Sentimentos acontecem dos fatos

Para sempre, Seu Alfredo

Há dezesseis anos conheci o Seu Alfredo. Em 2005 ele era corretor e morador no Condomínio onde vim também a morar a partir dos serviços profissionais dele. Não sei exatamente como cheguei até ele, ou quem me o indicou. Só sei que a cada casa que ele me mostrava, que naquele tempo eram muitas, eu só dizia “não tem vista”, “não tem vista”. Até que ele já cansado das minhas recusas disse: “pois bem, se é vista que você quer, me siga”. Subimos uma rua sem saída e perto do final, ele parou o carro em frente a um portão tipo fazenda, todo de madeira que fechava aproximando duas metades. Nem foi preciso atravessar o portão, olhei ao meu redor e confirmei: “É essa!!!”. E foi assim que vim morar nesta casa. Para mim era inconcebível morar nesse lugar sem poder ter acesso ao nascer ou ao pôr do sol; no meu caso, o privilégio é observar a cada manhã os efeitos do sol, mesmo antes dele aparecer para um novo dia. Bom, devo dizer que a minha escolha recaiu em “mais vista” do que propriamente em uma casa. Providenciei uma grande reforma, aumentando a cozinha e criando uma área de serviço. Só depois de ter substituído os centímetros de janelas existentes, por dois metros de pura luminosidade em todos os aposentos, é que eu tive coragem de entrar na casa e tratar de finalizar o muito que me parecia pendente.

Vim a encontrar Seu Alfredo muitos anos depois, quando fui checar um restaurante familiar recém inaugurado nas imediações do sem fim onde moro. E lá estava Seu Alfredo! Tantos anos passados, sabia quem ele era, apenas me confundi no nome, chamei-o de Álvaro e fui prontamente corrigida. Ele também sabia quem eu era. E sempre é muito bom sabermos quem somos para as pessoas, e quem são as pessoas para nós. Havia abandonado a corretagem depois de ter sido obrigado a colocar uma ponte de safena. Abrira aquele restaurante com a esposa – Dona Margareth – e parecia feliz, como sempre, na atividade nova.

A comida, muito caseira, caiu logo no gosto da vizinhança que desguarnecida desse tipo de empreendimento possibilitou que o restaurante modesto, mas honesto, angariasse uma freguesia fiel. Muitas vezes eu aparecia no restaurante, somente para saborear um picolé, e jogar conversa fora com Seu Alfredo. Dona Margareth tem a mesma simpatia que nele inspirava confiança e respeito. Dizem que gentileza e generosidade se ensinam praticando. Seu Alfredo sempre foi assim: gentil e bom de conversa. Hoje fico pensando que talvez tenha sido conversa demais que o afastou do nosso convívio…

Acompanhei o crescimento da família. Testemunhei toda a preocupação quando um netinho ficou doente, e toda a alegria da Dona Margareth em comunicar aos clientes que se interessavam pela saúde do bebê, que ele estava cada dia melhor. Dava gosto de ver a família quando grande parte se encontrava no restaurante. Não sei se é uma família grande, mas ocupavam um grande espaço falando entre si, ou atendendo aos clientes. Bonito de se ver, bom de se apreciar aquela convivência.

Não faz muito tempo, quando passava pelo restaurante, passei a reparar que Seu Alfredo e Dona Margareth não estavam na linha de frente do negócio. Pensei que finalmente eles tinham se aposentado e deixado a empresa para as filhas e netos levarem em frente. Mais ou menos uma semana atrás parei no restaurante e pedi uma “quentinha” com carne de panela – uma das delícias do dia a dia deles – e resolvi perguntar ao neto sobre as supostas férias dos dois pilares do negócio. Foi então que fiquei sabendo que ambos foram contaminados pelo COVID. Dona Margareth havia tido alta hospitalar na véspera, mas o Seu Alfredo continuava internado. O neto ainda disse que eles iriam demorar a retomar as atividades porque provavelmente a recuperação seria lenta, mesmo em casa.

Hoje, recebemos no grupo de WhatsApp do Condomínio a notícia do falecimento do Seu Alfredo. Recebi a notícia com uma tristeza implacável, daquelas que nos deixa atordoados, e não querendo acreditar que algo assim possa acontecer tão perto de nós. Sem dúvida o Seu Alfredo irá fazer muita falta nas referências dos meus dias e do lugar onde moro. Vai ser muito difícil ouvir os dois toques de buzina, impreterivelmente às 11:30 na casa da vizinha, e saber que nunca mais o Seu Alfredo estará entregando a “quentinha”, saber que nunca mais teremos a oportunidade de estar em contato com o sorriso e palavras gentis que ele distribuía junto com as refeições.

Dissertei tantas vezes aqui da ameaça desse vírus que nos deixa, a todos, temerosos… Dissertei como se assim tecesse um amuleto capaz de afugentar para longe o invisível inimigo…  Há mais de ano sofro e me angustio no genérico que o contexto impõe nas estatísticas cada vez mais volumosas. Hoje eu sofro a objetividade de uma saudade. Lamento o que estará para sempre interrompido, para sempre coagulado na memória.

Saiba, Seu Alfredo, o senhor fará muita falta para todos que tiveram o privilégio de conhecer a sua gentileza e generosidade.

Descanse em paz!

3 Comentários

  • Renato Soares Menezes

    Uma bonita e sincera homenagem a quem distribuiu “sorriso e palavras gentis” para todos com quem entrava em contato. E essa homenagem aponta para, ao menos, duas questões. A dor que sentimos quando sabemos da perda de alguém é muito mais intensa quando deixa de ser abstrata, quando ainda não fomos atingidos pela partida de alguém que nos era próximo, alguém que conviveu conosco e deixou saudades. E, assim, chegamos à segunda questão: a saudade. Se sentimos saudades é porque quem partiu deixou algo em nós.  Devemos, então, deixar a saudade aflorar, já que “Ocultar o sentimento de vazio é deixar a dor ecoar no peito”.  Já ouvi dizer que “Viver é colecionar saudades, até deixar….”.

  • Ana Cristina Palacky

    Vera Cristina: Bonita despedida ao Sr. Alfredo. Partiu e ficaram as memórias e saudades do bom amigo de tantos anos. Covid 19 tem espalhado morte e terror aqui, aí, e acolá…. Não se sabe a origem, nem quando foi criado, fala-se que é um vírus desenhado… Arma biológica para uns, versões contestadas e orquestradas – e enquanto isso vai ceifando vidas impiedosamente. Covid levou minha mãe em julho do ano passado, perda imensa de mãe e melhor amiga. Assim Covid chegou emocionalmente ao meu coração. As estatísticas e seus modelos armados continuam alarmantes e até então, com as novas variantes, nada de luminoso ou promissor no horizonte… Sr. Alfredo, mamãe, conhecidos outros, nos deixaram com retratos e lembranças cheias de afeto e de açúcar. Imagens infinitas. E nos mostraram – com terrível intensidade e lunar clareza – que na vida, a gente se torna em tudo e em nada…..
    Congratulações, amiga escritora. Ana Cristina Palacky

  • Mônica Barros Coutinho

    Uma linda homenagem, uma história que vale a pena ser contada… Amizade, honestidade, gentileza, generosidade… Tudo que faz bem ao coração, à vida… Muito difícil lidar com a perda, um momento dolorido, de luto… Do nunca mais…
    Momento de relembrar, e, se não pode mais ser repetido, também não pode ser apagado… E um dia talvez o que está coagulado possa estar integrado na memória e fluir, trazendo a sensação boa de ter compartilhado tantos momentos bons…
    Parabéns pelo texto!

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