Sentimentos acontecem dos fatos

Entre a Mentira e a Versão Pessoal

Leonardo Boff

Tem aquilo também, de se estar fincado em um determinado ângulo e ter a perspectiva do cenário a partir do ângulo que se está. Posicionado estivesse em um ângulo diferente a visão da paisagem, com certeza, seria outra. Esta discrepância não nos permite afirmar que um, ou outro, esteja mentindo, embora defesas de pontos de vista próprios possam ser levadas às últimas consequências. Ruptura, agressão, assassinato… tudo passa a ser possível quando deixamos de considerar níveis de sutileza que se interpõem entre ponto de vista e realidade. Porque a verdade zomba de todos nós, independente de termos inclinações para analisarmos o mundo emocionalmente, em contraponto ao racional. Definitivamente, a assimilação da realidade é algo muito custoso…

Existem pessoas que perdem a noção de conjunto e só conseguem enxergar um aspecto, ou um elemento, do todo. As vezes são detalhes tão pequenos que ganham, inadvertidamente, relevância extrema, que passo a imaginar a capacidade disponível dessa pessoa em lidar com problemas e vir a solucioná-los. É bem provável que, por natureza, essa pessoa não consiga visualizar efetivamente nenhum problema com a distância necessária para tentar resolvê-lo: fica agarrada a uma minúcia e a toma pelo todo. A possibilidade da questão se tornar muito mais complicada é bastante viável!

Pessoas com essas características podem ser identificadas pelas argumentações que desenvolvem. Geralmente querem nos convencer dos pontos de vista que defendem, e aí pinçam os pormenores da situação que reforçam o poder de persuasão que possuem para com as causas que acreditam. São pessoas simpáticas, são pessoas eloquentes, são pessoas que nunca deveriam faltar em qualquer festa ou reunião. São duas as possibilidades de reação da audiência: 1) se convence a partir dos argumentos parciais que são colocados; ou 2) desiste de enriquecer a discussão inferindo novas percepções da questão, porque os argumentos que recebe são de tal forma fechados em si mesmos que não há espaço para que alternativas sejam ouvidas.

Contudo, reluto em afirmar que essas pessoas sejam mentirosas. Apenas veem a realidade de forma fragmentada e não conseguem juntar os pedaços para terem uma proximidade mais efetiva com a realidade. Geralmente, sofrem de uma espécie de falta de enquadramento com relação à vida. Tudo lhes parece tão nítido, mas não sabem explicar por que lhes assombra uma variedade difusa de desalinhamento a que tudo ao seu redor se submete.

Pessoas que considero mentirosas são mais complexas, golpeiam acintosamente a ética e a moral, e muito raramente são responsabilizadas por seus atos. Seus padrões são elevados na intenção de ludibriar, de tirar vantagem, de garantir e perpetuar o poder com relação às demais pessoas. Pessoas assim dão muito trabalho e neutralizá-las exige uma concentração de energia bastante intensa e nem sempre eficaz. Muitos possuem um padrão de inteligência superior à média, por serem capazes de engendrar teias de tal sorte ousadas, que deixam à deriva os códigos penais existentes. A capilaridade dos malefícios de que são autores, não se restringe à indignação individual; muitas vezes a tristeza de um povo é perfeitamente detectável nas posturas e expressões que circulam pelas cidades. Tristeza que emudece ou que se lança ao desespero de imprudentes manifestações.

Pessoas mentirosas bem qualificadas como tais, são difíceis de serem desmascaradas. Elas criam uma rede de proteção bastante eficiente, sabem escolher seus parceiros, recompensam regiamente seus cúmplices, escorregam para um lado ou para outro à mercê das conveniências. Não explodem bancos, não sobem os morros para entregarem armamentos contrabandeados. Pessoas mentirosas não sujam as mãos, assim evitam serem identificadas. Guarda-costas são recomendáveis no caso de alguma surpresa, no caso de algum arroubo justiceiro por parte de qualquer indignado.

Tomara que o exercício de ser humano que me compete atuar nesta vida, não permita nunca que os meus pontos de vista se desvirtuem e me transformem numa desprezível pessoa mentirosa. Este é, certamente, apenas meu ponto de vista…

5 Comentários

  • Mônica Barros Coutinho

    Muito interessante e atual o tema que você, Vera, trouxe. A diferença entre os pontos de vistas e a mentira! Concordo com os argumentos explicitados. Ter um ponto de vista diferente e até divergente do outro é uma coisa, mentir é outra!
    E o texto finaliza com o desejo de nunca se desvirtuar do seu ponto de vista para a mentira. Acredito que você está a salvo desse risco! Reconhecer que seu ponto de vista é uma das possibilidades é tudo que eu gostaria que ainda fosse um consenso na nossa sociedade…
    Vivemos uma época em que as diferenças são cada vez menos toleradas, em que as pessoas transformam seus pontos de vistas pessoais em “verdades absolutas”, sem considerar a possibilidade de enriquecimento com uma outra visão. Pelo contrário, o esforço é feito não para argumentar e chegar a algum consenso, mas para invalidar o ponto de vista do outro, mesmo que seja através de fake news….
    Vemos esse discurso na política, em que não se valoriza o embate de ideias, mas a busca pelo discurso único. A violência desse discurso aparece nas comunidades aqui no Rio, na intolerância religiosa, em que traficantes e milicianos se unem para destruir centros espiritas e impor a religião evangélica….
    É assustador ver a riqueza da pluralidade, da vida, ser substituída pela pobreza desse tipo de discurso… reduzido a um único ponto de vista…

  • Kelly

    Ótima reflexão! Ainda que, abrindo o ano, já nos deparamos com uma crença compartilhada que auxilia sobremaneira a organizarmos ( se é que se pode ser tão pragmático assim) algo que compõe, ou uma mentira ou uma perspectiva. Vira e mexe tenho escutado, e por vezes até falado, que as estações já não são mais aquilo que a pintada memória dizia ter sido: organizada.
    Desloco a complexidade apresentada, apesar de ter sido narrada de modo dual, e abro com uma crença compartilhada, factual mas não real, para sinalizar os benefícios da mentira ou da perspectiva no cotidiano das relações. Um ponto de vista pode ser uma mentira, bem como uma mentira poderá ser um ponto de vista. Mas não só. Harari, numa obra que você me apresentou, demostra a importância da mentira nas relações às relações, a crença mesma no credito, por exemplo. Arendt diz que a mentira é ofício do político e do demagogo. Instrumentalização com fins utilizando-se de meios. Derrida resgata a história da mentira (esse texto, talvez você goste) e sinaliza que até há esforço do profissional, no entanto, na relação com o outro existe algo que é do outro: desejo de querer ser enganado. Ou seja, desloca o papel do mentiroso.
    Para mim o “verdadeiro” problema está na sua primeira sentença: a questão do que seja verdadeiro. Se alguém for tão onisciente, terá que sempre que se perguntar de que lado olha e, inclusive, qual a lente que se usa no instante (Jung), pois crer que se despe algo de si ou de alguém, é outro engodo.
    Parabéns, veruska! Que venham mais e mais pontos de vista!

  • Ana Cristina Palacky

    Vera. Tento ler o seu bem redigido texto no olhar da modernidade. Hoje não há verdades absolutas, nem mentiras irreversíveis. Há interpretações. O mundo se dilui no plural, no correto e incorreto. Mundo fluido e maleável. Nuvens e mares.
    Abraçar, seduzir, acreditar, acusar defender, não comportam verdades. Há perigo nos conceitos fixos, nos gestos, no querer, no amar e desamar. As verdades, meias verdades , mentiras, meias mentiras se encontram, se contradizem, se opõem, se digladiam, se destroem, se confundem – e no final, se compõem e se arrumam como um par amoroso no traçado delirante do tango argentino.
    Ana Cristina Palacky.

  • Renato Soares Menezes

    Mais um instigante texto  da Autora! Sim, tudo depende do ponto de vista de cada um. E isso me faz lembrar a historinha que relato a seguir. Alguém, não me lembro quem, em visita a Havana, teria exclamado: “Aqui até as estudantes universitárias se prostituem!” Ao que Fidel teria respondido: “Não, aqui até mesmo as prostitutas têm nível universitário!” Uma posição vista pela ótica de um defensor do que se constatava como realidade na capital cubana, defesa essa apresentada de forma inteligente e sem agressões , sem imposição, mas que deixou o visitante sem argumentos. 
    A segunda parte do texto se detém sobre a mentira. O argumento apresentado por Fidel naquela historinha é mentiroso, falso ou verdadeiro? Teríamos que aguardar até que fosse feito um estudo científico, estatístico e sociológico, para demonstrar onde está a verdade, no caso. 
    A melhor opção é sempre deixar os argumentos serem apresentados e debatidos, para que o senso comum ou o bom senso encaminhe a questão para um destino correto.  Os diferentes pontos de vista podem acabar por formar uma realidade única e inquestionável, como um bela colcha de retalhos, ao se chegar à conclusão que ”todos os caminhos levam à Roma” – ou que estamos todos no caminho certo e que, por rotas diferentes, alcançaremos o mesmo patamar.

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