Sentimentos acontecem dos fatos

Anamnese de um Criminoso

Depois de meia hora sentado na minha frente, mantinha o mesmo ar distraído de quando entrou na sala. Definitivamente não se deixava intimidar nem pelo local onde estava e muito menos pela minha pessoa. Eu é que não tinha a mínima paciência para lidar com famosos, se bem que a figura a quem devia inquirir não apresentava nenhum traço glamoroso de gente acostumada a ser assediada por fãs, ou disputada pela mídia. Era até simplório demais: camiseta um pouco gasta, calça jeans antiga o suficiente para dar sinais de reconhecer o corpo que a vestia, cabelo curto que dispensava o uso de pente, sapatos mocassim longe de serem novos. Uma figura comum por completo: meia idade, corpo ainda preservado na musculatura, magro sem exageros, olhos castanhos claros que dificilmente se poderia identificar uma emoção. Um ser que se disfarçava de abstrato. Sentado na minha frente, eu querendo condená-lo por mentiroso, sabendo que me seria impossível trancafiá-lo na cadeia, nem mesmo por uma noite.

O crime – a meu ver, entendimento, e convicção absoluta – se dava pelo fato dele ser escritor. Escritores são impostores por natureza que vivem enganando as pessoas. Uma espécie perigosa de estelionatário da realidade, pois quanto mais imaginativo maior o sucesso, maior o prestígio. Um vigarista que, infelizmente, nunca pode ser levado aos tribunais apesar de suas invencionices que só fazem distorcer a realidade. Inventam vidas para depois assassiná-las ao bel prazer e vontade e, apesar disso, continuam impunes.

Eu fazia as perguntas querendo rastrear todas as evidências que, ao longo do tempo, favoreceram-no a tornar-se um criminoso consagrado. A maldição começou bem cedo, em tenra idade, quando tinha interesse por colecionar palavras desconhecidas e colocá-las em ordem alfabética num fichário rusticamente improvisado. Mas mesmo antes desse compromisso em guardar palavras, já era uma criança estranha. Escritores são prematuramente estranhos e se distinguem facilmente das demais crianças. Uns muito agitados, outros excessivamente ensimesmados; não importa qual dos extremos venham a pertencer, certamente ocuparão o espaço e neles crescerão como ervas daninhas no aconchego do próprio destino. É no estranhamento demonstrado desde pequenos que constroem o estilo literário a que irão servir.

Esse na minha frente, sereno, capaz de irritar até monges, tem uma escrita mansa; coloca todos os seus personagens interagindo com o campo, com a vida rural, mas aposto que nunca colocou os dois pés por uma hora para além do agito da capital. Tudo hipocrisia. Tudo mentira deslavada para enganar as pessoas de bem que acreditam e se envolvem com as coisas que ele escreve. Por mais que eu queira, não vai preso por essas farsas. Nunca foi, e olha que lá se vão muitos livros recomendados pela crítica especializada. Agora foi demais: ganhou o prêmio mais cobiçado de literatura no país. Muita audácia. Eu li. Eu li umas duzentas páginas, com letrinhas miúdas, apinhadas de delírios sobre um mundo perfeito, habitado por seres humanos evoluídos, que faz com que a maioria dos leitores termine a leitura com os olhos embaçados por uma beleza que não existe no mundo real. É um embusteiro. É um mercenário, isso sim! E eu não posso fazer nada com esse infeliz que fica me olhando com um olhar doce, acreditando piamente que eu não vou lhe estourar os miolos. Queria ver se manteria essa fleuma depois que eu lhe aplicasse umas duas ou três sessões de tortura, daquelas boas que meu pai me ensinou lá no tempo da ditadura. Queria ver se manteria essa candura, esse fingimento.

– Sr. Delegado, não querendo ser inconveniente, mas poderíamos esclarecer o motivo dessa detenção o mais breve possível? Tenho uma entrevista em algumas horas e já não posso adiar o compromisso.

– Entrevista né? Vai dar mais uma entrevista. Vai falar sobre o livro com o intuito de vender mais exemplares. É isso que você vai fazer, bem sei.

– Mas esta é a minha profissão. Preciso divulgar as minhas obras para garantir o meu sustento a partir dos meus leitores.

– Olhe bem: já perdi tempo demais com você. Li tudo que você escreveu. Não existe nenhuma linha verdadeira no amontoado da história que me tirou o sono e que me impediu de fazer qualquer outra coisa enquanto não chegasse ao fim da trama. E eu não posso lhe deter aqui por mais tempo, embora tenha certeza absoluta que o senhor é um criminoso da pior espécie. Um criminoso que escapole, a cada livro, da minha convicção plena de tratar-se de um farsante disseminador de ideias que nenhum ser humano poderá praticar. Eu terei que mandá-lo ir embora, mais uma vez. Mas fique atento que estarei sempre no seu encalço. Qualquer deslize, qualquer brecha, tenha certeza de que as minhas algemas esperam ansiosas pelos seus pulsos.

– Tomarei cuidado Sr. Delegado. Ficarei de prontidão para evitar a todo custo as garras da realidade. Deixarei aqui para o senhor, como nas vezes anteriores, o último livro autografado. Passar bem.

Para D.C.L. que acreditou ser verdadeira uma das minhas histórias inventadas.

3 Comentários

  • Mônica Barros Coutinho

    Eu daria um troféu, uma medalha ao escritor…. Conseguir nos transportar para outra realidade….
    Sonharmos juntos a utopia de um mundo melhor… Ou vivermos as dificuldades e irmos vencendo os problemas com o personagem, tamanha a identificação, é muito bom! Obrigada Vera, por oferecer essa possibilidade de experimentar através da sua escrita, tantas possibilidades… Parabéns pelo ótimo texto! Bj grande

  • renato menezes

    Mais um belo, contagiante e estimulador texto da Autora. A ficção é importante em nossas vidas pelo simples fato de ela ser tão distante da realidade. A ficção pode, assim, ser encarada como uma forma de escape da rotineira realidade, podendo levar o leitor a mundos impossíveis. Na verdade, a ficção se baseia na realidade, é uma reflexão da realidade, mas por meio da criação. Ela é capaz de suavizar a realidade ou torná-la mais dura; sendo fruto da imaginação e da criatividade, é um elemento estimulador do intelecto humano – para o escritor e para o leitor.
    A ficção literária é, sim, uma forma muito particular de mentira: é a mentira que poderia ter acontecido ou mesmo que deveria ter acontecido, para que a verdade fosse mostrada de maneira mais completa. É na ficção que podemos conhecer com maior profundidade a natureza humana. Portanto, senhora Autora, libere o escritor para que ele possa continuar com o seu trabalho tão útil.

  • Ana Cristina Palacky

    Cara Vera Cristina, parabéns pela originalidade do seu último texto.Excelente narrativa do escritor libertário e acusado ao mesmo tempo.Escritores ao longo dos séculos sempre sofreram ou por dizerem a verdade ou por camuflarem a verdade, ou por inventarem a verdade. Escrever é ato de expressão, de resistência e de imaginação. Gosto dos autores ousados, corajosos, assim como dos dissidentes e dos obscuros e muito dos poetas sedutores. A escrita libera, voa e canta. O seu moderno escritor – no mundo bolchevista poderia ir para o gulag ou para o hospital psiquiátrico. Agora no mundo dito ocidental é criticado e condenado a desaparecer das prateleiras e das mídias digitais por incorreção política na escolha de temas e por aventuras astrais e multisexuais. A arte e o poder de escrever são enormes e assim podem tornar convictos os que narram, detalham, pintam, desenham, criam, denunciam, espalham notícias e visões ofuscantes, sejam azuis ou cinzentas, deste universo em profunda mutação.
    Vera Cristina, adorei o vigor, a profundidade filosófica e a sua sublime – ainda que intensa – mensagem humanitária. O escitor resiste em vocêe. Abraços afetuosos da admiradora – sempre cruzalmense – Ana Cristina Palacky

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