Sentimentos acontecem dos fatos

Fragmentos

Ela insistia em que eu a visitara todos os dias durante a sua recuperação cirúrgica, e que todos os dias jogávamos YAM sobre um pano de prato para que o barulho dos dados sendo lançados não incomodasse demais o ambiente.

Eu não me lembrava, como até agora nada me é muito nítido. Sim, sei que ela fizera uma cirurgia; sei que a visitava, mas não sabia que havia sido todos os dias; sei que jogávamos YAM – ainda posso me ver olhando os dados e calculando a melhor posição com relação à tabela -, mas não me recordava ser um jogo persistentemente diário. Recordo-me, vagamente, de outras situações: acompanha-la às sessões de quimioterapia e, na saída, numa lanchonete embaixo do edifício, se não me engano o bairro era Botafogo, cumprirmos um ritual de suco de laranja e pão de queijo, antes de tomarmos um taxi de volta para deixá-la em casa – guardei uma imagem dessas viagens de volta: eu a olhava em silêncio, de canto de olho, querendo adivinhar o grau de indisposição que ela sentia com as drogas curativas circulando no seu corpo, meu silêncio era o que eu entendia de melhor para não perturbá-la, olhava pela janela do taxi desejando que aquela fase terminasse logo -; recordo-me do livro “Cem Anos de Solidão” *que, segundo ela, eu a presenteei na ocasião, mas não me lembrava que a havia presenteado com este livro; geralmente eu menos sugeria e mais acatava as recomendações de leituras que me eram indicadas, mas guardo algumas sensações difusas do impacto que este livro me causou, embora o enredo me fuja e ficaria constrangida se alguém me pedisse para resumi-lo.

O fato é que a memória sempre foi o meu melhor sinônimo para traição. Não sei se posso considerar este fato uma salvação ou uma feitiçaria providenciada por algum “anjo torto desses que vivem na sombra” **. Não me reconhecer no que ela insistia em afirmar serem meus atos, me deixava confusa, meia incrédula, não quanto a ela, mas com relação a mim mesma. Não poder confirmar o que me atribuíam, pois tinha certeza de que não estavam inventando nada, porque não teriam motivo para tal, me deixava flutuando nas impressões sobre mim mesma, não me permitia apropriar, com convicção, dos traços de uma personalidade que por suposição julgava serem meus.

Sem ter clareza do que fui, de como agi, de como reagi, me atirava num vazio em que qualquer conjectura pessoal que pudesse fazer sobre mim mesma, me deixava sob suspeição de incorrer numa falsa imagem, num possível delírio, num embuste sobre quem eu era de fato.

Na realidade, a memória nunca foi um atributo a que eu pudesse recorrer, o que possivelmente, é tão grave como ter perdido o olfato não me lembro em que momento dos tenros anos de minha vida. Viver sem memórias confiáveis e sem olfato desde muito tempo, afirmo serem características que bem apontam a minha pessoa. Com isto, posso tecer inumeráveis suposições sobre a minha personalidade, mas nunca poderei afirmar se elas cheiram bem, ou mal, com relação à verdade. A isto chamo infortúnio.

Descubro, por consequência, que absolutamente não sou um ser confiável. Minha biografia está toda fragmentada em pequenos pedaços, atirados nas profundezas de um oceano turvo no qual, possivelmente, nenhum escafandrista, por mais experiente, possa trazer à tona com facilidade. Reunir essas porções desconexas que dependem de outros para serem resgatadas, poderá permitir que eu construa uma história. Mas quem garante que essa seja a história da minha vida, a história de quem eu realmente sou. Afinal, são situações de relance, são impressões de passagens, são cenas efêmeras que permitem aos escritores suas obras ficcionais. Corro, portanto, o risco de ser uma ficção de mim mesma ao tentar reconstruir pelas memórias dos outros a pessoa que a minha memória não é capaz de validar. Se me é impossível confirmar a minha própria história de vida, que os meus amigos possam reter em suas privilegiadas memórias as passagens mais generosas do que, eventualmente, fui capaz de engendrar. Mesmo que nenhuma delas, por mera incapacidade, eu possa autenticar.

Referências:

  • * Título do livro de Gabriel García Márquez
  • ** Verso do “Poema de Sete Faces” de Carlos Drummond de Andrade

8 Comentários

  • Ana Cristina Palacky

    Vera Cristina. Gostei de Fragmentos. Interessante e original. Evoca passagens retalhadas e atomizadas
    da sua rica memoria. Momentos delicados, situacoes tristes e emocoes tardias que fluem na sua narrativa clara, filosofica e poetica. Bonito texto . Parabens. Ana Cristina

  • Renato Soares Menezes

    Mais um texto de reminiscência da Autora, em que ela se expõe com coragem, discorrendo sobre suas eventuais desvantagens (ou defeitos, ou infortúnios). Mas, pera lá – se é um texto de reminiscência, a Autora possui memória! Fragmentos de memória. Mas creio que isso acontece com todos – muitas vezes, tomo um medicamento e, minutos depois, já não tenho a certeza de que o tomei… Falha de memória? A autora fala também de perda de olfato (anosmia?). Mas isso deve ter uma causa física e talvez mesmo tratamento… Seja como for, tanto o lapso de memória quanto a ausência de olfato não são características de ninguém: são “infortúnios”, como aliás bem os denomina a Autora, eventualidades que podem, infelizmente, acontecer. Ser vítima de um câncer, ou de outra doença, é uma característica de alguém? Não creio… É um infortúnio, que deve ser combatido e onde a aceitação ou o conformismo só deve ter lugar quando esgotadas todas as maneiras de combatê-lo.

  • Mônica Barros Coutinho

    Vera, seus textos sempre ecoam em mim… E dessa vez foi a sensação do silêncio, como se não houvessem palavras para me expressar… Aturdida, nesse turbilhão de fragmentos, de incompletude, de dúvidas…
    E fui construindo um entendimento que as diferenças entre as suas lembranças ou da amiga, não fazem diferença. Se ia visitar todo dia ou muitas vezes, se toda vez jogava ou não, não altera o fato de que você viveu esse período dando o seu apoio, a sua presença e isso é o que importa. Essa troca, esse laço forte… Ser amiga… E ao falar disso sua amiga aponta a importância que teve para ela… Então meu olhar saiu da ansiedade pela incompletude, e vi uma pessoa, que mesmo que não lembre de todos os detalhes, pode se orgulhar de si mesma. Bj grande

  • Kelly

    Um lindo texto que sela a divina comédia que a vida pode ser quando, num respiro ou suspiro, se faz possível observar o que se pintou no conservar da memória. O eu que se diz, o eu que se faz sendo e que se reapresenta aos tantos outros que (in)felizmente idealizam o nosso eu. O eu insistente que quer permanecer pela crença que se ligou a esses ideais que são parte de um por extensão do outro….
    O que fica mesmo, se possivel por em cacos o museu da memória, é o ato, o fato, o traço daquilo que não se fixou nesse pseudo eu, porque foi apenas feito, indicado, falado…permaneceu ao lado da amiga por prazer de estar e não na recompensa instrumental da recompensa que o narciso mergulha para se tornar: o que não é nem poderá ser.
    Parabéns, Veruska!

  • Tania

    Sempre mais gostoso ler quando tivemos a oportunidade de repartir momentos. As palavras parecem ecoar ainda mais perfeitamente. Bj

  • Monique de Mattos Couto

    Acho que a memória é, em muito, algo emocional. O que fica pra cada um de nós de uma experiência compartilhada ??? Porque para um vem cada detalhe, certamente profuso de sentimentos e para o outro o fio de sentimentos, com alguns detalhes , é que conduz a lembrança ? Quem sabe ,não é?!
    Vai ver as características pessoais e a astrologia expliquem!
    Adorei o texto!

    P.S. : Com o tempo, a melhor coisa a fazer é juntar os amigos, daí cada um lembra uma parte e montamos o quebra cabeça !!!

  • Diderot

    “Don’t Cry Dna Vera”! Olhando o tempo passar pela janela pergunto: existe alguém confiável e previsível? Pelo “andar-da-carruagem” a resposta é não. Esses atributos no presente – de muitos espetáculos – não tem prioridade e são acumulados lá na parte de baixo aonde nunca chegamos em temos de realização possíveis…

    Outra “descoberta” que se apresenta é conhecer “quem-sou-eu”? Pergunta essa que muitos se interessaram. Colocados os argumentos parece que a resposta mais “confiável” é aquela que sugere que na realidade somos “diversos-eus” que se sucedem, aplicando energia de forma ativista – com um ruído enorme – para monopolizar espaço objetivando validar e estabelecer a “sua” narrativa. Mesmo para o vencedor no momento seguinte já se apresenta uma nova demanda substituindo a anterior.

    Assim caminha a “roda-da-vida” em seus ciclos recorrentes, onde a “galera” fica posicionada na “roda-gigante” girando “para-cima-e-para-baixo”. O “saltar-fora” – sem abandonar o contexto olhando a mesma cena por outro ângulo – é uma possiblidade para poucos a um custo elevadíssimo…

    Já em relação às memórias quando o observador for o “eu” as “suas-próprias-memórias” mais as suas sobre os demais serão “SUAS” e existe espaço para serem compartilhadas. O mesmo se aplica pelo olhar do “outro”. O que resta para ambos é aquela vontade de só obter as positivas relegando as negativas para “debaixo-do-tapete” perdendo a oportunidade de crescimento.

    Finalizando – tentando não perder o rumo trocando de janela – pode-se dizer que tanto pelo lado do “eu” quanto do “outro” a ficção marca a sua presença, ficando para cada um a possibilidade de validar da forma que entender melhor.

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