Sentimentos acontecem dos fatos

Café da Manhã

Imagine um salão gigantesco, compatível com os existentes nos palácios portugueses visitados após encaradas as filas enormes do interesse do público em saborear a história. Percorremos o salão imaginado: as lindas pinturas renascentistas ocupando o teto; as paredes cobertas por quadros desmedidos, a maioria retratos dos nobres de uma linhagem genealógica com interferência na História, assegurando vaidosamente o pertencimento do palácio. Sobre o tapete de monumental tamanho, cujo tempo para sua confecção facilmente envolveria mais de uma geração, uma imensa mesa para duzentos talheres; seus pratos decorados com o emblema da família esculpido a ouro; suas taças de cristal com titânio, lapidadas com enorme leveza; faqueiro de prata cujo peso corresponde ao seu valor… Suspensos no ar, ao mesmo tempo que belos, também intimidatórios, três lustres de cristais que para cumprir sua funcionalidade deveriam ter as suas velas acendidas na véspera da refeição, o que sugere serem lustres eternamente acesos com um rigoroso cuidado de substituir os lumes, garantindo efetividade. Lindo, majestoso cenário. O luxo das coisas, o luxo do que é possível acumular.

Transcorridos seis séculos, vamos fantasiar o historicamente improvável: tal palácio ainda pertencer à mesma família. Sobreviveu às guerras. Sobreviveu à alternância do poder. Sobreviveu às carestias decorrentes das hecatombes cíclicas – morais e físicas – que o tempo impõe ao tempo. Sobreviveu ao moderno e ao contemporâneo. Intacto o palácio. Ainda reconhecíveis o salão, os tapetes, os quadros, a louçaria, os lustres… A poeira do tempo, implacável, desbotou os tapetes, mofou as paredes, trincou os cristais, capengou as cadeiras, deixou esmaecida a insígnia decorativa dos pratos, lapidou ranhuras na madeira da mesa para duzentas pessoas. Os lustres, tristes lustres de velas gastas e não substituídas, multiplicando sombras.

A mesa posta para o café da manhã. Na cabeceira um homem velho, vasta cabeleira esbranquiçada, bigodes fartos. Próximo a ele, outras pessoas compartilham a mesa: uma senhora idosa observa atentamente os itens da refeição como quem supervisiona o cumprimento das exigências ordenadas. Fecha-se o ciclo dos comensais colocando em cena dois homens e uma mulher. Os homens regulam idades próximas: passam dos trinta anos, mas não superam os quarenta. A mulher, aparentemente mais nova que todos, usa uma maquiagem discreta muito coerente com o horário da manhã. Ninguém fala. Ninguém interage na mesa, nem mesmo pedem para passar o bule ou a jarra de refresco. O pão é visivelmente dormido, o refresco é ralo para que a quantidade seja maior, o café é fraco para que o pó seja economizado, a manteiga é rançosa porque é presença eventual e já foi aberta há algum tempo, o bolo longe de ser fresco começa a dar sinais impróprios para o consumo. As pessoas trocam olhares. Entreolham-se como se fossem estranhos, como se esperassem um gesto ou uma palavra que interrompesse a refeição e pusesse abaixo o esforço que cada um parecia empreender para levar a cabo aqueles instantes de convívio. Contragosto parecia ser a unanimidade reunida naquela mesa e também a única intimidade possível a compartilhar. Manteiga rançosa combina muito bem com pessoas rancorosas, talvez por isso todos deram fim, em maior ou menor porção, à manteiga que tentava disfarçar o pão de vésperas imprecisas.

Amanhã eu quero que os papéis assinados me sejam entregues!

Quando o velho pronunciou aquela frase, a senhora idosa olhou os filhos com algum receio e nervosismo.

E lá vamos nós…. Disse com algum cansaço o filho que parecia ser o mais velho.

Tenha paciência. Insistiu a senhora, enquanto o filho se levantava da cadeira, colocava o paletó e se perdia para fora do palácio.

Arão e Miriã se olharam, mas sem cumplicidade. Se olharam do jeito que se olham pessoas que não se respeitam, que não se admiram, apenas se suportam. Esperaram o tempo de dois ou três goles no café ralo e quase ao mesmo tempo se levantaram seguindo a mesma direção de Moisés, o irmão mais velho.

No enorme salão, uma mesa de duzentos lugares. Duzentas possibilidades de convivência. Duzentas chances de alegrias. Duzentas oportunidades de amor. Duzentas perspectivas de fraternidade. Duzentas hipóteses que se reverteram em velhice e decrepitude nas duas cadeiras ocupadas. Os cento e noventa e oito assentos completamente pulverizados na solidão dos séculos. O homem velho, a mulher idosa, o salão apagado, as cortinas gastas, as pinturas já indecifráveis pela erosão do tempo; são registros extremados do pecado de uma obstinada resistência. Os filhos, três seres insondáveis, rotas em colisão iminente, seguirão com amargura e rancor, desprezando o passado e assinando papéis na ilusão de estarem destrancando o futuro.

O tempo desconhece o que seja perdão…

5 Comentários

  • Diderot Lopes

    Muita imaginação criada em cima de partes de realidade. O texto como sempre flui de uma forma maravilhosa, conduzindo o leitor aos detalhes do “café da manhã” para o qual foi convidado participando assim sem poder interferir.

  • Renato Soares Menezes

    Belo, porém triste texto. Verdadeiro, sem dúvida. Afinal, parece que cada pessoa sente a passagem do tempo de uma forma distinta – vai depender das experiências de vida e da personalidade de cada um. De um modo geral, as pessoas têm a consciência de que a passagem do tempo é inevitável e que as marcas que o mesmo deixa são inexoráveis… Contudo, parece haver quem não assimile essa ideia – a da passagem do tempo -, não a interiorizam, como se a recusassem. As que aceitam que o tempo passa, que é finito, vivem o presente, a vida, ao máximo, celebram com entusiasmo todos os dias em que acordam, vivas, prontas para o café da manhã… A vida é efêmera , daí a importância do presente – porque o amanhã pode não existir. Mas é necessário saber viver, ao contrário de simplesmente deixar os dias passarem, sem que eles, os dias, nada nos acrescentem. Em 2020, por causa dessa terrível pandemia que assola o Planeta, ficou bem claro que o nosso tempo é finito…E essa reflexão me fez pensar na canção “Resposta ao Tempo”, de Aldir Blanc: “E o tempo se rói/Com inveja de mim/Me vigia querendo aprender/Como eu morro de amor/Prá tentar reviver”. Certamente, não é assim, tentando reinventar os dias, com entusiasmo, que o grupo de cinco pessoas reunidas para o café da manhã, apresentadas no texto, vivem: ao contrário, parecem estar mortas, enquanto o tempo, este sim, continua vivo, como se zombasse delas.

  • Mônica Barros Coutinho

    Começamos encantados com o salão em seu auge, tanta riqueza, luxo e ostentação…. Até chegarmos ao Café da Manhã… Onde o espaço, os móveis, a própria refeição, estão deteriorados…. E as relações entre as pessoas também… Fiquei pensando nas duzentas possibilidades de convivência, de alegrias, de amor… Desperdiçados… Que escolhas foram feitas pelos personagens, que escolhas fazemos na nossa vida… E terminamos felizes por não estarmos naquele Café da Manhã… Parabéns, Vera, pelo texto! Bj grande

  • Ana Cristina Palacky

    Vera Cristina. Li o seu Café da Manhã e nele encontrei, através das suas descrições e voos imaginários, os rasgos literários dos pensamentos de Proust, Saramago e Gabriel Marques, sem esquecer de Nelson Rodrigues e Charles Dickens. Texto sofisticado e recheado de reflexões sobre emoções humanas que compartilham e se odeiam ao mesmo tempo, sentimentos rancosos, mofados, endurecidos pelo tempo e rancor. De repente a beleza do palácio se transforma em palco de teatro que me lembram cenários de peças antigas de Nelson Rodrigues.A busca do tempo perdido me volta a Proust. A aristocracia de uma época que passou e nos deixou luxo e grandeza mesclados com gosto de bolos mofados e sabores ácidos. O ser humano se depara com a fragilidade do viver e a exiguidade desta grande viagem em terra estrangeira, de onde todos nós um dia partiremos – e os cristais, tapetes, quadros, os banquetes e os cafés da manhã edulcorados de ódio e desprezo não terão importância alguma.
    Parabéns Vera Cristina. Página teatral e magnífica.

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