Sentimentos acontecem dos fatos

IDH – Índice por Demais Horrível

Primeiro que é muito esquisito se ter um Índice de Desenvolvimento Humano. Sempre me sugeriu ser um daqueles indicadores que estimulam a inveja planetária, fomentadores de expressões do tipo: “Meu IDH é melhor que o seu! Meu país é o máximo, o seu, mínimo!”. Segundo, se eu tivesse que calcular o IDH levaria em conta outros quesitos além de saúde, educação e renda. Colocaria níveis de simpatia, generosidade, solidariedade, tolerância, empatia, etc. Essas coisas contam pouco, eu sei…

Além de competitividade, o IDH mexe com a autoestima dos países. Dificilmente um país com IDH baixo se sente estimulado a reagir a partir da divulgação do tal Índice. É mais provável que se sinta envergonhado, sentado no beiral da civilização, remoendo a inferioridade que lhe foi apontada de forma acusatória. Em 2019 o Brasil tinha o seu IDH em 0,765, ocupando o número 84 no ranking mundial onde figuram cento e oitenta e nove países. Aposto que hoje deve ter descido de maneira vertiginosa, na velocidade de quem brinca no tobogã. Enquanto isso a Noruega, super bonita, desfila o primeiro lugar, com um orgulho que só Miss Universo deve sentir.

A quase folclórica rivalidade entre argentinos e brasileiros só faz com que o IDH nos deixe humilhados. A Argentina ocupa a 46º posição no rank. É uma Copa do Mundo perdida! Isto sem falar do Chile (43º) e do Uruguai (55º) que nos lançam um sorriso de desprezo, do tamanho do Mercosul.

E o que fazemos com esse 84º lugar? Se passarmos os olhos na situação da Saúde, facilmente se encherão de lágrimas só pelo descaso do Governo nessa pandemia, fora as situações precárias, em muitos aspectos, que existiam antes e que só fizeram piorar com a demanda reprimida no isolamento. Se nos detivermos na Educação, basta dizer que nem mesmo o nome do Ministro eu sei, mas sei que por lá têm muitos servidores insatisfeitos abandonando os cargos, alegando tanto assédio moral quanto incompetência técnica. Renda? Bem isso nós temos e muito!!! Só que está reservada a uma parte ínfima da população, geralmente aquela parte da população que não trabalha e vive de rendas (com o perdão do trocadilho), comissões e corrupções.

Fica muito difícil melhorar nossa fotografia no crachá do IDH, se não conseguirmos avançar em questões basilares associadas aos três elementos que compõem o indicador. Não é possível almejarmos posição melhor enquanto 45,9% da população não tem acesso à coleta de esgoto, 11,3 milhões de pessoas com mais de 15 anos são analfabetas, e 30% dos que têm entre 15 e 64 anos são identificados como analfabetos funcionais. Esta última taxa nos leva para a Educação com alto índice de evasão escolar (10 milhões de pessoas entre 14 e 29 anos não terminaram alguma etapa da educação básica). E não podemos negar que a deterioração econômica atual só fará com que uma quantidade maior de jovens tenha que abandonar os estudos para ajudar na renda familiar, seja lá da forma que for. E estamos precisando de renda, tafetá, sianinha, brocado…, mas a oferta de empregos tem atirado um enorme contingente para um lado improvisado da sobrevivência. E não há nenhum glamour ligado ao empreendedorismo nisso não: são pessoas desesperadas que são obrigadas a identificar qualquer atividade informal para escaparem da mendicância social. Se puderem.

Não preciso que me venham atirar nenhum IDH na cara para saber que vamos mal. Vamos muito mal. Vamos por aí muito tristes. Vamos arrastando pela mão o pouquinho da esperança que nos sobrou. Carecemos de proteína tanto quanto de oportunidades. As sandálias estão gastas e a alma parece que está infeccionada. Mas o dia amanhece todos os dias, e a gente pensa a cada dia que tudo vai se modificar. E até que de vez em quando acontece um sorriso, e a gente o estende ao máximo quase por histeria. E abraça com os olhos os queridos e passa álcool no otimismo para nele respirarmos.

Enquanto a criança brinca na ferida aberta de um esgoto mal cheiroso, reciclo meu lixo e acho tão pouco doar meus livros para a biblioteca comunitária. Percorro os bazares, os brechós, cedo coisas, compro outras. E o IDH só faz despencar ladeira abaixo, pelas favelas que se multiplicam na opressão que se espalha na altura dos calcanhares do poder. Um dia identificaremos o Calcanhar de Aquiles e lançaremos uma flecha que destruirá as desigualdades. Teremos, então, permissão para sonhar.

5 Comentários

  • Renato Soares Menezes

    O novo texto da Autora tem um viés irônico. Mas é isso mesmo; embora a Autora diga que não precisa do IDH para saber que as coisas vão mal, o objetivo da publicação do ìndice é, basicamente, o de:

    (a) mostrar a situação para quem não sabe, os outros países, as outras populações, os governantes, os tomadores de decisão e os formadores de opinião, entre outros; e

    (b) para que quem possa (Estados, Organizações, ONGs…) auxilie nos planos de ajuda humanitária.

    É um indicador importante porque leva em conta também os fatores sociais e não apenas os econômicos, como os índices obtidos com o PIB. O IDH coleta, assim, informações sobre a qualidade de vida das pessoas, além de dados econômicos sobre determinado território.

    Agora, falar da avaliação feita sobre esses dados e sobre o uso dos mesmos é outra questão, política, a ser resolvida pelo voto, por cada população, e que não deve invalidar nem mesmo subestimar a coleta dos indicadores!

  • Tania

    Pois é, amiga. Bem isso tudo, sem tirar nem por. Perfeita a escolha do vídeo/canção. Beijo orgulhoso pra vc (que deveria entrar na medição do IDH…rs).

  • Mônica Barros Coutinho

    Querida Vera, parabéns! Ótimo texto! E a música é perfeita! A gente vai levando, porque resta o nosso esforço, mesmo com nó no peito…

  • Ana Cristina Palacky

    Querida Vera Cristina. Li o seu texto. Político. Ácido. Crítico. Irônico. Ótimo e momentoso. Nossa democracia ateniense sobrevive mal e sempre às vésperas das eleições. Depois as promessas rapidamente se encolhem e a maioria simplesmente morre. Nossa democracia se valida e se confirma nas castas, assim como acontecia na antiga Grécia. A massa excluída vive de minguados auxílios eleitoreiros. Desamparada. Ostracizada.Desempregada. Analfabeta….Doente e carente. A casa grande e a favela convivem em pleno 2021, próximas e tão distantes………
    Nada mais a dizer… As caravelas partirão de volta ao velho mundo….
    Abs cruzalmenses. Ana Cristina

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