Sentimentos acontecem dos fatos

Aos muitos que dependem da nossa saudade

Por uma questão didática podemos imaginar uma caixa d´água que, gota a gota, fosse dispensando o líquido sem nenhum tipo de reposição, e um belo dia nos surpreendêssemos ao dar conta que a caixa d´água está vazia. São fenômenos que vão acontecendo mansamente, sem alarde, com uma nociva timidez, tecendo suas amarguras na distração de quem deverá suportá-las.

É assim que muitos tipos de câncer se instalam. Os mais cuidadosos convivem com o câncer desde muito cedo, desde quando estabelecem rotinas preventivas. Ou seja: ao tempo que evitam o convívio do mal, se permitem dialogar com ele. A perda da fé talvez escorregue da vida com a mesma discrição. É um acúmulo de fatos associados à um cem número de reflexões que vão esculpindo um vazio no espaço onde havia confiança.

Quem perde a fé anula a esperança. Portanto, sem confiança não há como colorir expectativas. E tudo fica mirando o cansaço. Tudo fica cheirando a depois, sem sair do lugar. Ninguém mais pula rodopiando no salão; só faz tropeçar no medo com muita dificuldade de voltar a ficar em pé. O tempo vai sangrando qualquer possibilidade de alegria enquanto o silêncio faz um ninho no coração, de onde nascerão angústias sombrias, cor de carvão. Depois que tudo se fizer em cinzas, chegará o vento que na sua suave respiração levará para o nunca mais as lembranças e as promessas, para sempre desassistidas.

Nem a primavera, nem as crianças aprendendo a andar, nem a luminosidade do verão, nem alguém chamando seu nome, trarão de volta o pulso perdido de uma vida cuja publicidade foi interrompida. Sem projetos, sem sentido para os pés no caminho, sem capinar o terreno para fins de plantio, sobram as horas escorrendo pelos dias. Sobra alguém sem saber o que fazer da vida. A faca já está por demais amolada por dentro da fé cega. Reclusão não é nem remédio nem veneno; é a estreita possibilidade dos que certificam não haver mais nada a fazer. Mas é só o tempo que foge dos que pensam estar fugindo desse tempo.

Hoje, eu acordei assim, com a minha alma querendo experimentar um aparelho “Semsangue”, 5G, último modelo, e não havia com quem trocar ao menos uma alegria nas ondas da modernidade. É que a minha alegria nunca foi uma imposição; ela só acontece quando outras alegrias estabelecem um fluxo capaz de acender o que de melhor em nós se faz em claridade. Mas quando as trevas se espalham, os sentimentos se estreitam, até o vocabulário encurta, é quando eu tiro da caneta as melodias que outros tiram do violão. E todos nós sofremos acordes em separados, de uma orquestrada solidão.

Hoje, eu acordei sem nenhuma gratidão. Todas as veias entupidas. Sem sorriso disponível. Acordei no negativo de mim mesma. E ainda assim, sendo eu mesma.

Hoje, eu acordei precisando acender velas quando bem sei que todos os santos já se cansaram de mim e que Deus me olha com o semblante franzido por ter me ajoelhado para uma fé que não Lhe diz respeito. Uma fé que não olha para o céu, mas que procura nas covas onde as sementes foram lançadas, qualquer fruto que mate a fome e o desespero.

Tempo de inúmeras covas, todas na saudade semeadas…

6 Comentários

  • Mônica Barros Coutinho

    ” … eu tiro da caneta as melodias que os outros tiram do violão”… E que melodia… envolve a alma…
    Silêncio… Não o confortável silêncio de quando já dissemos o necessário e estamos aquietados, mas aquele desconfortável, de não saber o quê dizer… Foi assim que me senti ao final do texto… Remetida aos desertos que já atravessei, em que me senti uma terra árida, como se nada pudesse brotar, sem esperança, seguindo em frente por seguir…
    Coexistem a vida e a morte, a luz e a escuridão, o positivo e o negativo em nós e no mundo.
    O acordar com vontade de se conectar, o acordar sem gratidão, o acordar precisando acender velas… É preciso um fluxo para que faça a claridade… E, em todos os diferentes momentos, somos nós mesmos…
    Penso que o vazio da caixa d’água é temporário… Como um fluxo interrompido numa época de seca, passa o tempo e volta fluir… E assim, nós também, mesmo estando ressecados, vamos aos poucos, nos renovando e voltando a nos conectar… Bjs e parabéns pelo lindo texto!

  • Monique

    Uau!
    É tanto impacto, tanta densidade, tanta identificação que fica dificil respirar , que dirá comentar…
    Vamos aos poucos , com as águas das chuvas, a energia do sol , o verde brilhante das plantas … e da mandioca colhida

  • Renato Soares Menezes

    Mais um texto rico de ideias estimulantes e que deverá levar os leitores a diferentes – interessantes e instigantes – interpretações.
    De fato, a esperança e a fé, tão importantes para nos impulsionar sempre adiante, para a frente, quando esbarram no desanimo e na inércia tendem a levar à depressão e, consequentemente, ao desastre.
    O tema me faz recordar a história do sapo na panela. Se Você colocar um sapo em uma panela, enchê-la com água e a colocá-la ao lume, vai perceber algo interessante: o sapo vai se ajustando à temperatura da água e permanece  lá dentro. Enquanto a temperatura vai subindo, o sapo vai se acomodando à mesma. E, quando a água estiver a ponto de ferver e o sapo tentasse saltar da panela, não conseguiria: estaria cansado por causa dos ajustes que teve que fazer. Foi a fervura da água que matou o sapo? Na verdade, o que o matou foi a sua incapacidade de decidir quando pular fora.
    Assim, não devemos nunca deixar para amanhã o que podemos fazer hoje. Acomodar-se a uma situação pode ser desastroso; de repente, pode ser muito tarde para tentar revertê-la, ao ficarmos à janela vendo o tempo passar, sem agarrarmos com as próprias mãos as rédeas da nossa existência. 

  • Ana Cristina Palacky

    Vera Cristina. Seu último texto é emocional, triste, cheio de saudades e suas muitas nuances claras e escuras. Saudades permeiam nossas vidas de adultos pontilhadas de vazios, desencontros, perdas, memórias, nostalgias. E no mapa do amadurecer entram reflexões sobre a morte, sobre o valor da existência, vulnerabilidade, retornos metafóricos ao passado e sombras do futuro. Cemitérios aparecem e festas desaparecem. O mundo se encolhe, se reserva. A dança deve ser agora. Parabéns.

  • Maria da LuzMartinho

    Texto impactante,que nos remete às mais profundas inquietações que parecem infinitas e intransponíveis.
    A Fé e a Esperança caminham juntas afugentando o medo, o pavor,o sentimento de impotência.
    O tempo é de espera,tudo agora é temporário,incerto e vago, mas em algum momento a Vida há de se impor e nos mostrar a força que está lá,dentro de nós,sendo reabastecida com luz e calor,pronta para explodir e nos alimentar.
    Caminhar é preciso!

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