Sentimentos acontecem dos fatos

Confirmação de Presença


A confirmação se deu numa tarde, no final do outono. O abacateiro havia dispensado uma folha, que dançava alegre no ar, antes de se deitar, cansada, sobre a grama aparada. Eu apenas sorri e respirei fundo.

Depois daquela tarde, era certo intuir que não se tratava de uma visita temporária. A permanência acontecia com características de convivência definitiva, e bom seria estabelecer vínculos respeitosos de intimidade com o que comparecia na minha vida. Primeiro eu contemplei, depois pensei sobre tanta contemplação, por fim, percebi a finalidade das muitas situações contemplativas que me pautavam os dias. Novos tempos chegavam com a primavera iminente.

Lá, em anos distantes, enevoados na memória, quando a jovialidade traçava meus dias por rotas aventureiras, experimentais, e imprudentes, os meus cabelos já tinham uma mecha branca que me conferia um certo disparate com relação ao tempo. Outras sandices, só que intencionais, se serviram da cumplicidade da juventude. Depois foram as sobrancelhas que foram atravessadas por um traço branco impróprio para a idade. Não tenho registro de quando o espelho me mostrou que a proporcionalidade havia invertido e o indelével passou a ser um cerimonioso embranquecimento, que me conferia digna respeitabilidade.

Também não distingo em que ocasião passei a levar em consideração o peso dos botijões de gás, das estantes, dos toneis de água, dos sacos de ração, das mesas, das poltronas… e tantos outros objetos que com facilidade transportava ou os deslocava com um vigor físico invejável. Lembro que ria de mim mesma quando os primeiros sinais de que a vida me pesava passaram a interferir na dinâmica dos meus dias. Apenas levava mais tempo para realizar as ações porque passei a incluir no planejamento intervalos de suspensão para recuperar o fôlego ou esticar a coluna. Nenhum alarde, nenhuma advertência contundente, nenhum pensamento alarmista. Os anos mordiam saborosamente o tempo no curso das idades acumuladas.

A vida corria suave apesar do enfraquecimento do tônus muscular, da protuberância abdominal, das rugas que silenciosamente tatuavam a despedida da juventude, das artrites, das artroses e outros fenômenos mais, ou menos, doloridos e dolorosos. Um declínio delicado, sem sobressaltos, mas constante. Tão imperceptível quanto o enfraquecimento da visão que foi, de pouquinho em pouquinho, fechando os olhos na busca de nitidez para os focos cada vez mais embaçados.

Passou a me surpreender a dificuldade em reconhecer pessoas que reencontrei depois de anos varridas do meu convívio: estavam tão mais envelhecidas; de alguma forma intumescidas com relação ao frescor que delas retinha na lembrança. A ação inexorável do tempo eu conseguia perceber ao meu redor, contudo me recusava a ver o processo de lapidação que não me isentava.

Terminava o outono e a folha do abacateiro levada pelo vento da tarde sussurrava a chegada de uma nova estação. A paisagem se preparava para a primavera, e eu sabia que o outono se instalava na alma do meu tempo para sempre. Enfim, a idade da pacificação; a sutileza da respiração entrelaçada na tolerância; a sabedoria de aprumar a audição e apaziguar os ímpetos; silenciar as verdades construídas pela vaidade e pelo orgulho; a conquista da simplicidade…

Que as noites repletas de estrelas continuem a iluminar o caminho até acontecer o último amanhecer, renascendo a esperança a cada encontro de um novo dia. A preparação para o esquecimento definitivo.

8 Comentários

  • Ana Cristina Palacky

    Vera Cristina. O seu prosa poema é adorável. O outono chegando e deixando, ou apagando, marcas do tempo passado que se torna vivido e iluminado nas cores pasteis ou amareladas das folhas caídas. Recordações viageiras, retratos em preto e branco, corações partidos e refeitos, saudades dos que partiram. O outono é sublime e triste. Estação de passagem a caminho do inverno – onde tudo começa e termina. A primavera é o sonho. O verão é a graça dos rodopios da dança, dos encontros e desencontros. Das janelas abertas ao mundo. Jardim de mil graxas carmim e de rosas silvestres.
    Outono de todas e todos nós. Solidários e solidárias estamos caminhando….. O luar prateado nos abraçará… Rostos alegres que se tornaram tristes…..
    Vera grata pelo seu poema. Abs afetuosos de Praga. Ana Cristina

  • Renato Soares Menezes

    Um texto delicado, poético, sobre o passar dos anos e a chegada do outono na vida. Triste também, embora a Autora pareça demostrar que chegou ao outono da vida de uma forma tranquila e equilibrada. Abençoada seja. Não é porém, o que acontece com todos: muitas pessoas vêem chegar esse período de maneira inconformada. E, assim, procuram, ou amenizar, com persistência, a passagem do tempo, ou disfarçar, às vezes com efeitos dramáticos, as marcas que os anos deixaram. A melhor maneira de se posicionar diante do inevitável é mesmo se conformar, tendo em mente que a alternativa é drástica e definitiva. Afinal, sendo a chegada do outono na vida impossível de se evitar, ela deve ser considerada como ditosa pelo que encerra de gratificante, após as lutas cansativas das buscas e das realizações. É o atingir da maturidade. Como dizem alguns versos da canção “A Lista”, composta por Oswaldo Montenegro,

    “Quantos amigos você jogou fora
    Quantos mistérios que você sondava
    Quantos você conseguiu entender
    Quantos segredos que você guardava
    Hoje são bobos ninguém quer saber
    Quantas mentiras você condenava
    Quantas você teve que cometer
    Quantos defeitos sanados com o tempo
    Eram o melhor que havia em você”

  • Diderot

    Sempre é muito legal ler os seus textos quando nos apresenta suas experiências de vida e nos ajuda a percorrer o conteúdo de forma agradável. No meu entendimento essas narrativas são para os leitores ricas em todos os sentidos. Fico na torcida que esse seu exercício seja só sucesso Dna Vera.

  • Mônica Barros Coutinho

    Lindo e poético! Essa harmonia descrita no envelhecimento do corpo em consonância com um amadurecimento emocional…
    Um outono de corpo e alma…
    Ainda estou na fase de um certo descompasso, um estranhamento… E uma alegria de me reconhecer nos desejos, nos amigos e em mim mesma…

  • Maria Martinho

    Vera,
    Que texto lúcido, sensato, sensível! Apesar do reconhecimento de que o outono há de chegar, não há um tom , de desespero ou de raiva. Há o acolhimento desse novo ciclo da vida e a esperança de vivê-lo intensamente. Obrigada por expressar com tanta delicadeza um momento da vida que, para algumas pessoas, parece ser um campo de batalha e , que na verdade, poderia ser recebido serenamente, até porque não adianta fugir!

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