Sentimentos acontecem dos fatos

A Máscara Nossa de Cada Dia

Não. Não estou me referindo às máscaras que qualquer pessoa deveria usar para emparedar essa epidemia do COVID, seja por cidadania no sentido de preservar as demais pessoas, seja por egoísmo na perspectiva única de impedir que alguém possa infectá-lo. Não, não me refiro a essas máscaras, nem quero dissertar sobre os aloprados que dispensam o seu uso, ou que não se deram conta de que a melhor utilização não é aquela exibida na testa, no queixo, ou pendurada qual um estandarte em prolongamento a uma das orelhas. São atitudes negacionistas absurdas demais que me obrigariam a um texto fantasmagórico que me levaria a apontar os que se recusam a tomar vacinas, os que frequentam baladas aglomeradas, e, sinceramente, gostaria que todos esses caminhassem em linha reta e despencassem no abismo da tal terra plana que tanto defendem. Talvez assim o mundo se tornaria melhor, mesmo que um pouco mais entediante.

Me refiro às máscaras que todos, sem exceção, fazem uso, independente das crenças religiosas, das preferências políticas, do nível social de vínculo, do gosto musical favorito. Máscaras as quais recorremos para evitar que as circunstâncias nos obriguem a lidar com aspectos indesejáveis que nos levariam a qualquer tipo de embate.

Já empreguei máscaras sem saber exatamente a expressão verdadeira que teria meu rosto, mas o instinto de sobrevivência foi mais forte e rapidamente coloquei a primeira que me ocorreu, mesmo que um tanto desajustada, deixando escapar pelas frestas meus julgamentos críticos sobre os fatos. Batizei a minha coleção de “filosofia chinesa”, isto porque posso classificar as máscaras em duas séries: as de predominância Yin, e as preponderantemente Yang. Mas também disponho de algumas máscaras elásticas que inicialmente se apresentam com uma expressão, e que assumem outra personificação a partir do clarear de uma situação. São as máscaras que constituem a artesania do convívio afeto à minha existência. Acredito que de todos.

As máscaras da condescendência são as mais cansativas, confesso. Elas se relacionam com o próximo enaltecendo detalhes, querendo buscar beleza escondida atrás de borrões, ou lembrando que a força vital está sempre presente mesmo quando a pessoa está na sarjeta prestes a desmaiar. As máscaras da indignação, explodem, fogos de artifício de pura adrenalina, mantêm uma energia propulsora, me impedem a depressão; ao contrário, parecem que me garantem o instante seguinte, ou a próxima encarnação.

Não acordo e vou lá escolher a máscara do dia. Não é assim que funciona. A máscara acontece a partir da capacidade de exposição que o dia oferece. Uso máscara assistindo o noticiário, no telefone com a operadora do plano de saúde, no contato por vídeo com os amigos, na negociação de preço com um prestador de serviço… quando me esqueço, escovo os dentes, coloco o pijama, mas vou deitar sem desgrudar da face a serventia da máscara desenvolvida na última atuação. E sonho com máscaras…

Agora, sentada aqui, na frente da tela, brinco de tirar e colocar máscaras. São tantas as possibilidades que a vertigem se impõe. Pudesse eu saber a máscara que emprestasse um sorriso a quem chegar por aqui. Pudesse eu a máscara da onipotência para derramar, distraidamente, um pouco de paz na convulsão desses tempos.

Mas por enquanto, lavo o rosto e respiro fundo…

5 Comentários

  • Ana Cristina Palacky

    Vera Cristina, Gostei muito do seu texto sobre máscaras. Bonito, sensível, cheio de humanidade. Próprio para a época de Covid. Embora as suas máscaras sejam emocionais para esconder as tristezas e desapontamentos da alma. Máscaras são alegres, coloridas, operáticas, teatrais, carnavalescas, espalhafatosas como as Venezianas. E atormentadas como as japonesas do Kabuki e brancas como as usadas pelas gueixas de Kyoto. Máscaras mudam com as estações. Refletem as cores tanto do verão, quanto do inverno. Amo as máscaras vermelhas e douradas. E aquelas obscuras que camuflam dissidência e resistência. Máscaras são armas e escudos para olhar e enfrentar o lado inóspito e ácido desta aventura de nós todos e todas caminhando em terra estrangeira. Parabéns. Ana Cristina Palacky

  • Mônica Barros Coutinho

    Ótimo texto, Vera!Sem dúvida a vida nos ensina a não entrar em embates desnecessários, e, muitas vezes usamos máscaras da indiferença para não expor nossos sentimentos… Que nos arrependemos de mostrar em algumas situações… A questão que ficou para mim é se em algum momento, conseguimos não usar máscara… Para nós mesmos… Penso na infinidade de máscaras e nas nossas múltiplas facetas, nos nossos momentos de egoísmo e nos momentos de generosidade, dos gestos que nos arrependemos e dos que nos orgulhamos… Seres que somos em processo de crescimento e evolução…

  • Kelly

    Belíssima crônica.
    Pelo menos, a alguns, é dado o tempo de lavar o rosto (observar isso que não tem nome nem face) antes de sentir novamente deslizar pelas horas as tantas e já conhecidas máscaras; inclusive a da onipotencia, essa que se Inebria na esperança de levar aos próximos algo reto, comunicável. Mas como são muitos e multifacetadas as máscaras, a luta é sempre contra a máscara do controle.

  • Renato Soares Menezes

    Instigante texto! Hoje em dia, há cerca de dois anos, usamos, cotidianamente, as máscaras cirúrgicas, como barreira contra a pandemia da COVID-19. Mas não é desse tipo de máscara que o texto aborda, e sim das máscaras emocionais que usamos, dependendo de cada um, diariamente ou apenas quando se faz necessário. O mais saudável é as usarmos de forma consciente, e não as usarmos sem nem nos percebermos dessa atitude. Quando as usamos dessa maneira, sem percebemos, estamos moldando nossa personalidade – o que pode ser muito negativo. Contudo, quando as usamos de forma consciente, por uma determinada razão, para alcançarmos um certo objetivo, estamos apenas sendo personagens – como em uma representação teatral, cinematográfica ou televisiva (não vou entrar aqui no mérito das necessidades de essas máscaras serem usadas, pois me desviaria do foco do texto e este comentário se alongaria de forma demasiada). E, em certas profissões, o seu uso pode se revelar muito útil (além, é claro, da profissão de ator). O importante, a meu ver, é que saibamos usá-las e, sobretudo, não nos deixarmos dominar por uma delas, pois aí estaríamos alterando a nossa personalidade em desfavor das personagens que podemos encarar conforme a necessidade. Sim, sabermos como usá-las pode ser apreendido, mas nada como saber usá-las por intuição, de forma natural, embora assertiva – como um ator de primeira grandeza.

  • Diderot Lopes

    Seu texto nos apresenta no mínimo dois tipos de máscaras para refletimos: as físicas como objeto com utilidade presumida – com muita visibilidade nesse momento de COVID – e as “emocionais para esconder as tristezas e desapontamentos da alma”, conforme apontamento no comentário de Ana Cristina com quem concordo entendido “alma” como algo imaterial.
    No meu pensar diante do seu texto e comentário, parece razoável poder se afirmar que aquilo que chamamos como vida, nos leva a transitar por espaços acima e abaixo – sem nenhum planejamento possível – sendo possível aplicar muita atenção, para poder entender que a sabedoria está em reconhecer que o movimento pendular está sempre presente, que os enfrentamentos no sentido de lutas são desnecessários, e sendo assim, o estoque de máscaras [emocionais, alegres, teatrais, preventivas…] deve contemplar esse caminho de subida e descida.
    As “estações” sempre estarão presentes em todos os lugares e tempos, “invertidas” em alguns momentos dependendo do ponto de observação. O que é fundamental é saber que “máscara” devo escolher – afastando a toxidade – para transitar nesse caminho determinista, onde caminhar se fazendo presente é imprescindível e saudável.

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