Saltaram dos livros e vieram para cá

Leio o que ninguém escreveu

A primeira vez que eu li, devia ter uns quatro ou cinco anos e viajava com a família pelas estradas de Minas Gerais. Provavelmente eram férias e, como sempre, percorríamos o roteiro das cidades de águas termais. Revezávamos a cada ano, ora Caxambu, ora Poços de Calda, quando não São Lourenço, às vezes Araxá. Foi dentro de um ônibus interestadual, caída a noite, que eu li as estrelas através da janela porque, fato dado, os assentos ao lado das janelas eram meus sem necessidade de qualquer argumentação reivindicatória junto à família.

Não sei dizer, com precisão, que espécie de história as estrelas me permitiram interpretar, mas lá estava eu, miúda de todo, hipnotizada no cenário, fascinada pelos prateados pontos que de tão próximos me davam a certeza de que se tratava de um céu cinza brilhante com alguns pontos escuros que deveriam existir só para realçar ainda mais o prateado de tudo. E as estrelas pareciam sorrir. Eu sorria de volta. De vez em quando uma despencava lá das alturas e eu me controlava para não abrir a janela e colocar o braço para fora, torcendo para que ela viesse descansar na palma da minha mão aberta. Essa foi a primeira vez que eu li. Se Deus era o Autor do cenário, minha interpretação da noite estrelada me consagrou como coautora, numa exuberância íntima e extremamente particular do fato.  

O texto é uma relação que só funciona quando o leitor nele interfere para a produção dos significados. O leitor entra em cena e assume seu papel não apenas de espectador, mas também de autor. (Flávio Carneiro, em O Leitor Fingido)

Os textos, olhando na distância do tempo, parece-me que foram os últimos na escala de interesses. Adorava ler cinemas, fotografias, quadros… Minha vocação se estabilizou na leitura das pessoas. Aí me perdi e me encontrei inúmeras vezes, decifrando os seres humanos na relevância do todo ou na contundência dos detalhes. A linguagem dos olhos sempre me fascinou, porque para além da capacidade de reterem a luminosidade ou dela se afastarem, é na intensidade com que se apropriam do mundo que ficam transcritas as intenções da alma. Vocês já leram os apertos de mãos? O significado daqueles que levemente encostam a mão na sua e nem chegam a contrair os dedos. Ou então aqueles que partem na direção da sua mão e a apertam com o empolgamento do encontro a ponto de fazer doer quem recebe a entusiasmada acolhida. São muitas as leituras que um aperto de mão nos dá conhecimento. Também podemos ler os sorrisos. Esses são capazes de inúmeros propósitos e talvez sejam os mais difíceis de serem compreendidos. Os sorrisos quando leves, estreitos, inspiram desconhecer uma gama enorme do que seja viver; já os sorrisos sarcásticos são exacerbados, prepotentes, cabem aos poderosos, aos controladores, aos autoritários.

Essas minhas leituras se deram em vários idiomas e nem todas com bom desempenho. Não compreendi muitas pessoas, escondidas que estavam para muito além do vocabulário da minha existência. As palavras homônimas me levaram a erros homéricos. Confundi ascender com acender e as labaredas do meu erro alcançaram o desapontamento. Pior mesmo foi ler censo acreditando tratar-se de senso, que resultou numa vasta contabilidade de pessoas sem juízo. Confundi os gregos com os romanos e foi um tumulto danado, pior que a Torre de Babel, e eu nunca consegui alcançar o céu do entendimento…

Meu repertório anda por aí, espalhado no mundo. Se multiplica na diversidade, às vezes gentil outras vezes hostil. Se apresentam de várias formas: biblioteca, pinacoteca, discoteca…., a depender dos caminhos que vou trilhando ao sabor dos encontros.

Por mais que eu leia, minha humildade reconhece que sempre haverá o que aprender.

5 Comentários

  • kelly vieira

    Meus parabéns pela sensibilidade de sempre! Tuas crônicas, profundamente filosóficas, são o motivo que me carregam à visita em teu site e, melhor, recarregam minha imaginação. O que é essa sentença?!: “A linguagem dos olhos sempre me fascinou, porque para além da capacidade de reterem a luminosidade ou dela se afastarem, é na intensidade com que se apropriam do mundo que ficam transcritas as intenções da alma. ” Leio e releio provendo tantos significados…

  • Renato Soares Menezes

    Sim, a Autora tem razão: não só os textos, mas também as estrelas, os desenhos, os gestos, os apertos de mãos, o ser humano, enfim, se prestam a leituras – ou talvez, melhor dizendo, a interpretações. Quando olhamos para o céu e vemos nuvens carregadas e escuras, logo deduzimos – ou interpretamos – que vai chover.
    Nosso corpo fala. – ou também se presta a leituras, ou a interpretações. Certamente todos já ouvimos sobre o conceito e de como a linguagem corporal de um interlocutor pode ser reveladora durante uma conversa. Gestos e expressões faciais muitas vezes falam mais do que palavras.
    E o silêncio também é revelador; às vezes, vale mais do que mil palavras, diz o ditado.
    Enfim, parece que o mundo está aberto a interpretações. O importante, contudo, é não o interpretarmos de forma equivocada… E para isso, é necessário, talvez, uma boa dose de amadurecimento… Ou de intuição.

  • Ana Cristina Palacky

    Querida Vera Cristina. Reservei esta tarde brumosa e fria para ler o seu mais novo e encantador texto. Sublime e lindo. Fala de estrelas nos céus escuros das viagens pelas montanhas de Minas Gerais. Da visão do punhado de estrelas a caírem, a sorrirem, a iluminarem os sonhos e devaneios de uma menina com a alma doce de poeta. E depois as interpretações dos gestos, das palavras, dos olhares, dos carinhos da própria vida que flui no outro. Os desapontamentos, a leitura atravessada, a construção desconstruída, a narrativa se torna obscura. A sensibilidade se desfaz ou se encontra na dissidência ou na reticência. A janela se abre ou se fecha e o mundo gira em redor de novas danças e rodopios apaixonados de amores únicos e fugazes, assim como as estrelas do céu de Minas em longa viagem que perdura na memória e na fantasia de Vera Cristina. Adorei amiga. Abs afetuosos de Praga, dos mágicos e muitos encantos do passado que sobrevivem nestes dias invernosos
    e cinzentos. Não vejo estrelas no céu de Praga. E sim mágoa ao olhar a alma coletiva tcheca. Ana Cristina.

  • Mônica Barros Coutinho

    Lindo e poético o seu texto, Vera! Que menina sensível! Olhar para a natureza e as pessoas, seus olhares e sorrisos… E para tudo e todos… Algumas vezes se sentindo parte desse todo lindo, como o espetáculo das estrelas ser co-autora… O que não deixa de ser uma possibilidade… Quanta gente no ônibus, que perdida nos próprios pensamentos, olhou sem ver ….
    Outras vezes se equivocando, mas aprendendo, sempre!
    Outra lição preciosa, não desistir diante dos erros, mas aprender com eles … Parabéns e obrigada por esse presente!

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