Sentimentos acontecem dos fatos

Dizem que Deus existe

Eu não entendia muito bem como era possível a minha irmã, pouca coisa mais velha que eu, só acordar quando o dia deslizava para lá do meio de si mesmo. Não sabia se era a falta de inteligência que a impedia de pular da cama logo nos primeiros raios da manhã, bem antes do também preguiçoso galo se manifestar, e ir à cata de aventuras, brincadeiras, descobertas. Sempre foram inesgotáveis as surpresas oferecidas por este mundo. Mas, quem sabe, fosse sinal de inteligência ela só acordar depois do meio-dia; talvez estivesse sabiamente economizando energia para que fizesse bonito na velhice. Evitando desta forma não vir a ser, em nada, parecida com a Da. Carminha, que arrastava os pés e o corpo pela casa, entre um gemido e outro, no ritmo da própria respiração. Assim, poupando a energia da juventude, pudesse transferi-la para uma idade em que lhe seria mais necessária. Não sei o que levava a minha irmã a perder parte preciosa do dia, contudo eu não me importava em ser o menos inteligente; trocava minha presumível inteligência pelo direito aos exageros, muitos deles inconsequentes, que me apontavam ser uma criança sadia: uma corrida até o riacho pelo gosto de chegar antes dos colegas; sentir o vento no rosto pedalando a bicicleta até alcançar o outro lado da cidade; trocar um sorriso por um doce na padaria do Seu Antônio; sentar na pedra mais alta do penhasco e ficar horas admirando o incansável vai e vem das ondas. Só encontrava a minha irmã na hora do almoço, sabendo que o café da manhã dela era a segunda refeição do dia para todos.

Talvez fosse o excesso de delicadeza da minha irmã que a mantinha afastada das pequenas brutalidades e das reações instintivas que ocupavam os meus dias permitindo-me afirmar o sabor da vida a partir das texturas a que me expunha: desviar minha bicicleta dos buracos do caminho; recolher os passarinhos feridos que na primavera se multiplicavam; colher flores com a astúcia de não ferir as mãos nos espinhos; olhar a imensidão do mar e não entender nada do que fosse infinito. O mundo era de fato muito violento e a minha irmã talvez disso deveria se resguardar, no tanto que adiava fazer parte da naturalidade com que os dias insistiam em acontecer.

Para ter a companhia da minha irmã, minhas tardes desenhavam um ritmo diferenciado: passava as horas mais dentro de casa, na frente de muitos tabuleiros de jogos que se revezavam nos objetivos, mas que não faltavam dados e casinhas a avançar. Quando não, ela lia para mim sucessivos livros, sendo os de contos os meus preferidos porque não exigiam de minha memória identificar o fio da meada na continuidade dos enredos que haviam sido interrompidos num intervalo de dois ou três dias. Enquanto que as minhas manhãs mais solitárias eram plenas na consumação de energia, minhas tardes eram diametralmente opostas: o mundo parecia estar abalado quanto ao compasso e, muitas vezes, ouvia-se apenas a nossa respiração, o barulho dos dados sendo lançados, ou a voz doce de minha irmã alargando a minha imaginação com histórias que impressionavam e me faziam querer viver as aventuras que os personagens me instigavam a experimentar.

Éramos tão diferentes e, no entanto, vínhamos da mesma família, embora muitas vezes colocasse em suspeição tal fato: imaginava que me tinham adotado e que por algum motivo secreto não queriam me deixar ciente do que explicaria em tudo sermos, minha irmã e eu, tão diferentes.

Desconfiava que a minha irmã não era feliz. Mas o que eu sabia de felicidade? Creio que eu media a felicidade pela quantidade de sorrisos que se manifestavam no transcurso de um dia. Raramente eu testemunhei minha irmã sorrir e quando uma gargalhada se despregava dela eu até tremia de tanta emoção. Mas, talvez, minha irmã tivesse mais paciência com a felicidade enquanto eu tinha uma pressa danada em querer que o mundo esgotasse ao extremo a minha capacidade de ser alegre. Tudo em mim era urgente ao passo que minha irmã parecia respeitar o instante de cada coisa para saborear a maturidade de seu esplendor.

Eu consegui envelhecer apesar das cicatrizes com que insistiram os fios das navalhas, apesar da surpresa em continuar respirando, apesar da ignorância absoluta de propósitos. Minha irmã não conseguiu usar na velhice a energia que economizou na juventude. Foi embora com a mesma suavidade com que viveu: morreu dormindo, deixando para mim um meio sorriso congelado em despedida, como coisa que fosse um presente já que não media esforços para vê-la sorrir nas tardes compartilhadas.

Fiquei com os dias inteiros só para mim. Fiquei com a saudade. Fiquei com o silêncio. Fiquei com esse vazio que nunca foi preenchido.

E tudo mais é só mistério…

5 Comentários

  • Ana Cristina Palacky

    Vera Cristina. Hoje, sábado do outono, reservei para ler seu novíssimo texto, cujo título questiona se Deus existe. Provocativo e corajoso. Gostei. Aprecio questionamentos de congeladas verdades ou petrificadas mentiras que nos são impostas ao longo de nossas existências. O texto é sensível e doce, nele há muita ternura em desenhar o perfil da irmã que já partiu. Simpáticas e suaves lembranças costuradas em seda chinesa das mais finas, em delicadas linhas de matizes rosadas. Alegoria de afeição e de saudade. Tristeza e nostalgia se abraçam, riem, se afastam – e sempre retornam. Sua carta é uma adorável pintura, delicada e amorosa, nas cores fluidas das flores do jardim que inspiraram as telas de Monet. Parabéns. Ana Cristina

  • Diderot Lopes

    Seguindo a lógica da escrita, entre outros, alguns se sentirão emocionalmente afetados pela perda dessa irmã que se foi, e outros, optarão em aderir ao questionamento do título. Alguns poucos focarão nos detalhes e sutilezas que somente aqueles muito sensíveis terão acesso para perceber.

    Essas poucas observações nos colocam diante de atributo único de nossa espécie que é conceber situações ou realizações materiais, como por exemplo uma imagem esculpida em madeira feita a milhares de anos atrás, representando um ser com cabeça de mulher, meio corpo de leão, sobre pernas humanas e asas de águias em tempo em que a escrita não existia.

    Esses são os mesmos que conceberam deuses teísta humanizados, e ainda, descreveram os espíritos, e outros ainda, imaginaram teologias com seres sobre-humanos – todos fundados em crenças – tendo como referências seres humanizados, ou seja, somos nós que estabelecemos deuses monoteísta, politeístas, panteísta à nossa imagem.

    Difícil tem sido abandonar esse deus humanizado e concebê-lo sem forma material, “pura existência, sem nome ou personalidade”…

    Aqui a Autora nos apresenta a sua narrativa que nos deixa sensibilizados para que cada leitor incorpore outras possibilidades e dê significado ao conteúdo agregando valor.

  • Mônica Barros Coutinho

    Que texto lindo e emocionante! Em que a diferença não antagoniza, ao contrário, soma, complementa… Enriquece… E é o amor que faz esse laço… Com muita ternura…
    Acolher a diferença, o dia e a noite, o sol e a lua…. Acolher o outro e a nós mesmos em nossos diferentes momentos …. Parabéns, Vera!!!

  • renato menezes

    Um texto delicado e terno, no que diz respeito à irmã (fictícia) da Autora. Restaram as saudades, o silêncio, o vazio… Mas a questão provocada pelo título permanece: Deus existe? Acreditamos que Deus não é assunto científico – que não admite refutações. Seria mais um tema da metafísica – que não trata de fenômenos físicos. Por outro lado, algumas das tarefas altamente especializadas e complexas do organismo – como a audição, a visão, o transporte celular e a coagulação – não podem ser explicadas apenas pela evolução: a vida seguiria um planejamento específico. Durante um certo tempo acreditou-se que as religiôes desapareceriam sob a égide da razão, enquanto que as sociedades se tornassem mais desenvolvidas. No entanto, o que vemos é que em mundo cada vez mais globalizado e tecnicamente avançado, multiplicam-se as manifestações da vida religiosa, ao ponto de médicos já acreditarem em uma medicina espírita e vermos, em determinados cursos de Medicina, a existência de disciplinas voltadas para o Espiritismo. E se acreditamos no Espiritismo, em vida após o desencarne, em espíritos (ou almas), acreditamos na existência de um Deus.

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