Sentimentos acontecem dos fatos

Honra da Palavra



A honra das palavras repousa no sentido que a elas pertence. Distorcer-lhes o sentido é infração grave sem qualquer possibilidade de remição de pena. Questão muito perigosa que nos leva ao risco de ultrajes frequentes.

Se você se posicionar equivocadamente com relação ao honrado sentido de algumas palavras terá que se arrastar, sem perdão, pelos porões inóspitos do incompreensível. E para isso, basta trocar um minúsculo fonema. A título de exemplos: Para você medir o comprimento de um cumprimento recebido, terá que lidar com o seu volume de afetividade. Para você retificar um erro, terá que ratificar o engano cometido. A elegância na descrição de uma pessoa está comprometida com a discrição da intimidade individual exposta. Um dirigente bem conceituado precisa ser diligente com seus compromissos. Infligir ou Infringir? Tráfico ou Tráfego? Discriminar ou Descriminar?  Trocar um por outro é subir todos os degraus que levam ao cadafalso.

Também há, para complicar ainda mais o que por natureza já é difícil e melindroso, o uso da pontuação que pode mudar o sentido das palavras que compõem a sentença: “Não vai ter vacina!” é bem diferente do “Não, vai ter vacina!” Se você respirar fora do ritmo tudo fica embaralhado. Os fatos ficam completamente distorcidos e a verdade vai embora, sem nem mesmo se despedir: por indignação! E você junto: por vergonha!

Não faz muito tempo utilizei o termo restritamente quando o correto seria estritamente. Na urgência que a redação impõe para quem se atreve a captar a ideia, que no meu caso foge na mesma velocidade com que me ocorre, não me atinei para a sutileza que distingue as duas palavras, que não são gêmeas, mas certamente consanguíneas. Se eu tirasse os óculos até poderia defender que o sentido da frase permanecia compreensível, embora levemente arranhada. Mas, convenhamos, temos muitas palavras e seria injusto privilegiar algumas quando outras melhor exprimem o que queremos comunicar. Melhor para nós também!! A clareza na comunicação deveria ser uma oração constantemente evocada por todos. Cuidado! Não são poucos os habilidosos na arte da comunicação que transmitem mensagens enganosas. Mas essa é uma outra conversa que envolve especialistas tanto em Linguística quanto em Direito…

O fato é que palavras são tudo. Constroem mundo. Desfazem vidas. Contam histórias. Tecem verdades. Esclarecem. Aproximam. Afastam. Enganam. E não se enganem: falam muito de todos nós que delas nos utilizamos.

Não posso negar que às vezes me faltam palavras. Não só pelo embargo decorrente de grandes emoções, mas pela escassez de vocabulário mesmo. Portanto, meu perigo em depreciar, mesmo que involuntariamente, o honrado sentido das palavras é muito grande. Minhas escolhas, por serem limitadas pela deficiência vocabular, podem ferir muitos sentidos e sentimentos do mundo.

Consumo remédios para pressão. Consumo remédios para escassez de vitaminas. Consumo remédios para colesterol. Consumo remédios para atenuar a ignorância: livros. Esses são os mais doces e sem nenhum efeito colateral.

7 Comentários

  • Tania

    Diz um sábio: quanto mais conhece suas verdades, mais em silêncio fica. Mas cadê que a língua (ou a mão, no caso) se controla…rs. Esbanje seu consumo de palavras, tô aqui pra aproveitar. Bjs

  • Renato Soares Menezes

    Mais um excelente texto da Autora! Esse, “Honra da palavra”, é particularmente delicioso, porque permite reflexão sobre o poder das palavras. E elas, as palvras, têm um grande poder sobre quem as ouve – ou sobre quem as lê. Há palavras que edificam, outras que destroem; umas abençoam, outras, amaldiçoam. Se queremos construir relações interpessoais eficazes e harmoniosas, devemos perceber quem está do outro lado e ter cuidado com as palavras e a forma como as empregamos numa conversa. Contudo, na maior parte das vezes, as palavras saem de nossas bocas – ou de nossas canetas – porque não nos controlamos de uma forma correta em determinadas situações. Depois, nos arrependemos, mas aí já é tarde demais, por mais que peçamos desculpas. As palavras que pronunciamos – ou escrevemos – devem ser verdadeiras, positivas e úteis para que provoquem um impacto otimista em quem as ouve – ou as lê. As palavras certas são as que mudam o mundo para melhor. E o poder da palavra silenciosa? O silencio é ouro, já ouvimos todos dizer – mas aí, creio, já estou me afastando da questão.

  • Ana Cristina Palacky

    Vera Cristina: Seu novo texto sobre a moral das palavras é simplesmente delicioso. Leve. Interessante. Refinado.
    Palavras são e se tornam importantes na medida em que refletem você e/ou o Outro. Há palavras e palavras. Palavras diretas, contundentes, jornalísticas. Aquelas que provocam e aquelas que amaciam. Palavras de ódio, palavras de afeição. Há um mundo delas, com diferentes grafias e pronuncias, espalhadas neste mundo. Gosto das palavras fluidas, que não dizem muito, soltas, livres, originais, poéticas, singulares na pluralidade deste universo. Há aquelas que seduzem, outras que inspiram, e há palavras duras de ordem que impõem, impingem, ordenam, classificam, enquadram. Prefiro as palavras de resistência, que quebram os parâmetros, que se movimentam, que mexem na ordem estabelecida, que constroem o novo e desafiam o arcaico.
    Tenho cuidado com as palavras – principalmente aquelas dirigidas aos objetos do meu carinho e a situações obscuras e indefinidas. Podem ser perigosas. Aproximam e afastam. Constroem e desconstroem.
    Adoro o mesclado, cantante e fluido vocabulário afro-bahiano da minha querida terra, no qual a voz de obediência da Casa Grande se misturava à voz da resistência da Senzala, e aí encontravam-se, complementavam se e separavam sempre. O outro, o servo e subalterno, se diluía no olhar do feitor e do patriarca.
    Palavras suaves e outras terrivelmente amargas. Há doces, como o sabor da ambrosia – e melosas, como a rapadura e o melaço. Acidas como o doce de buriti. Generosas e egoístas. Chorosas e piedosas.
    Amo as palavras que uso para amar as pessoas escolhidas – e nelas há sempre invisíveis mensagens de esperança, de enamoramento e da lembrança da sombra rosada e brejeira do nascer do dia no alto sertão.
    Palavras são fotografias da minha alma.

  • Mônica Barros Coutinho

    Vera, seu delicioso texto, me deu vontade de brincar com as palavras, suas semelhanças e diferenças, imaginar mais listas, um momento lúdico e criativo, de puro bem estar…
    E aí, desfrutar esse momento, em que as palavras nos embalam e acolhem e estimulam… Obrigada por nos presentear com esse texto! Bj grande

  • Maria da LuzMartinho

    “Em boca fechada não entra mosca”, dizia a minha mãe, sempre sábia em escolher as palavras ou os ditados populares. Mas na verdade, acho que ela queria me passar a ideia da responsabilidade de cada um em escolher bem as palavras. E de certo, se refletirmos por um minuto, vão pipocar alguns exemplos de uma palavrinha aqui, uma frase ali, que poderia ter sido evitada.
    A língua portuguesa muitas vezes nos faz cair em armadilhas e “infringir““inflingir” kkkk as leis gramaticais !
    A língua portuguesa é linda, sonora, vibrante, seja ela apreciada num poema de Camões, na poesia de Vinicius de Moraes ou numa música do Chico Buarque. E se decidirmos citar aqui os diversos sotaques, dos diferentes lugares onde a língua portuguesa é falada, às vezes até com certa dificuldade na compreensão, teríamos que investir um bom tempo e energia.
    A comunicação se dá por meio de gestos, olhares, até pelo silêncio, mas a palavra é um dom que nós seres humanos recebemos e devemos usá-la com delicadeza, mesmo com assertividade se necessário for, mas sempre com elegância.

  • Jandiara

    Um texto absolutamente interessante de fácil leitura que fica com um gosto de quero mais!!!!!!! Gosto das palavras e adoro quando são usadas perfeitamente, embora muitas vezes eu não consiga a proeza. Que maravilha ler um texto em que se percebe a sutil atenção ao uso das palavras.

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