo a armas de fogo ou armas brancas, Estevão era hábil na arte de matar sem deixar rastros de corpos à sua passagem. Sua especialidade era aniquilar os seres humanos, sob encomenda, usando a internet para difamá-los, para arrastá-los a um degredo que muitas vezes os levavam ao suicídio, incapazes de desfazer o mal feito que Estevão ardilosamente e com muita perícia publicitava na mídia.

Não posso deixar de mencionar que muitos assassinatos sociais cometidos por Estevão mereceram o desterro a que foram lançados. Mas isto me impede de condecorá-lo com a bravura de um justiceiro ou de um salvador-da-pátria, uma vez que não importava a quem ele fizesse mal (ou justiça), porque o que contava, o que se levava em consideração, era tão somente o pagamento pelo serviço a ser prestado. Algumas instituições conseguem manter-se em dignas roupagens apesar de serem norteadas exclusivamente pelo dinheiro, mas as coisas não acontecem da mesma forma quando a escala sai do institucional e vai para o individual. Geralmente nesse nível micro o indivíduo não se sustenta, e na aferição dos acontecimentos o bem feito fica anulado pelo contexto do bem pago.

Vamos tirar um pouco o foco em Estevão – afinal tipos assim são cansativos mesmo que inspirem uma certa curiosidade sobre suas existências antes de se tornarem assassinos -, e discorrer sobre aqueles que propiciaram a grande fortuna acumulada por Estevão. Os patrocinadores de assassinatos, de forma significativamente numérica, são convivas daqueles que se tornam seus inimigos. Ocupam a mesma profissão, transitam pelo mesmo ambiente, se revezam nos palanques com a mesma autoridade etc. O poder os torna fraternos com a mesma cerimônia e salamaleque que os coloca em confronto mortal.

Quem é pior? Quem autoriza o feito, ou quem executa a demanda?

Por fim, Estevão morreu num domingo por ordem de um desses muitos que recorreram aos seus serviços. Natural que os acontecimentos tenham se desdobrado desta maneira: quem mata, certamente será morto por companheiros de ofício. A rivalidade é grande em qualquer profissão.

A lamentar sobre a morte de Estevão talvez me caiba discorrer sobre a habilidade extraordinária que possuía com relação à tecnologia. A lamentar sobre a morte próxima de quem tirou a vida de Estevão, talvez eu venha a discorrer sobre a habilidade extraordinária demonstrada com o objeto cortante, capaz de, com um único corte, cumprir seu objetivo com muita higiene.

No mais, os dias passam e a história registra…

4 Comentários

  • Kelly Vieira

    Veruska,
    Fico aguardando o desenrolar dessa história, afinal até as benditas fakenews possuem enredos que se confundem com a realidade. Teu texto me fez lembrar a instigante narrativa de ficção cientifica do Murakami (1Q84) em que a personagem Aomami tinha a mesma profissão que o Estevão, mas, ainda viva e pega de assalto pelo fantástico, vive com as pernas trêmulas pelos feitos do passado que assombram o presente-futuro em que se encontra.
    Como disse, repito: aguardando as próximas cenas.
    Ah! Se por ventura ocorrer qualquer cena próxima na sequência “real” da política-brasileira, é só mera “parecência”, ou semelhança: a mentira vira realidade.

  • Renato Soares Menezes

    Que atraente conto! Não há como deixar de lê-lo de um só fôlego, despertado o nosso interesse pelo enredo! Pergunto-me se se trata de um conto policial ou de um conto de suspense… Mas logo me dou conta que se trata do retrato de uma sociedade em decadência, em que os valores, os nobres valores, estão diluídos diante da insensibilidade das gentes, em um quadro onde a vida pouco vale – como se estivessemos afundados em uma pandemia avassaladora, que nos engole como areia movediça. Então, é um conto realista… Ou um conto futurista, no sentido de prever o futuro… Espero bem que não, pois a esperança por dias melhores deve sempre prevalecer e, nessa expectativa, devemos batalhar para que os nobres valores, tais como solidariedade, dignidade e honestidade continuem a constituir o nosso paradigma.

  • Ana Cristina Palacky

    Vera. Ano Novo de esperancas. Acabei de ler o seu conto, cuja personagem Estevao, no contexto, atrai e afasta o leitor.Metodico. Enigmatico.Transgressor.Vida perigosa, de encontros obscuros e ganhos marginais. Morte previsivel, anunciada, encomendada. Submundo dos entornos das cidades divididas pela cor, pelo medo.
    Amedrontadas faces do continuo terror de existir num mundo de lama e ventos.
    Abracos bahianos, Ana Cristina.

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