Saltaram dos livros e vieram para cá

A Sombra do Vento

A primeira vez que li um livro de Carlos Ruiz Zafón foi no ano passado, graças ao presente que me foi oferecido por meu irmão, cujo título foi “A Cidade de Vapor”. Fiquei impressionada com a maestria do Autor no emprego das palavras. Dotado de um estilo que me obrigou a ficar agarrada ao livro até que concluísse a leitura da sua última página. Também me impressionei, desta vez negativamente, por ter levado praticamente toda a minha existência para vir a conhecer, quase que acidentalmente, uma obra de sua lavra.

Zafón foi um escritor espanhol que veio a falecer no ano passado (2020) em sua residência em Los Angeles, vítima de câncer. Menciono a causa mortis pelo inconformismo de alguém morrer tão jovem, aos 55 anos. Existem, efetivamente, outras desgraças muito pouco mencionadas depois que o COVID-19 se tornou – ou deixamos que ele se tornasse – o quarto Cavaleiro do Apocalipse, devastando o mundo à passagem do seu cavalo amarelo.

Os livros do Autor se caracterizam pelo suspense, pelo mistério. Mas o que me comove é a maneira de contar as estórias, a vivacidade, os sentimentos, a leveza, um quê de engraçado, um tanto de dramático, outro tanto de trágico…. Enfim, o emocionante em tudo não é a inteligência na estruturação dos enredos, mas a grandeza na construção dos personagens, que não cabem em si de tão humanos.  

Do Autor, quero mencionar uma série pela qual já me arrebatou pelo título: “Cemitério dos Livros Esquecidos”. Trata-se de uma tetralogia: “A Sombra do Vento”, “O Jogo do Anjo”, “O Prisioneiro do Céu”, e “O Labirinto dos Espíritos”. Insistem os especialistas que você não precisa ler a coleção na ordem em que foi escrita, pode muito bem ler qualquer um fora da cronologia que não irá alterar o entendimento. Isto, suponho, em função de não haver continuidade na estória, mas sim uma reincidência dos personagens na vivência de outras situações.

Bom, estava eu examinando o catálogo de uma livraria on-line e me deparei com uma promoção digital da obra “A Sombra do Vento”. Me lembrei da emoção que o Autor me causou no ano passado e adquiri o livro. Caramba!!! Que preciosidade!! Escrevo aqui por um arrebatamento, pois apenas li os primeiros capítulos desse livro e não consigo me controlar, querendo que todos apreciem a arte de bem escrever e que por ela se deixem levar. É o que acontece comigo. Embora a leitura seja cativante, já sinto aquela sensação um pouco contraditória de querer prolongar a leitura indefinidamente só para que a leitura não seja concluída, e assim manter desmedidamente os efeitos da beleza interagindo na minha alma, ou na alma do mundo.

Um dos personagens desse livro se chama Daniel, um jovem com a incumbência de não permitir que um dos livros escolhidos na biblioteca do “Cemitério dos Livros Esquecidos” seja varrido da existência. Pois bem, já falei aqui do meu amor pelas canetas e de ter cultivado ao longo da minha existência a crença de ser responsabilidade das canetas o que por meio delas se escreve. Levei um choque ao ler que o pequeno Daniel também cultivou, por tempo infinitamente menor que o meu, essa adoração por canetas. No caso dele, uma caneta em específico que ficava exposta numa livraria, sendo o preço inadmissível ao prazer de possuí-la. Transcrevo essa passagem para que se apercebam do estilo do Autor:

… Meu pai dizia que aquela devia ser pelo menos a caneta de um imperador. Eu estava secretamente convencido de que com aquela maravilha era possível escrever qualquer coisa, de romances a enciclopédias, até mesmo cartas que estariam acima de qualquer limitação postal. Em minha ingenuidade, achava que o que eu escrevesse com aquela caneta chegaria a qualquer lugar, inclusive àquele local incompreensível para onde, segundo meu pai, minha mãe tinha ido e do qual não voltaria nunca”.

OK! Pode mesmo ser um atrevimento eu vir aqui e recomendar um livro que nem mesmo concluí a leitura. Me perdoem a ousadia, mas não pude evitar de querer compartilhar com vocês a recomendação de uma excelente leitura. Acreditem! Não há quem possa manter-se indiferente, por mais que divirjam com relação a gostos pessoais, à beleza da arte de escrever que este livro concentra.

Mesmo não querendo que a leitura deste livro termine, ele me chama. Ele me chama!!!

7 Comentários

  • Ana Cristina Palacky

    Vera Cristina. Grata pelo texto. Não conheço o autor. Assim fui apresentada, através de sua refinada critique – ao que me parece – encantadora obra – Sombra do Vento. O titulo e forte e surreal. Leitura atraente para tempos pandêmicos, quando se precisa de estímulos intelectuais para revigorar o pensamento, refinar a visão e abrir janelas criativas, além do medo e terror, a sombra do vento…. Ana Cristina Palacky

  • Mônica Barros Coutinho

    Eu não conhecia o autor, mas seu entusiasmo é contagiante! Dá muita vontade de desfrutar dessa delícia!
    Obrigada por compartilhar sua alegria! Bj grande!

  • Renato Soares Menezes

    Se as obras de Carlos Ruiz Zafón são fantásticas – em todas as acepções do termo -, a resenha crítica da Autora é, de fato, instigante, contagiante! Dá vontade de reler os livros de Zafón, a tetralogia ” Cemitério dos Livros Esquecidos”, sobretudo “A Sombra do Vento”, o primeiro da série e que levou o escritor ao estrelato internacional. Um livro que, como bem diz a Autora, do qual não conseguimos nos desvencilhar até o final da leitura e que, ao ser concluída, nos dá pena de ter terminado: queríamos continuar a estar envolvidos pela magia da trama! Trata-se de uma reflexão sobre o papel do livro e a importância da literatura, em um momento em que as novas tecnologias (computadores, e-mails, tablets, celulares…) estão – ou estavam – a mudar os hábitos da leitura. Sem dúvida, vale a pena conhecer a obra de Zafón.

  • Jandiara

    De tudo que falaste o que me deixa mais feliz é saber que transgrediste!!!! Que bom saber que agora cabem outras nacionalidades na tua estante. Imagina “perder” o José Rodrigues dos Santos, rs… BJs

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *